Ele não me tocaria.

A noite estava quente, e a música suave preenchia os corredores da casa. Eu estava na sala, folheando um livro, mais por costume do que por real interesse. Meu pensamento estava distante, perdido na contagem regressiva para o final de semana, quando finalmente veria Andrei.

Foi então que percebi a presença de Júlio.

Não era a primeira vez que nos víamos. Ele sempre esteve nas festas da família, circulando entre os homens de negócios, mantendo-se próximo o suficiente para ser notado, mas distante o bastante para nunca ser confiável. Eu sabia quem ele era, mas nunca tivemos assunto, então não entendi de imediato sua aproximação.

— Aylla Mansur — ele disse, como se provasse o som do meu nome.

Levantei o olhar, sem pressa.

— Júlio Barcellos.

Ele sorriu, aquele tipo de sorriso que homens como ele sempre usavam — polido, mas sem qualquer real simpatia por trás.

— Nunca pensei que te encontraria sozinha, sem um segurança, uma prima, um primo, é perigoso ficar assim desprotegida. — falou tentando soar protetor.

— É raro mesmo, e não tem perigo, eu sei bem me cuidar — murmurei, virando mais uma página sem realmente lê-la.

Ele se aproximou um pouco, as mãos nos bolsos do terno caro.

— Sua família fala muito bem de você.

— A minha família fala muitas coisas.

Júlio riu, como se gostasse do meu tom cortante.

— Você sempre foi assim? Tão... direta?

Fechei o livro, dessa vez olhando diretamente para ele.

— Sempre.

Ele assentiu, parecendo se divertir.

— Me dê licença, meu noivo não gostaria de saber que estive sozinha com um homem. — falei para ser mais direta.

— Nunca te vimos com ninguém e agora está noiva? — falou e notei que parecia surpreso.

Eu já esperava o comentário. Respirei fundo e soltei de forma casual:

— Sim.

— Posso perguntar quem é o sortudo?

Cruzei as pernas, mantendo a expressão calma.

— Andrei Ilanov.

O sorriso dele murchou ligeiramente.

— Um russo... — Ele mexeu no punho do paletó, desconfortável. — Agora tudo faz sentido.

Franzi o cenho.

— O que faz sentido?

— Noah ou Antony nunca aceitaram casamento nenhum para você, meu irmão conseguiu esse horário para ver Rafaela por que viemos de surpresa. — respondeu com uma voz mais alta.

Ri baixo, balançando a cabeça.

— Meu pai nunca precisou aceitar ou recusar nada. Eu mesma nunca quis, aqui nessa família somos nós que escolhemos.

A expressão de Júlio mudou completamente. Ele ficou tenso, como se algo o incomodasse profundamente. Depois de alguns segundos em silêncio, apenas girou nos calcanhares e saiu da sala sem despedidas.

Observei sua saída, sentindo um incômodo estranho no peito. Algo nele não me agradava.

Minutos depois, os gritos do lado de fora quebraram a calmaria. Fechei o livro e corri para ver o que estava acontecendo.

A confusão se desenrolava no jardim quando cheguei. Rafa estava no meio da cena, os olhos arregalados e a respiração acelerada, enquanto Matheu se colocava entre ela e Vito, claramente furioso.

— Você encostou nela? — a voz de Matheu era pura ameaça.

Vito ergueu as mãos, tentando se justificar.

— Foi um mal-entendido. Eu só...

— Só tentou me beijar — Rafa disparou, o rosto ainda vermelho de raiva.

O silêncio foi cortante. Os homens que acompanhavam a cena pareciam esperar o momento em que Matheu explodiria. E ele explodiu.

Sem aviso, o soco acertou Vito no maxilar, o barulho seco ecoando pelo pátio. Vito tropeçou para trás, levando a mão ao rosto, enquanto Matheu avançava mais uma vez, mas foi segurado por um dos seguranças.

Foi então que Enzo franziu o cenho.

— E Júlio? Onde ele está?

Respirei fundo, lembrando da conversa desconfortável de minutos atrás.

— Ele saiu com cara de poucos amigos depois que eu disse que estava noiva.

Os olhares ao meu redor se tornaram mais atentos.

— Ele não gostou? — meu pai questionou com a voz carregada de suspeita.

Dei de ombros.

— Não. Acho que não.

Eles trocaram um olhar sério, como se aquela informação fosse importante.

— Isso não é bom — ele murmurou.

E, pela tensão no ar, percebi que essa história ainda estava longe de acabar.

Aquela noite trouxe mudanças que nem sequer havíamos imaginado ao acordar naquela manhã.

Mais tarde, já no meu quarto, enquanto me preparava para dormir, o celular vibrou ao meu lado. Peguei o aparelho e sorri ao ver o nome de Andrei na tela. Atendi sem hesitação.

— Eu vou matar aquele maldito Barcellos! — a voz dele veio carregada de fúria, grossa e ameaçadora.

Soltei um suspiro. Já esperava essa reação.

— Andrei, não aconteceu nada. Está tudo bem — garanti, tentando acalmá-lo.

Mas ele não se deu por convencido.

— Nada? Um imbecil achou que poderia importuná-la e você quer que eu fique tranquilo? — a respiração dele estava pesada, carregada de ódio. — Ninguém se aproxima de você. Ninguém sequer pensa em você assim!

Mordi o lábio, imaginando-o com os punhos cerrados e o maxilar travado, consumido pelo ciúme e pela fúria. Por mais que eu entendesse sua necessidade de me proteger, queria que ele confiasse que eu sabia me defender também.

— Eu estou bem, Andrei — reforcei, suavizando minha voz. — E quero ver você no final de semana na casa da minha avó, na Turquia, aquele beijo me deixou pronta para mais.

O silêncio dele durou um segundo longo demais.

— Tem certeza que está bem? Anseio por outro beijo daquele desde o segundo que sai dai. — sua voz veio mais baixa, mas ainda carregada de tensão.

Fechei os olhos e sorri, sabendo que essa simples decisão mudaria tudo entre nós.

— Nunca tive tanta certeza.

Ouvi sua respiração lenta e pesada do outro lado da linha. E então, como se aceitasse o que estava por vir, ele finalmente respondeu:

— Então te vejo sexta, vá mais maravilhosa, se isso for possível.

Meu sorriso se alargou, sentindo o calor crescer dentro de mim.

— Eu sei estar melhor ainda, espere me ver com uma lingerie.

E assim, a ligação terminou, deixando-me com o coração acelerado e a certeza de que o fim de semana na Turquia não seria apenas uma visita qualquer. Seria o início de algo que mudaria nossas vidas para sempre.

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Comments

Andrea Freire

Andrea Freire

Ayla tá demais kkkkk, deixando o Andrei loco pro final de semana

2025-03-25

3

Taís

Taís

Andrei depois dessa não vai conseguir nem dormir kkkk

2025-03-28

0

marlene cardoso dos santos

marlene cardoso dos santos

muito bom continue assim

2025-03-28

0

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