Eu tava na frente do espelho do meu quarto no castelo de gelo, tentando domar o cabelo e botar uma cara de “esposa apaixonada”. O almoço com o senhor Albuquerque era hoje, meio-dia em ponto, e o Rafael tinha deixado claro que era tudo ou nada. Depois do beijo na garagem, da foto do Felipe explodindo na mídia e daquela conversa tensa ontem à noite, eu tava com os nervos à flor da pele. Meu Deus, eu mal conseguia segurar o rímel sem tremer — parecia que a qualquer momento o senhor Albuquerque ia aparecer com uma prova que ia mandar nosso contrato pro espaço, e eu ia ficar sem o milhão e com o coração na mão. Mas eu tinha que segurar a onda, né? “Apaixonados pra caralho”, ele disse. Tá, Rafael, vamos ver se eu consigo fingir isso sem derreter na frente de você.
Ele apareceu na sala bem na hora que eu terminei de me arrumar — terno impecável, cabelo penteado pra trás, aquele ar de quem manda no mundo. Mas os olhos dele tavam diferentes, com um brilho que eu não sabia se era cansaço ou algo mais perigoso. — Tá pronta? — perguntou, seco como sempre, mas com um toque de urgência que me fez engolir em seco.
— Tô, querido — respondi, jogando o apelido com um sorrisinho forçado pra entrar no personagem. Ele levantou uma sobrancelha, mas não disse nada, só fez sinal pra eu ir com ele pro carro. O silêncio no caminho foi pesado, tipo um elefante sentado entre a gente, e eu fiquei olhando pela janela pra não encarar ele — porque, puta merda, cada vez que eu olhava pro Rafael, eu lembrava daquele beijo e do calor dele me apertando, e aí meu corpo traidor começava a gritar de novo.
Chegamos no restaurante nos Jardins, o mesmo lugar chique do último almoço, com aqueles talheres que eu nunca sei usar direito. O maître nos levou pra uma sala reservada, e lá tava o senhor Albuquerque, sentado na cabeceira da mesa como um rei num trono, o copo de uísque na mão e aquele sorriso frio que me dava arrepios. Mas dessa vez tinha algo diferente — uma mulher sentada do lado dele, uns 30 e poucos anos, cabelo preto liso caindo nos ombros, olhos castanhos que pareciam facas e um vestido vermelho. Ela me encarou assim que entrei, e juro que senti um calafrio — era como se ela já me odiasse antes de eu abrir a boca.
— Rafael, Clara, sentem-se — disse o senhor Albuquerque, com a voz grave ecoando na sala. Ele apontou pra cadeira do outro lado da mesa, e eu obedeci, sentindo o Rafael sentar do meu lado e colocar a mão na minha coxa por baixo da mesa, tipo um “foca no plano”. — Quero apresentar alguém antes de começarmos. Essa é Isabela Vasconcelos, uma… velha amiga da família.
Isabela deu um sorriso que não chegou nos olhos e estendeu a mão pra mim, mas o jeito que ela apertou meus dedos foi mais um aviso do que um cumprimento. — Clara, né? A famosa esposa do Rafael. Ouvi tanto de você — disse ela, com um tom doce que pingava veneno. Eu forcei um sorriso, tentando não deixar ela me intimidar, mas já tava sentindo que essa mulher ia ser um problema.
— Prazer, Isabela — respondi, mantendo a voz firme. — E você é… amiga da família há quanto tempo?
Ela riu, baixo e cortante, e olhou pro Rafael com um brilho nos olhos que me deu um frio na espinha. — Desde sempre, querida. Rafael e eu crescemos juntos, inseparáveis como unha e carne. Não é, Rafa?
Rafa. Meu Deus, ela chamou ele de Rafa. Eu senti o Rafael ficar tenso do meu lado, a mão dele apertando minha coxa de leve, mas ele respondeu com aquele tom calculado que eu conhecia bem: — É, Isabela, faz tempo. Mas muita coisa mudou desde então, né?
O senhor Albuquerque deu uma risadinha seca e tomou um gole do uísque. — Nem tanta coisa, meu filho. Isabela voltou pra São Paulo essa semana, e eu achei que seria… interessante ela se juntar a nós hoje. Afinal, ela sempre teve um lugar especial na nossa família. E eu sempre achei que ela seria a esposa perfeita pra você, Rafael. Até aquele… incidente.
Incidente? Meu coração disparou, e eu olhei pro Rafael, tentando entender o que tava rolando. Ele tava com a mandíbula travada, os olhos fixos no pai, e eu juro que vi um músculo pulsar no pescoço dele. — Pai, isso é passado — disse ele, firme, mas com um tom que deixava claro que o assunto era uma ferida aberta. — Clara é minha esposa agora, e eu não vejo motivo pra revirar o que já foi enterrado.
— Enterrado, é? — retrucou Isabela, inclinando a cabeça como se estivesse se divertindo. — Engraçado, Rafael, porque eu não esqueci nada. E pelo que vi na mídia, sua “esposa” aqui tem um passado bem movimentado também, né? Um ex-noivo xereta, uma foto que não explica… Curioso como vocês dois se encaixaram tão rápido.
Eu engoli em seco, sentindo o sangue subir pro rosto. Essa vaca tava me provocando na cara dura, e o senhor Albuquerque só olhava, com aquele sorriso de quem tava adorando o circo pegar fogo. Mas antes que eu pudesse abrir a boca, Rafael entrou na frente, a voz cortante como uma lâmina: — Isabela, se você veio pra jogar indireta, pode parar. Clara e eu somos casados, ponto. O passado dela não muda o que eu sinto por ela, e o nosso passado… — Ele parou, respirou fundo e continuou: — Não tem mais nada a ver com a gente.
Ela levantou uma sobrancelha, o sorriso ficando mais afiado. — O que você sente por ela, Rafa? Amor, é? Porque eu te conheço, e você nunca foi de se apaixonar por impulso. Me diz, Clara, como foi que você laçou ele? Um milhão de reais ajuda, né?
Meu estômago despencou. Meu Deus, ela sabia? Ou era só um chute? O senhor Albuquerque riu baixo, batendo a mão na mesa, e eu senti o pânico subindo pela garganta. Mas Rafael apertou minha coxa de novo, me segurando no lugar, e respondeu antes que eu pudesse surtar: — Isabela, você tá fora da minha vida há anos, não vem bancar a detetive agora. Clara me conquistou sendo ela mesma, não com dinheiro ou joguinho. E eu te peço respeito, porque ela é minha esposa, não um troféu pra você cutucar.
O ar ficou pesado, e por um segundo ninguém falou nada. O senhor Albuquerque quebrou o silêncio, girando o copo na mão. — Vocês são um casal interessante, eu admito. Mas eu ainda não tô convencido, Rafael. Isabela vai ficar por aí um tempo, e eu quero ver como essa história se segura. Aproveitem o almoço.
O resto da comida veio, mas eu mal toquei no prato. Isabela me encarava do outro lado da mesa, com aquele olhar de quem tava só esperando eu escorregar, e o Rafael ficou quieto, mas a mão dele não saiu da minha coxa — um apoio que eu não sabia se era só pro plano ou se tinha algo mais. Quando saímos do restaurante, eu desabei no banco do carro, o coração na boca.
— Quem é essa Isabela, Rafael? — perguntei, quase gritando. — Ela e seu pai tão armando alguma coisa, eu sinto! E esse “incidente” que ele falou… o que aconteceu entre vocês?
Ele suspirou, passando a mão no cabelo e bagunçando tudo. — Isabela era minha melhor amiga na infância, Clara. A gente cresceu junto, e sim, teve um tempo que eu achei que ia ser mais. Mas aí… ela traiu minha confiança, me ferrou numa parada séria com a empresa do meu pai, e eu cortei ela da minha vida. Meu pai nunca aceitou isso, sempre quis que a gente voltasse, mas eu não perdoo traição. E agora ela tá aqui, provavelmente pra me ferrar de novo.
— Meu Deus, Rafael, ela sabe do contrato? — perguntei, com a voz tremendo.
Ele me encarou, os olhos duros. — Não sei. Mas se ela descobrir, ou se meu pai já contou, a gente tá em apuros. E ela odeia perder.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Walderez Custódio
sempre aparece uma recalcada
2025-04-04
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