Acordei com o coração na boca e uma ressaca leve que o vinho barato da noite anterior deixou de presente. O relógio marcava 8h30, e eu já tava atrasada pra me arrumar pro tal encontro com o Rafael. Levantei da cama tropeçando nas cobertas, corri pro banheiro e joguei uma água no rosto pra ver se acordava de vez. Olhei no espelho e… Meu Deus, parecia que eu tinha sido atropelada por um caminhão. O cabelo tava um caos, e as olheiras gritavam “Clara, você tá fazendo besteira”. Mas agora não tinha mais jeito, eu já tinha dito sim, e aquele endereço chique que ele mandou por mensagem tava me esperando.
Tomei um banho rápido, joguei uma calça jeans decente e uma blusa que não tava amassada — porque, né, eu não ia aparecer no escritório de um bilionário parecendo mendiga — e passei um rímel pra dar uma cara de viva. Peguei o celular, chamei um Uber — porque ônibus pra esse tipo de compromisso não rola — e saí correndo pro elevador enquanto o Seu Zé gritava lá de baixo: “Tá chique hoje, hein, Clara!”. Eu só dei um sorriso amarelo e entrei no carro.
O endereço que o Rafael mandou ficava na Avenida Paulista, num prédio espelhado que parecia gritar “dinheiro” só de olhar. Quando o Uber parou na frente, eu quase pedi pro motorista dar meia-volta. Mas respirei fundo, agradeci o cara e saí do carro com as pernas bambas. O porteiro do prédio — um senhor de terno que parecia mais sério que o meu pai — pediu meu nome e, depois de checar uma lista, me mandou pro elevador. “Vigésimo quinto andar, senhorita. Não se perca”, ele disse, com um tom que me fez sentir que eu não pertencia ali.
O elevador subiu rápido demais pro meu gosto, e quando as portas abriram, eu dei de cara com um hall que parecia saído de filme. Piso de mármore, paredes brancas com quadros caros e uma recepcionista loira que parecia modelo da Victoria’s Secret. Ela me olhou de cima a baixo, como se estivesse avaliando se eu era digna de pisar ali, e perguntou com um sorriso: “Clara Menezes, né? O senhor Albuquerque tá te esperando”. Eu só assenti, tentando não gaguejar, e segui ela por um corredor cheio de portas de vidro até uma sala que era maior que meu apartamento inteiro.
E lá tava ele. Rafael Albuquerque, sentado atrás de uma mesa gigante de madeira, com uma vista panorâmica de São Paulo que me deu vontade de tirar foto pro Instagram — se eu não tivesse tanto medo de parecer caipira na frente dele. Ele tava de terno novamente, mas dessa vez com a gravata frouxa, como se já tivesse resolvido metade dos problemas do mundo antes das 10h. Quando me viu, levantou aqueles olhos verdes e fez um gesto pra eu sentar na cadeira à frente dele.
— Você veio. Pontualidade não é seu forte, mas pelo menos não desistiu — disse ele, com aquele tom seco que já tava virando marca registrada.
— Desculpa, é que… o trânsito, sabe? — murmurei, sentando e tentando não parecer uma completa idiota.
Ele nem respondeu, só pegou uma pasta preta na mesa e empurrou na minha direção. — Aqui tá o contrato. Lê com calma, mas não temos o dia todo. Se tiver dúvidas, pergunta. Se não, assina e a gente segue em frente.
Abri a pasta com as mãos tremendo e comecei a ler. Era um monte de juridiquês que eu mal entendia, mas algumas coisas saltavam aos olhos: “Casamento civil a ser realizado em até 48 horas após a assinatura”, “Coabitação obrigatória na residência do contratante”, “A contratada deverá comparecer a eventos sociais como esposa oficial” e, claro, “Pagamento de um milhão de reais, dividido em parcelas mensais, com bônus por bom desempenho”. Bônus por bom desempenho? O que eu era, uma funcionária do mês?
— Espera aí — falei, levantando os olhos pra ele. — Coabitação obrigatória? Quer dizer que eu vou ter que morar com você?
— Isso — respondeu ele, sem nem piscar. — Não dá pra convencer ninguém que somos casados se você continuar morando naquele… lugar onde você tá agora.
Eu engoli em seco. Ele tinha razão, mas ouvir ele chamar meu apartamento de “lugar” com aquele desprezo doeu um pouco. — Tá, mas e… tipo, a gente vai ter que dividir quarto? Ou… sei lá, fingir intimidade na frente dos outros?
Ele deu um suspiro, como se eu tivesse perguntado a coisa mais idiota do mundo. — Não, Clara. Você vai ter seu próprio quarto. Na frente dos outros, a gente mantém as aparências: mãos dadas, sorrisos, essas coisas. Mas em casa, cada um no seu canto. Eu não tenho tempo nem interesse em complicar isso mais do que já é.
— Certo… — murmurei, voltando pro contrato. — E esse “bônus por bom desempenho”? Como assim?
— Se você fizer seu papel direito — disse ele, inclinando-se um pouco na cadeira —, se não me envergonhar em público, não vazar nada pra imprensa e me ajudar a convencer meu pai que eu “assentei a cabeça”, eu aumento o pagamento em vinte por cento. Um milhão e duzentos mil, pra ser exato.
Eu quase engasguei. Um milhão e duzentos mil reais. Meu Deus, eu podia comprar um apartamento com isso. Ou dois. Mas aí me veio um frio na espinha. — E se eu estragar tudo? Se eu não for boa o suficiente?
Ele me encarou por uns segundos, e juro que senti um calafrio. — Se você estragar tudo, Clara, o contrato se encerra, você devolve o que já recebeu, e eu sigo minha vida como se você nunca tivesse existido. Mas não se preocupe, eu escolhi você porque sei que você é desesperada o suficiente pra fazer isso dar certo.
Desesperada. A palavra ficou ecoando na minha cabeça, e eu não sabia se ficava ofendida ou aliviada por ele ser tão direto.
— Tá, eu assino. Mas me promete que isso não vai virar um pesadelo, Rafael.
Ele deu aquele sorriso calculado de novo, o mesmo da primeira vez que nos vimos. — Eu não faço promessas, Clara. Mas posso garantir que, se você jogar direitinho, esse vai ser o melhor ano da sua vida.
Assinei o contrato com a mão tremendo, e quando entreguei a pasta de volta pra ele, senti como se tivesse vendido minha alma pro diabo. Um diabo lindo, rico e com um terno impecável, mas ainda assim um diabo.
— Ótimo — disse ele, guardando o contrato numa gaveta. — Amanhã a gente casa no cartório. Depois, você faz as malas e vem pra minha casa. Alguma dúvida?
Eu tinha um milhão de dúvidas, mas minha boca só conseguiu soltar um “não” fraquinho. Ele assentiu, levantou da cadeira e me guiou até a porta.
— Nos vemos amanhã, então. E, Clara… tenta parecer uma noiva feliz, tá? — disse ele, antes de fechar a porta na minha cara.
Saí do prédio com a cabeça girando. Eu ia casar. Com um bilionário. Por um milhão de reais.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Afiq Danial Mohamad Azmir
Obrigatória releitura no futuro.
2025-03-21
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