Capítulo 3: O Escritório do Rei

Acordei com o coração na boca e uma ressaca leve que o vinho barato da noite anterior deixou de presente. O relógio marcava 8h30, e eu já tava atrasada pra me arrumar pro tal encontro com o Rafael. Levantei da cama tropeçando nas cobertas, corri pro banheiro e joguei uma água no rosto pra ver se acordava de vez. Olhei no espelho e… Meu Deus, parecia que eu tinha sido atropelada por um caminhão. O cabelo tava um caos, e as olheiras gritavam “Clara, você tá fazendo besteira”. Mas agora não tinha mais jeito, eu já tinha dito sim, e aquele endereço chique que ele mandou por mensagem tava me esperando.

Tomei um banho rápido, joguei uma calça jeans decente e uma blusa que não tava amassada — porque, né, eu não ia aparecer no escritório de um bilionário parecendo mendiga — e passei um rímel pra dar uma cara de viva. Peguei o celular, chamei um Uber — porque ônibus pra esse tipo de compromisso não rola — e saí correndo pro elevador enquanto o Seu Zé gritava lá de baixo: “Tá chique hoje, hein, Clara!”. Eu só dei um sorriso amarelo e entrei no carro.

O endereço que o Rafael mandou ficava na Avenida Paulista, num prédio espelhado que parecia gritar “dinheiro” só de olhar. Quando o Uber parou na frente, eu quase pedi pro motorista dar meia-volta. Mas respirei fundo, agradeci o cara e saí do carro com as pernas bambas. O porteiro do prédio — um senhor de terno que parecia mais sério que o meu pai — pediu meu nome e, depois de checar uma lista, me mandou pro elevador. “Vigésimo quinto andar, senhorita. Não se perca”, ele disse, com um tom que me fez sentir que eu não pertencia ali.

O elevador subiu rápido demais pro meu gosto, e quando as portas abriram, eu dei de cara com um hall que parecia saído de filme. Piso de mármore, paredes brancas com quadros caros e uma recepcionista loira que parecia modelo da Victoria’s Secret. Ela me olhou de cima a baixo, como se estivesse avaliando se eu era digna de pisar ali, e perguntou com um sorriso: “Clara Menezes, né? O senhor Albuquerque tá te esperando”. Eu só assenti, tentando não gaguejar, e segui ela por um corredor cheio de portas de vidro até uma sala que era maior que meu apartamento inteiro.

E lá tava ele. Rafael Albuquerque, sentado atrás de uma mesa gigante de madeira, com uma vista panorâmica de São Paulo que me deu vontade de tirar foto pro Instagram — se eu não tivesse tanto medo de parecer caipira na frente dele. Ele tava de terno novamente, mas dessa vez com a gravata frouxa, como se já tivesse resolvido metade dos problemas do mundo antes das 10h. Quando me viu, levantou aqueles olhos verdes e fez um gesto pra eu sentar na cadeira à frente dele.

— Você veio. Pontualidade não é seu forte, mas pelo menos não desistiu — disse ele, com aquele tom seco que já tava virando marca registrada.

— Desculpa, é que… o trânsito, sabe? — murmurei, sentando e tentando não parecer uma completa idiota.

Ele nem respondeu, só pegou uma pasta preta na mesa e empurrou na minha direção. — Aqui tá o contrato. Lê com calma, mas não temos o dia todo. Se tiver dúvidas, pergunta. Se não, assina e a gente segue em frente.

Abri a pasta com as mãos tremendo e comecei a ler. Era um monte de juridiquês que eu mal entendia, mas algumas coisas saltavam aos olhos: “Casamento civil a ser realizado em até 48 horas após a assinatura”, “Coabitação obrigatória na residência do contratante”, “A contratada deverá comparecer a eventos sociais como esposa oficial” e, claro, “Pagamento de um milhão de reais, dividido em parcelas mensais, com bônus por bom desempenho”. Bônus por bom desempenho? O que eu era, uma funcionária do mês?

— Espera aí — falei, levantando os olhos pra ele. — Coabitação obrigatória? Quer dizer que eu vou ter que morar com você?

— Isso — respondeu ele, sem nem piscar. — Não dá pra convencer ninguém que somos casados se você continuar morando naquele… lugar onde você tá agora.

Eu engoli em seco. Ele tinha razão, mas ouvir ele chamar meu apartamento de “lugar” com aquele desprezo doeu um pouco. — Tá, mas e… tipo, a gente vai ter que dividir quarto? Ou… sei lá, fingir intimidade na frente dos outros?

Ele deu um suspiro, como se eu tivesse perguntado a coisa mais idiota do mundo. — Não, Clara. Você vai ter seu próprio quarto. Na frente dos outros, a gente mantém as aparências: mãos dadas, sorrisos, essas coisas. Mas em casa, cada um no seu canto. Eu não tenho tempo nem interesse em complicar isso mais do que já é.

— Certo… — murmurei, voltando pro contrato. — E esse “bônus por bom desempenho”? Como assim?

— Se você fizer seu papel direito — disse ele, inclinando-se um pouco na cadeira —, se não me envergonhar em público, não vazar nada pra imprensa e me ajudar a convencer meu pai que eu “assentei a cabeça”, eu aumento o pagamento em vinte por cento. Um milhão e duzentos mil, pra ser exato.

Eu quase engasguei. Um milhão e duzentos mil reais. Meu Deus, eu podia comprar um apartamento com isso. Ou dois. Mas aí me veio um frio na espinha. — E se eu estragar tudo? Se eu não for boa o suficiente?

Ele me encarou por uns segundos, e juro que senti um calafrio. — Se você estragar tudo, Clara, o contrato se encerra, você devolve o que já recebeu, e eu sigo minha vida como se você nunca tivesse existido. Mas não se preocupe, eu escolhi você porque sei que você é desesperada o suficiente pra fazer isso dar certo.

Desesperada. A palavra ficou ecoando na minha cabeça, e eu não sabia se ficava ofendida ou aliviada por ele ser tão direto.

— Tá, eu assino. Mas me promete que isso não vai virar um pesadelo, Rafael.

Ele deu aquele sorriso calculado de novo, o mesmo da primeira vez que nos vimos. — Eu não faço promessas, Clara. Mas posso garantir que, se você jogar direitinho, esse vai ser o melhor ano da sua vida.

Assinei o contrato com a mão tremendo, e quando entreguei a pasta de volta pra ele, senti como se tivesse vendido minha alma pro diabo. Um diabo lindo, rico e com um terno impecável, mas ainda assim um diabo.

— Ótimo — disse ele, guardando o contrato numa gaveta. — Amanhã a gente casa no cartório. Depois, você faz as malas e vem pra minha casa. Alguma dúvida?

Eu tinha um milhão de dúvidas, mas minha boca só conseguiu soltar um “não” fraquinho. Ele assentiu, levantou da cadeira e me guiou até a porta.

— Nos vemos amanhã, então. E, Clara… tenta parecer uma noiva feliz, tá? — disse ele, antes de fechar a porta na minha cara.

Saí do prédio com a cabeça girando. Eu ia casar. Com um bilionário. Por um milhão de reais.

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Afiq Danial Mohamad Azmir

Afiq Danial Mohamad Azmir

Obrigatória releitura no futuro.

2025-03-21

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Capítulos
1 Capítulo 1: A Proposta que Muda Tudo
2 Capítulo 2: A Linha do Sim
3 Capítulo 3: O Escritório do Rei
4 Capítulo 4: O Dia do "Sim" de Mentirinha
5 Capítulo 5: A Primeira Noite no Castelo de Gelo
6 Capítulo 6: O Jantar do Tubarão
7 Capítulo 7: Meu Passado
8 Capítulo 8: As Amigas do Resgate
9 Capítulo 9: O Segredo do Iceberg
10 Capítulo 10: O Evento da Firma
11 Capítulo 11: O Fantasma do Passado
12 Capítulo 12: O Confronto no Castelo de Gelo
13 Capítulo 13: O Brunch dos Ricos
14 Capítulo 14: O Outro Lado do Iceberg
15 Capítulo 15: O Circo e o Skate
16 Capítulo 16: As Amigas e o Surto Coletivo
17 Capítulo 17: O Beijo que Não Era Pra Acontecer
18 Capítulo 18: O Fogo que Não Apaga
19 Capítulo 19: O Caos que Não Para
20 Capítulo 20: A Bomba Chamada Isabela
21 Capítulo 21: O Lado Leve do Iceberg
22 Capítulo 22: O Circo Pegando Fogo
23 Capítulo 23: O Ponto Sem Volta
24 Capítulo 24: A Jogada da Isabela e a Chegada das Salvadoras
25 Capítulo 25: O Contra-Ataque
26 Capítulo 26: O Dia do Tudo ou Nada
27 Capítulo 27: A Ressaca do Triunfo
28 Capítulo 28: O Tombo dos Vilões e a Chegada da Mãe
29 Capítulo 29: O Confronto com Dona Lúcia
30 Capítulo 30: O Café com a Mãe e o Novo Começo
31 Capítulo 31: O Jantar da Paz
32 Capítulo 32: O Chá de Atualização com as Meninas
33 Capítulo 33: O Rolê das Meninas e o Arroz da Redenção
34 Capítulo 34: A Carta Que Mudou Tudo
35 Capítulo 35: A Verdade na Cara do Monstro
36 Capítulo 36: Cruzando o Oceano pela Verdade
37 Capítulo 37: A Mãe Reencontrada
38 Capítulo 38: Libertando Ana
39 Capítulo 39: O Domingo do Recomeço
40 Capítulo 40: Epílogo
Capítulos

Atualizado até capítulo 40

1
Capítulo 1: A Proposta que Muda Tudo
2
Capítulo 2: A Linha do Sim
3
Capítulo 3: O Escritório do Rei
4
Capítulo 4: O Dia do "Sim" de Mentirinha
5
Capítulo 5: A Primeira Noite no Castelo de Gelo
6
Capítulo 6: O Jantar do Tubarão
7
Capítulo 7: Meu Passado
8
Capítulo 8: As Amigas do Resgate
9
Capítulo 9: O Segredo do Iceberg
10
Capítulo 10: O Evento da Firma
11
Capítulo 11: O Fantasma do Passado
12
Capítulo 12: O Confronto no Castelo de Gelo
13
Capítulo 13: O Brunch dos Ricos
14
Capítulo 14: O Outro Lado do Iceberg
15
Capítulo 15: O Circo e o Skate
16
Capítulo 16: As Amigas e o Surto Coletivo
17
Capítulo 17: O Beijo que Não Era Pra Acontecer
18
Capítulo 18: O Fogo que Não Apaga
19
Capítulo 19: O Caos que Não Para
20
Capítulo 20: A Bomba Chamada Isabela
21
Capítulo 21: O Lado Leve do Iceberg
22
Capítulo 22: O Circo Pegando Fogo
23
Capítulo 23: O Ponto Sem Volta
24
Capítulo 24: A Jogada da Isabela e a Chegada das Salvadoras
25
Capítulo 25: O Contra-Ataque
26
Capítulo 26: O Dia do Tudo ou Nada
27
Capítulo 27: A Ressaca do Triunfo
28
Capítulo 28: O Tombo dos Vilões e a Chegada da Mãe
29
Capítulo 29: O Confronto com Dona Lúcia
30
Capítulo 30: O Café com a Mãe e o Novo Começo
31
Capítulo 31: O Jantar da Paz
32
Capítulo 32: O Chá de Atualização com as Meninas
33
Capítulo 33: O Rolê das Meninas e o Arroz da Redenção
34
Capítulo 34: A Carta Que Mudou Tudo
35
Capítulo 35: A Verdade na Cara do Monstro
36
Capítulo 36: Cruzando o Oceano pela Verdade
37
Capítulo 37: A Mãe Reencontrada
38
Capítulo 38: Libertando Ana
39
Capítulo 39: O Domingo do Recomeço
40
Capítulo 40: Epílogo

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