Acordei com o barulho de alguém batendo na porta do quarto, e por um segundo achei que era o Seu Zé cobrando o aluguel atrasado. Mas aí lembrei: eu não tava mais no meu apê caindo aos pedaços. Tava no castelo de gelo do Rafael, e a vida de “esposa de mentira” já tava me jogando na parede sem nem me dar um café da manhã pra aguentar o tranco. Levantei da cama tropeçando, com o cabelo parecendo um ninho de passarinho, e abri a porta ainda meio zonza.
Era uma mulher magra, de uns 30 e poucos anos, com um ar de quem já nasceu sabendo combinar cores. Ela tava segurando uma arara cheia de roupas que pareciam saídas de um desfile de moda — vestidos longos, blusas de seda, saias que eu nem sabia como vestir direito. Atrás dela, uma assistente carregava uma maleta que, pelo jeito, tinha mais maquiagem que minha nécessaire inteira.
— Bom dia, senhora Albuquerque — disse ela, com um sorriso profissional que não chegava nos olhos. — Meu nome é Fernanda, sou a estilista que o senhor Rafael contratou. Vim trazer suas opções pro jantar de hoje à noite.
Eu pisquei, tentando processar. Senhora Albuquerque. Meu Deus, eu era isso agora. — Ah, tá… Oi, Fernanda. Pode entrar — falei, abrindo mais a porta e tentando não parecer uma completa caipira na frente dela.
Ela entrou com a arara e começou a espalhar as roupas pela cama, enquanto a assistente abria a maleta e tirava um monte de pincéis e potinhos que eu nem sabia pra que servia. — O senhor Rafael disse que o jantar é importante, então trouxe algo elegante, mas discreto. Nada de brilho exagerado, o senhor Albuquerque pai detesta — explicou ela, pegando um vestido azul-marinho que parecia simples.
— Beleza, eu confio em você — falei, ainda meio grogue. — Só me deixa tomar um banho antes de virar Barbie, tá?
Fernanda deu um aceno curtinho, e eu corri pro banheiro pra jogar uma água na cara e tentar acordar de vez. Enquanto o chuveiro quente caía, eu pensava no que tava por vir. O jantar. O pai do Rafael. O tal “tubarão” que podia acabar com meu milhão de reais num estalar de dedos. “Finge que tá apaixonada por mim”, ele tinha dito. Tá, mas como é que eu faço isso com um cara que parece que nunca sorriu de verdade na vida?
Voltei pro quarto enrolada na toalha, e a Fernanda já tava separando o vestido azul com um par de sapatos pretos de salto que pareciam elegantes, mas não impossíveis de usar. — Esse aqui é perfeito — disse ela. — Clássico, sofisticado, e não vai chamar atenção demais. O que acha?
— Acho que eu nunca usei nada tão chique na vida, mas vamos lá — respondi, rindo de nervoso. Ela me ajudou a vestir, e a assistente — que nem se apresentou, aliás — começou a mexer no meu cabelo e na minha cara como se eu fosse um quadro em branco. Uma hora depois, eu tava de frente pro espelho, e… Meu Deus, eu nem parecia eu. O vestido caía perfeito, o cabelo tava num coque baixo que me dava um ar de “rica discreta”, e a maquiagem escondia as olheiras e me deixava com cara de quem dormiu oito horas, não três.
— Tá ótimo, Fernanda. Obrigada — falei, ainda meio chocada com a transformação.
— De nada. Boa sorte hoje à noite — disse ela, já juntando as coisas pra ir embora. A assistente só assentiu e saiu atrás, me deixando sozinha com minha nova versão “esposa de bilionário”.
O dia passou voando, e quando deu 19h, o Rafael apareceu na sala, impecável como sempre. Terno preto, camisa branca, gravata fininha — o cara parecia pronto pra posar pra capa de revista. Ele me olhou de cima a baixo, e dessa vez não teve franzir de sobrancelha. — Você tá… adequada — disse ele, o que eu acho que era o mais próximo de um elogio que eu ia tirar dele.
— Valeu, querido — respondi, testando o apelido com um tom meio irônico. Ele levantou uma sobrancelha, mas não falou nada, só fez sinal pra eu ir com ele pro carro.
O jantar era num restaurante chique na Faria Lima, daqueles que têm mais garfos na mesa do que eu sei usar. Quando chegamos, o maître nos levou pra uma sala reservada, e lá tava ele: o senhor Albuquerque. Um homem de uns 60 anos, cabelo grisalho penteado pra trás, olhos que pareciam facas e um terno. Ele se levantou quando nos viu, e eu senti meu estômago embrulhar.
— Rafael, meu filho — disse ele, com uma voz grave que ecoou na sala. — E essa deve ser a famosa Clara.
— Prazer, senhor Albuquerque — falei, estendendo a mão e tentando não tremer. Ele apertou minha mão com força, me encarando como se quisesse ler minha alma.
— O prazer é meu, Clara. Sente-se — disse ele, apontando pra cadeira ao lado do Rafael. Eu obedeci, e o Rafael sentou do meu lado, colocando a mão no meu ombro por uns segundos, tipo um aviso pra eu entrar no modo “esposa apaixonada”.
O jantar começou com o senhor Albuquerque fazendo mil perguntas. “Como vocês se conheceram?”, “O que você faz da vida, Clara?”, “O que achou de Paris?”. Eu repeti a história do evento de caridade, falei do meu trabalho no jornal — omitindo a parte de quase ser demitida, claro — e dei um sorriso bobo quando mencionei o “pedido em Paris”. Rafael completava com uns detalhes, tipo “Ela ficou encantada com a Torre Eiffel à noite”, e eu só assentia, fingindo que já tinha pisado na França.
Mas o senhor Albuquerque não era bobo. Ele me olhava com um canto de olho, como se estivesse esperando eu escorregar. Em certo momento, ele largou o garfo no prato e disse: — Clara, me diz uma coisa. O que você viu no meu filho pra casar com ele tão rápido?
Eu quase engasguei com o vinho que tava tomando, mas o Rafael apertou minha mão de leve por baixo da mesa, tipo um “se vira”. Respirei fundo, olhei pro Rafael com o melhor olhar de apaixonada que consegui e soltei: — Sabe, senhor Albuquerque, o Rafael tem um jeito… único. Ele é determinado, inteligente, e por trás dessa fachada séria, tem um coração que me conquistou. Eu não consegui dizer não pra ele.
O Rafael me olhou de lado, como se não soubesse se eu tava sendo genial ou ridícula, mas o senhor Albuquerque deu uma risadinha seca. — Um coração, é? Interessante. Rafael, você tá mais mole do que eu imaginava.
— Ela me mudou, pai — disse Rafael, com um tom tão convincente que até eu quase acreditei. — Clara me faz querer ser melhor.
O resto do jantar foi mais tranquilo. Quando acabou, ele se despediu com um “Até breve, Clara. Espero te ver mais vezes” que soou mais como ameaça do que convite.
No carro, voltando pro apartamento, eu desabei no banco. — Meu Deus, Rafael, seu pai é assustador. Acho que ele não engoliu a história.
— Ele engoliu o suficiente — disse Rafael, olhando pela janela. — Você se saiu bem, Clara. Melhor do que eu esperava.
— Tá, mas e agora? — perguntei, ainda com o coração na boca.
— Agora a gente continua. Próxima parada: um evento da empresa na semana que vem. Descansa, você vai precisar.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Cristiane Paes Fagundes
nossa , ela passou o dia todo maquiada? 🤔
2025-04-01
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