Eu tava começando a pegar o jeito dessa vida de “esposa de bilionário”. Tá, não era exatamente um mar de rosas, mas depois do evento da empresa, eu senti que tava começando a me encaixar no papel. O Rafael até me deu um “Você tá indo bem” no carro, voltando pra casa, e eu quase caí dura de choque — um elogio de verdade vindo do iceberg em pessoa era tipo ver um unicórnio na Avenida Paulista. Mas, claro, o universo não ia me deixar curtir essa vibe de “tô arrasando” por muito tempo. Não mesmo. Porque, quando eu achei que tava tudo sob controle, o passado resolveu bater na minha porta — ou melhor, mandar uma mensagem que me fez engasgar com o café da manhã.
Era uma manhã tranquila no castelo de gelo. O Rafael tinha saído cedo pra alguma reunião chata, e eu tava na cozinha tentando entender como funcionava aquela cafeteira hi-tech que parecia ter vindo de um filme de ficção científica. Depois de umas três tentativas e um xingamento baixinho, consegui fazer um café decente e me joguei no sofá com o celular na mão. Tava rolando o feed do Instagram, vendo stories das minhas amigas — a Mari postando selfie com um cara novo, a Lu mostrando uma vela artesanal que ela fez —, quando uma notificação pulou na tela: “Felipe Silva te enviou uma mensagem.”
Eu congelei. Felipe. O Felipe. Meu ex-noivo, o canalha que me largou por texto e me deixou no fundo do poço. O mesmo que, última vez que chequei, tava de papinho com a tal da Bruna no Tinder. O que raios ele queria comigo agora? Minha mão tremia enquanto eu abria o WhatsApp, e lá tava a mensagem, seca e direta como uma facada: “Clara, precisamos conversar. Tô sabendo do seu ‘casamento’. Me encontra hoje, 14h, no café da Rua Augusta que a gente sempre ia. Por favor.”
Meu estômago embrulhou na hora. “Tô sabendo do seu casamento”? Como assim? Será que ele viu alguma coisa na imprensa? O Rafael tinha me avisado que a mídia podia pegar a história a qualquer momento, mas até agora a gente tinha conseguido manter tudo meio na surdina — só os acionistas e o círculo dele sabiam. Será que o Felipe tava blefando? Ou pior, será que ele queria me chantagear ou sei lá o quê? Minha cabeça já tava a mil, imaginando mil cenários, cada um pior que o outro.
Respirei fundo e joguei o celular no sofá. “Não, Clara, você não vai surtar por causa desse idiota de novo”, falei pra mim mesma, andando de um lado pro outro na sala. Mas, Meu Deus, a curiosidade tava me matando. O que ele queria? Por que agora? E como ele sabia do Rafael? Eu podia simplesmente ignorar, bloquear o número e fingir que nada aconteceu. Mas aí eu lembrei do tom dele naquela mensagem — “Por favor”. O Felipe nunca pedia por favor. Era sempre “eu quero”, “eu acho”, “eu decido”. Aquilo me deixou com um frio na espinha.
Peguei o celular de volta e respondi, tentando parecer firme: “Tá, eu vou. Mas é rápido, Felipe. Não tenho tempo pra joguinho.” Apertei o enviar antes que eu mudasse de ideia e corri pro quarto pra me arrumar. Nada de vestido chique dessa vez — joguei uma calça jeans, uma blusa básica e um tênis, porque eu não ia dar o gostinho de aparecer toda montada pra ele. Se ele queria conversar, ia ser com a Clara de sempre, não com a “senhora Albuquerque”.
Chamei um Uber e saí do prédio com o coração na boca. O café da Rua Augusta era um lugarzinho simples, com mesinhas de madeira e um cheiro de pão de queijo que me jogava direto pros dias com o Felipe. A gente ia lá quase todo fim de semana, dividindo um cappuccino e rindo de bobeira. Mas isso era antes dele virar um babaca e eu virar… tudo que eu era agora.
Cheguei lá uns cinco minutos antes das 14h e vi ele já sentado numa mesa no canto, mexendo no celular. O cabelo castanho bagunçado, a camiseta polo que ele adorava, e aquele ar de quem não tá nem aí pro mundo. Meu peito apertou, mas não era saudade — era raiva misturada com um restinho de mágoa que eu não conseguia apagar. Respirei fundo e fui até ele, sentando sem nem dar um “oi”.
— Valeu por ter vindo, Clara — disse ele, levantando os olhos do celular e me encarando com aquele olhar que eu conhecia tão bem. — Você tá… diferente.
— Diferente como? — retruquei, cruzando os braços. — E vai logo ao ponto, Felipe. O que você quer?
Ele deu uma risadinha nervosa e se ajeitou na cadeira. — Tá, direto assim? Beleza. Eu vi uma foto sua com o Rafael Albuquerque num site de fofoca ontem. Você de braço dado com ele, toda chique, num evento qualquer. Primeiro achei que era sacanagem, mas aí pesquisei e… Meu Deus, Clara, você casou com esse cara? O bilionário?
Eu engoli em seco. Merda. A mídia tinha pegado a gente, e eu nem sabia. O Rafael ia me matar. Mas eu não ia dar o braço a torcer pro Felipe. — E daí? Casei, sim. Qual é o problema?
— Qual é o problema? — repetiu ele, com um tom que misturava choque e deboche. — Clara, você me conhece. Eu sei que você não é desse mundo. Aquele cara é cheio de grana e pose. O que tá rolando? Você tá com ele por dinheiro?
Eu senti o sangue subir pra cabeça. — Você não tem moral pra me julgar, Felipe. Você me largou por mensagem, lembra? Me deixou na merda, com o aluguel atrasado e o coração em pedaços. Agora vem me perguntar por que eu fiz o que fiz? Vai se ferrar.
Ele baixou os olhos, e por um segundo eu achei que ele tava com vergonha. Mas aí ele levantou a cabeça de novo, com um brilho esquisito no olhar. — Tá, eu sei que fui um babaca. E eu sinto muito por isso, de verdade. Mas, Clara, eu te conheço. Você não é assim. Esse casamento… não parece você. Eu só queria entender.
— Você perdeu o direito de me entender quando me trocou pela Bruna do Tinder — falei, com a voz tremendo de raiva. — E pra sua informação, eu tô bem. Melhor do que nunca. O Rafael me deu uma chance de sair do buraco que você me deixou, e eu agarrei. Fim de papo.
Ele ficou quieto por uns segundos, mexendo no copo de café que tava na mesa. — Então é isso? Você virou a esposa troféu de um ricaço e pronto? Não acredito nisso, Clara. Você sempre quis mais, sempre correu atrás das suas coisas. Esse cara… ele não te ama, né? É tudo fachada.
Eu quase ri de nervoso. Ele tava tentando me acertar onde doía, e o pior é que tava funcionando. — O que você quer, Felipe? Me chantagear? Contar pra alguém que é tudo mentira? Porque se for isso, pode mandar ver. Eu não tenho nada a perder.
— Não, não é isso — disse ele, rápido demais. — Eu… eu só queria te ver. Saber como você tá. E, sei lá, talvez te pedir pra pensar de novo. Sobre a gente.
Eu pisquei, atônita. — A gente? Você tá louco? Você acha que eu vou largar tudo e voltar pra você depois do que você fez?
— Não é largar tudo — retrucou ele, se inclinando pra frente. — É só… olhar pra trás. Eu errei, Clara, mas eu ainda te amo. E esse casamento seu não me engana. Você não tá feliz com ele, eu vejo nos seus olhos.
Eu levantei da cadeira tão rápido que quase derrubei o café. — Você não vê nada, Felipe. Você perdeu esse direito. E quer saber? Eu tô ótima com o Rafael. Melhor do que eu tava com você. Então fica com sua Bruna e me deixa em paz.
Saí do café com o coração disparado. No Uber, voltando pro apê, minha cabeça era um caos. Ele sabia. Ou pelo menos desconfiava. E pior: ele tinha mexido comigo, plantado uma semente de dúvida que eu não queria sentir. Será que dava pra ver que era tudo mentira? Será que o Rafael ia perceber que o Felipe tava de volta na jogada? E, Meu Deus, por que eu ainda sentia aquele aperto no peito só de ouvir ele dizer “eu ainda te amo”?
Quando cheguei no apartamento, joguei a bolsa no sofá e mandei uma mensagem pro Rafael: “A mídia pegou a gente. E o Felipe apareceu. Precisamos conversar.” Ele respondeu em dois minutos, seco como sempre: “Tô indo praí. Fica aí.”
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Atualizado até capítulo 40
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