Capítulo 9: O Segredo do Iceberg

Eu tava largada no sofá da sala, ainda sentindo o cheiro de pizza calabresa e o eco das risadas das meninas na cabeça. A noite com elas tinha sido um bálsamo, tipo um abraço quente no meio de um inverno gelado — e olha que morar com o Rafael era exatamente isso: um inverno sem fim. O celular tava jogado do meu lado, mas eu não tinha energia pra pegar. Só queria ficar ali, curtindo o silêncio do apê chique e tentando não pensar no evento da empresa que vinha aí. Mas aí, como se o universo quisesse me tirar do meu momento de paz, ouvi o barulho da porta da frente abrindo.

Era o Rafael, claro. Ele entrou com aquele jeito dele, tipo dono do mundo, jogando as chaves num potinho de vidro. Tava sem o paletó do terno dessa vez, só de camisa social e calça, mas ainda assim parecia pronto pra fechar um negócio bilionário a qualquer segundo. Ele me viu ali, esparramada no sofá, e levantou uma sobrancelha — o que eu já tava começando a entender que era o jeito dele de dizer “o que você tá fazendo?” sem abrir a boca.

— Oi, querido — falei, com um tom meio irônico, só pra testar o apelido de novo. Ele nem piscou, só deu um suspiro curto e foi pro bar pegar o uísque de sempre. Acho que aquele copo âmbar era o melhor amigo dele.

— Vejo que você tá se sentindo em casa — disse ele, seco como o deserto, enquanto servia o líquido no copo. — Teve visita?

— Tive, sim. Minhas amigas vieram me salvar da loucura que virou minha vida — respondi, sentando direito no sofá e cruzando os braços. — Trouxeram pizza e vinho. Quer um pedaço? Sobrou um na cozinha.

Ele me olhou por cima do copo, com aquele ar de quem nunca comeu pizza na vida — e, vamos ser sinceros, provavelmente não comeu mesmo. — Não, obrigado. Tenho uma reunião cedo amanhã. Preciso estar lúcido.

— Claro, porque uísque ajuda muito nisso, né? — retruquei, sem conseguir segurar o sarcasmo. Ele deu um meio sorriso — daqueles que não chegam nos olhos — e se sentou na poltrona do outro lado da sala, me encarando como se eu fosse um enigma que ele ainda não tinha decifrado.

Eu tava com uma pulga atrás da orelha fazia dias, e aquele silêncio entre a gente me deu coragem pra jogar a pergunta que tava me roendo. — Rafael, posso te perguntar uma coisa?

Ele tomou um gole do uísque e assentiu, tipo “vai fundo”. Então eu fui: — Por que eu? Quer dizer, você é um bilionário, lindo pra caramba, poderia escolher qualquer mulher no Brasil — ou no mundo, sei lá — pra esse contrato. Por que raios você bateu na minha porta, logo eu, uma jornalista quebrada que nem passaporte tem?

Ele ficou quieto por uns segundos, girando o copo na mão como se tivesse pesando o que ia dizer. Eu já tava achando que ele ia me mandar calar a boca ou inventar uma desculpa qualquer, mas aí ele largou o copo no braço da poltrona e me olhou de um jeito que eu não tinha visto antes — não era frio, mas também não era quente. Era… curioso, talvez.

— Você quer mesmo saber? — perguntou ele, com a voz mais baixa que o normal.

— Quero. Tô aqui fingindo ser sua esposa, morando na sua casa, encarando seu pai tubarão. Acho que mereço saber por que eu fui a escolhida — falei, tentando soar firme, mas com o coração acelerado.

Ele se inclinou pra frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, e começou a falar: — Eu não te escolhi por acaso, Clara. Eu te pesquisei. Sabia quem você era antes mesmo de bater na sua porta.

Eu pisquei, confusa. — Me pesquisou? Como assim?

— Eu tenho uma equipe que faz isso pra mim — disse ele, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Quando meu pai começou a pressionar pra eu “assentar a cabeça”, eu sabia que precisava de alguém pra esse papel. Não queria uma socialite cheia de pose, nem uma modelo que só pensa em Instagram. Essas mulheres são previsíveis, e meu pai ia farejar o golpe a quilômetros de distância. Eu precisava de alguém real, alguém que ele não esperasse, mas que ainda assim pudesse convencer.

— Tá, mas ainda não explica por que eu — insisti, sentindo um frio na espinha.

Ele deu um suspiro, como se estivesse cansado de explicar o óbvio. — Você já escreveu sobre mim, Clara. Há uns dois anos, no Diário de São Paulo. Uma matéria sobre a expansão da rede de hotéis da minha família. Não era nada especial, mas eu li. Você foi… diferente. Não caiu na babação de ovo que a maioria dos jornalistas faz, mas também não tentou me pintar como um vilão. Foi honesta, direta, e até um pouco sarcástica. Eu guardei seu nome.

Eu arregalei os olhos, tentando lembrar dessa matéria. Dois anos atrás? Meu Deus, eu mal lembrava o que comi ontem, quanto mais uma pauta antiga. Mas agora que ele falou, veio um flash: eu tinha escrito sobre os hotéis Albuquerque sim, e lembro que achei o Rafael um playboy arrogante que herdou tudo do papai — mas não botei isso no texto, claro, porque dona Regina ia me matar. — Tá, mas uma matéria não explica você me caçar agora — falei, ainda tentando juntar as peças.

— Não foi só a matéria — continuou ele. — Minha equipe levantou seu perfil. Você é inteligente, escreve bem, mas tá num buraco financeiro e emocional. Desesperada o suficiente pra aceitar um acordo como esse, mas esperta o suficiente pra não estragar tudo. Além disso, você não tem laços com meu mundo. Ninguém ia desconfiar que uma jornalista desconhecida de Santo André fosse parte de um contrato. Você é o oposto do que meu pai espera de mim, e isso torna a história mais crível.

Eu fiquei em silêncio, processando. Ele tinha me estudado como se eu fosse um investimento, tipo uma ação na bolsa. Sabia do meu passado, das minhas dívidas, do Felipe — tudo. Meu estômago embrulhou, mas ao mesmo tempo eu não sabia se ficava brava ou impressionada. — Então eu sou tipo… um curinga pra você? Uma carta que ninguém espera na manga?

— Exatamente — disse ele, sem nem hesitar. — Meu pai conhece todas as mulheres que eu poderia escolher no meu círculo. Ele ia desconfiar de qualquer uma delas. Mas você? Ele nunca viu você vindo. E quando te conheceu no jantar, ficou intrigado. Você é crua, Clara. Não tem o polimento das mulheres que ele tá acostumado a ver, e isso te faz parecer real.

— Crua? — repeti, rindo de nervoso. — Isso é um elogio ou um tapa na cara?

— É um fato — respondeu ele, com aquele tom que não deixava espaço pra discussão. — Você não finge ser algo que não é. Ou pelo menos não fingia, até assinar o contrato. Isso é raro, e eu precisava disso pra fazer esse plano funcionar.

Eu me recostei no sofá, sentindo um misto de alívio e desconforto. Então era isso. Eu não era só uma desesperada qualquer — eu era a desesperada perfeita pro joguinho dele. Uma estranha no ninho que o pai tubarão não ia prever. — Tá, mas e se eu não fosse tudo isso que você acha? E se eu fosse só uma fracassada que topou por causa do dinheiro?

Ele me encarou por uns segundos, e juro que vi um brilho diferente nos olhos verdes dele. — Você é mais que isso, Clara. Eu vi no jantar. Você encarou meu pai, inventou aquela história do “coração que me conquistou” na hora, e ele riu. Ele não ri de qualquer um. Você tem algo que não se compra, e eu apostei nisso.

Eu não sabia o que dizer. Parte de mim queria mandar ele tomar no cu por me tratar como um experimento, mas outra parte… sei lá, ficou lisonjeada? Era loucura, eu sei, mas ouvir que eu tinha algo especial, mesmo vindo de um iceberg como o Rafael, mexeu comigo.

— Beleza, Rafael. Você ganhou essa — falei, levantando do sofá e pegando o celular. — Mas não pensa que eu vou virar sua marionete perfeita. Eu faço isso do meu jeito, tá?

Ele deu aquele meio sorriso de novo e levantou o copo, como se brindasse à minha teimosia. — Do seu jeito, Clara. Desde que funcione.

Mais populares

Comments

Yusuo Yusup

Yusuo Yusup

Amei cada página

2025-03-22

2

Ver todos
Capítulos
1 Capítulo 1: A Proposta que Muda Tudo
2 Capítulo 2: A Linha do Sim
3 Capítulo 3: O Escritório do Rei
4 Capítulo 4: O Dia do "Sim" de Mentirinha
5 Capítulo 5: A Primeira Noite no Castelo de Gelo
6 Capítulo 6: O Jantar do Tubarão
7 Capítulo 7: Meu Passado
8 Capítulo 8: As Amigas do Resgate
9 Capítulo 9: O Segredo do Iceberg
10 Capítulo 10: O Evento da Firma
11 Capítulo 11: O Fantasma do Passado
12 Capítulo 12: O Confronto no Castelo de Gelo
13 Capítulo 13: O Brunch dos Ricos
14 Capítulo 14: O Outro Lado do Iceberg
15 Capítulo 15: O Circo e o Skate
16 Capítulo 16: As Amigas e o Surto Coletivo
17 Capítulo 17: O Beijo que Não Era Pra Acontecer
18 Capítulo 18: O Fogo que Não Apaga
19 Capítulo 19: O Caos que Não Para
20 Capítulo 20: A Bomba Chamada Isabela
21 Capítulo 21: O Lado Leve do Iceberg
22 Capítulo 22: O Circo Pegando Fogo
23 Capítulo 23: O Ponto Sem Volta
24 Capítulo 24: A Jogada da Isabela e a Chegada das Salvadoras
25 Capítulo 25: O Contra-Ataque
26 Capítulo 26: O Dia do Tudo ou Nada
27 Capítulo 27: A Ressaca do Triunfo
28 Capítulo 28: O Tombo dos Vilões e a Chegada da Mãe
29 Capítulo 29: O Confronto com Dona Lúcia
30 Capítulo 30: O Café com a Mãe e o Novo Começo
31 Capítulo 31: O Jantar da Paz
32 Capítulo 32: O Chá de Atualização com as Meninas
33 Capítulo 33: O Rolê das Meninas e o Arroz da Redenção
34 Capítulo 34: A Carta Que Mudou Tudo
35 Capítulo 35: A Verdade na Cara do Monstro
36 Capítulo 36: Cruzando o Oceano pela Verdade
37 Capítulo 37: A Mãe Reencontrada
38 Capítulo 38: Libertando Ana
39 Capítulo 39: O Domingo do Recomeço
40 Capítulo 40: Epílogo
Capítulos

Atualizado até capítulo 40

1
Capítulo 1: A Proposta que Muda Tudo
2
Capítulo 2: A Linha do Sim
3
Capítulo 3: O Escritório do Rei
4
Capítulo 4: O Dia do "Sim" de Mentirinha
5
Capítulo 5: A Primeira Noite no Castelo de Gelo
6
Capítulo 6: O Jantar do Tubarão
7
Capítulo 7: Meu Passado
8
Capítulo 8: As Amigas do Resgate
9
Capítulo 9: O Segredo do Iceberg
10
Capítulo 10: O Evento da Firma
11
Capítulo 11: O Fantasma do Passado
12
Capítulo 12: O Confronto no Castelo de Gelo
13
Capítulo 13: O Brunch dos Ricos
14
Capítulo 14: O Outro Lado do Iceberg
15
Capítulo 15: O Circo e o Skate
16
Capítulo 16: As Amigas e o Surto Coletivo
17
Capítulo 17: O Beijo que Não Era Pra Acontecer
18
Capítulo 18: O Fogo que Não Apaga
19
Capítulo 19: O Caos que Não Para
20
Capítulo 20: A Bomba Chamada Isabela
21
Capítulo 21: O Lado Leve do Iceberg
22
Capítulo 22: O Circo Pegando Fogo
23
Capítulo 23: O Ponto Sem Volta
24
Capítulo 24: A Jogada da Isabela e a Chegada das Salvadoras
25
Capítulo 25: O Contra-Ataque
26
Capítulo 26: O Dia do Tudo ou Nada
27
Capítulo 27: A Ressaca do Triunfo
28
Capítulo 28: O Tombo dos Vilões e a Chegada da Mãe
29
Capítulo 29: O Confronto com Dona Lúcia
30
Capítulo 30: O Café com a Mãe e o Novo Começo
31
Capítulo 31: O Jantar da Paz
32
Capítulo 32: O Chá de Atualização com as Meninas
33
Capítulo 33: O Rolê das Meninas e o Arroz da Redenção
34
Capítulo 34: A Carta Que Mudou Tudo
35
Capítulo 35: A Verdade na Cara do Monstro
36
Capítulo 36: Cruzando o Oceano pela Verdade
37
Capítulo 37: A Mãe Reencontrada
38
Capítulo 38: Libertando Ana
39
Capítulo 39: O Domingo do Recomeço
40
Capítulo 40: Epílogo

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!