Eu tava no carro do Rafael, olhando pela janela enquanto São Paulo passava por prédios e trânsito, mas minha cabeça tava a mil por hora, longe dali. O silêncio entre a gente era tenso, quase sufocante, como se o beijo na garagem tivesse virado uma bomba-relógio que nenhum dos dois sabia como desarmar. Meu Deus, eu ainda sentia o calor da boca dele na minha, os dedos dele apertando minha cintura, e o jeito que ele me olhou — puta merda, aquele olhar que era tesão e confusão ao mesmo tempo. Mas aí veio o telefonema, a foto do Felipe, o senhor Albuquerque jogando a faca na nossa jugular com aquele “uma semana ou acabou”. Eu tava ferrada, e o Rafael, com as mãos no volante e a cara fechada, não parecia muito melhor.
— Tá, Rafael, fala alguma coisa — soltei, quebrando o silêncio porque eu não aguentava mais aquele vazio. — O que a gente faz agora? Seu pai tá com a corda no nosso pescoço, a mídia tá me chamando de golpista, e o Felipe… Meu Deus, o que aquele idiota quer com essa foto?
Ele suspirou, apertando o volante com mais força, os nós dos dedos branqueando. — A gente resolve uma coisa de cada vez, Clara. Meu pai é o maior problema. Se ele não comprar a história, o contrato desmorona, e você pode dar tchau pro seu milhão. A mídia eu controlo com a assessoria, mas o Felipe… esse filho da puta tá pedindo pra eu resolver na porrada.
Eu ri, mas foi um riso nervoso, quase histérico. — Na porrada? Rafael, você é um bilionário, não um lutador de rua. E eu não duvido que o Felipe mereça, mas sério, o que ele ganha com isso? Ele me largou, foi atrás da Bruna, e agora vaza uma foto nossa antiga como se fosse o quê? O ex vingativo?
Rafael me olhou de lado, os olhos verdes cortando o ar como lâminas, e eu juro que vi um brilho de raiva ali que me deu um frio na espinha. — Ele quer te ferrar, Clara. Ou me ferrar. Ou os dois. Talvez ele tenha visto a matéria da Caras e ficou com ciúmes, achando que você subiu na vida sem ele. Mas eu não vou deixar esse babaca estragar tudo. A gente vai pro apê agora, monta um plano, e amanhã eu coloco a assessoria pra apagar esse incêndio.
— Tá, e o beijo? — joguei, sem nem pensar, porque, né, a gente tava evitando o elefante na sala fazia tempo demais. Meu rosto pegou fogo na hora que as palavras saíram, mas já era tarde pra voltar atrás.
Ele freou o carro num sinal vermelho e virou pra mim, o peito subindo rápido, como se eu tivesse acertado um soco. Por um segundo, achei que ele ia fingir que não ouviu, mas aí ele falou, com a voz baixa e rouca que me fez arrepiar inteira: — O beijo foi um erro, Clara. Um erro que eu não sei se quero repetir ou esquecer. Mas agora não é hora pra isso. Meu pai tá na nossa cola, e eu não posso perder o foco.
Eu engoli em seco, sentindo um misto de alívio e decepção que me deixou tonta. — Tá, erro. Beleza. Vamos fingir que não aconteceu, então — murmurei, olhando pra frente pra não encarar ele, mas minha voz saiu mais fraca do que eu queria. Erro. Claro. Só que meu corpo não concordava, ainda tava gritando por ele, e eu odiava isso.
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Chegamos no apê, e o clima tava mais tenso que corda de violão. Rafael foi direto pro escritório dele — um canto do apartamento com uma mesa cheia de papéis e um laptop —, enquanto eu me joguei no sofá, tentando respirar fundo e botar a cabeça no lugar. Ele voltou uns minutos depois com o celular na mão, falando com alguém da assessoria num tom que era puro comando: “Quero uma nota oficial em uma hora. ‘Casal apaixonado, passado irrelevante, respeitem nossa privacidade’. E descubram quem vazou essa foto, eu quero nomes.” Desligou, jogou o celular na mesinha e me encarou.
— Tá, Clara, hora da verdade. O que o Felipe tem contra você que ele pode usar? Porque se ele tá jogando sujo, a gente precisa saber o que vem pela frente.
Eu esfreguei o rosto com as mãos — O Felipe… Meu Deus, ele sabe tudo da minha vida, Rafael. Cinco anos juntos, ele sabe das minhas dívidas, das brigas com minha chefe, das vezes que eu chorei no ombro dele porque achava que não ia dar conta. Se ele quiser, ele pode inventar qualquer coisa — que eu era obcecada por dinheiro, que eu planejei te seduzir… Ele é um canalha, mas é esperto.
Rafael cruzou os braços, o peito ainda meio à mostra pela camisa entreaberta — porque, sério, ele não podia botar uma camiseta inteira? —, e assentiu, pensativo. — Então a gente vira o jogo. Minha assessoria vai soltar que ele tá tentando difamar você por ciúmes, que é um ex obcecado. Mas você precisa bloquear ele de vez, Clara. Nada de papinho no café, nada de mensagem. Ele já tá fora da sua vida, agora é oficial.
— Tá, eu bloqueio — falei, pegando o celular com um suspiro. Abri o WhatsApp, achei o número do Felipe e cliquei no “bloquear” com uma raiva que eu nem sabia que ainda tinha. — Pronto. Adeus, canalha. Mas e seu pai? Ele não vai engolir essa história tão fácil, Rafael. Ele me olhou hoje como se eu fosse uma barata que ele quer esmagar.
Ele deu aquele meio sorriso calculado que eu já conhecia, mas dessa vez tinha um toque de… sei lá, cansaço, talvez. — A gente vai pra esse almoço que ele marcou amanhã, aparece de mãos dadas, apaixonados pra caralho, e mostra que nada abala a gente. Ele quer certezas? A gente dá certeza. Mas você precisa estar comigo nisso, cem por cento.
— Eu tô com você — respondi, firme, mas por dentro meu coração tava batendo descontrolado. Apaixonados pra caralho. Eu sabia fingir isso na frente do senhor Albuquerque, mas e na frente do Rafael? Depois do beijo, cada toque dele, cada “querido” falso, ia ser um teste de fogo.
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O resto do dia passou numa correria louca. Rafael ficou no telefone com a assessoria, enquanto eu tentava me distrair fuçando o apê — qualquer coisa pra não pensar no calor do corpo dele contra o meu na garagem. Mas aí, de noite, ele apareceu na sala com uma garrafa de cerveja na mão — cerveja de novo, não uísque, o que já era um choque — e se jogou no sofá do meu lado, mais perto do que o normal. O cabelo dele tava bagunçado, a camisa aberta nos primeiros botões, e eu senti aquele cheiro dele me envolvendo outra vez.
— Tá tudo encaminhado — disse ele, dando um gole na cerveja e me olhando de lado. — A nota sai amanhã cedo, e a assessoria já achou o jornalista que publicou a foto. Um freelancer que o Felipe deve ter enchido de grana. Vamos calar ele com um processo, se precisar.
— Boa — murmurei, pegando a cerveja da mão dele sem nem pedir e dando um gole, só pra ter algo pra fazer com as mãos. — E o almoço com seu pai? Qual o plano além de “apaixonados pra caralho”?
Ele riu baixo, um som que me pegou desprevenida e fez meu estômago dar uma cambalhota. — O plano é simples: a gente chega lá, você me chama de “querido” umas dez vezes, eu coloco a mão na sua cintura, e você sorri como se eu fosse o amor da sua vida. Meu pai vai testar você, como sempre, mas eu te cubro. Só não deixa ele te intimidar.
— Fácil falar — retruquei, devolvendo a cerveja pra ele e sentindo os dedos dele roçarem nos meus por um segundo. Meu Deus, aquele toque mínimo já me deixou elétrica. — Seu pai é assustador, Rafael. E se ele perguntar do Felipe de novo?
— Ele vai perguntar — disse Rafael, com aquela calma irritante que ele tinha. — E você diz que o Felipe é passado, que ele tá tentando te atingir porque não aceita te ver feliz comigo. Depois eu entro, falo que você me mudou, que eu te amo, essas coisas. Ele pode desconfiar, mas não vai ter prova pra nos derrubar.
— Te amo, é? — repeti, rindo de nervoso. — Você dizendo isso vai ser o Oscar da noite, querido.
Ele me encarou, os olhos brilhando com algo que eu não sabia nomear — diversão, talvez, ou algo mais perigoso. — Eu sou bom em fingir, Clara. Mas você… você tá segura de que consegue fingir depois de hoje?
O ar ficou tenso de novo. — Eu consigo — menti, levantando do sofá rápido demais pra ele não ver meu rosto pegando fogo. — Vou dormir, Rafael. Amanhã é guerra, e eu preciso estar inteira.
Ele não disse nada, só ficou me olhando enquanto eu saía, a cerveja ainda na mão e aquele meio sorriso que me matava. Fechei a porta do quarto e me joguei na cama, o coração disparado. Fingir. Claro. Mas cada vez que ele me tocava, cada vez que ele me olhava daquele jeito, ficava mais difícil lembrar que era só um contrato. E o pior? Eu não sabia se queria lembrar.
Enquanto isso, na sala, Rafael terminou a cerveja num gole só, jogou a garrafa vazia no balcão e pegou o skate velho do canto. Passou a mão nos adesivos desbotados, perdido em pensamentos, e murmurou baixo, quase pra si mesmo: “Mãe, o que eu faço com ela?”. Mas o silêncio do apê não respondeu, e ele ficou ali, preso entre o plano que ele criou e o fogo que ele não conseguia apagar.
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Atualizado até capítulo 40
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