Eu tava deitada na cama do meu quarto chique no apê do Rafael, olhando pro teto de novo — parecia que isso tava virando meu novo hobby. O jantar com o senhor Albuquerque ainda tava rodando na minha cabeça, tipo um filme que eu não sabia se tinha sido um sucesso ou um fiasco total. O Rafael disse que eu me saí bem, mas eu ainda sentia aquele olhar de tubarão do pai dele me atravessando, como se ele soubesse que eu era uma fraude. Talvez eu fosse mesmo. Afinal, quem era eu pra estar ali, fingindo ser a esposa perfeita de um bilionário? Uma jornalista fracassada com um passado que eu tentava enterrar a sete chaves.
Respirei fundo e fechei os olhos, mas em vez de dormir, as memórias vieram como um soco no estômago. Eu não tinha contado pro Rafael — nem pras minhas amigas, pra ser honesta — toda a história da minha vida. Não era só o Felipe me largando ou o aluguel atrasado que me jogaram no fundo do poço. Era um buraco bem mais fundo, que começou lá atrás, antes mesmo de eu sonhar em ser alguém na vida.
Eu cresci em Santo André, num bairro simples onde todo mundo se conhecia e ninguém tinha muito. Meu pai era motorista de ônibus, daqueles que acordava às 4h da manhã pra pegar no batente e voltava só de noite, exausto. Minha mãe trabalhava como costureira numa fabriquinha que pagava uma miséria, mas ela sempre dava um jeito de fazer o dinheiro render — arroz, feijão e ovo no prato todo dia, mas nunca faltou comida. Eles eram batalhadores, mas a vida não dava trégua. Quando eu tinha 12 anos, meu pai começou a tossir muito, uma tosse seca que não passava. Demorou pra ele ir no médico — “É só um resfriado, Clara, não precisa gastar com consulta”, ele dizia. Mas não era resfriado. Era câncer de pulmão. Ele fumava desde os 15, igual o Seu Zé, e aquilo acabou com ele em menos de dois anos.
Eu lembro do dia que ele morreu como se fosse ontem. Eu tava no oitavo ano, sentada na sala de aula, quando a diretora me chamou no corredor com uma cara que eu já sabia que não era boa notícia. Minha mãe tava no hospital, chorando tanto que mal conseguia falar. “Ele se foi, Clarinha”, ela disse, me abraçando com força. Eu não chorei na hora — acho que o choque me travou —, mas à noite, sozinha no meu quarto, desabei. Meu pai era meu herói, o cara que me levava pra tomar sorvete no domingo e me contava histórias de quando ele era jovem e sonhava em ser piloto de avião. E de repente, ele não tava mais lá.
Depois disso, a vida virou um caos. Minha mãe ficou sozinha pra sustentar a casa, e o salário dela mal dava pra pagar as contas. Eu comecei a trabalhar cedo, aos 16, fazendo bico numa lanchonete perto de casa. Lavava prato, fritava pastel, limpava chão — qualquer coisa pra ajudar. Mas eu não queria ficar presa ali pra sempre. Eu queria mais. Sempre fui boa com palavras, adorava escrever redações na escola, e sonhava em ser jornalista, contar histórias, mostrar pro mundo o que eu via. Então, fiz o que pude: estudei que nem louca, passei no vestibular da USP com bolsa, e me mudei pra São Paulo achando que ia conquistar o mundo.
Mas o mundo não é tão fácil assim, né? A faculdade foi incrível, mas também foi onde eu aprendi que ter talento não basta — você precisa de contatos, de sorte, de um empurrãozinho que eu nunca tive. Quando me formei, o mercado tava uma merda. Os jornais tavam fechando, as vagas eram poucas, e eu acabei caindo no Diário de São Paulo, um jornalzinho que pagava mal e exigia o triplo. Eu corria atrás de pauta, escrevia matéria atrás de matéria, mas nunca era o suficiente. Minha chefe, a dona Regina, vivia dizendo que eu precisava de algo “bombástico” pra me destacar, mas como é que eu ia fazer isso com o orçamento apertado e o cansaço me comendo viva?
Foi aí que o Felipe entrou na jogada. Eu conheci ele num bar perto da redação, numa noite que eu só queria tomar uma cerveja e esquecer o dia ruim. Ele era charmoso, engraçado, e me fez sentir que eu valia alguma coisa num momento que eu tava me afogando em insegurança. Namoramos por cinco anos, e eu achei que ele era o cara. A gente morava junto no meu apê caindo aos pedaços, fazia planos de casar, ter filhos, essas coisas. Mas aí, do nada, ele mudou. Começou a ficar distante, a inventar desculpa pra chegar tarde, e eu, burra, achava que era só estresse do trabalho dele. Até que veio a mensagem: “Clara, não tá mais rolando. Preciso me encontrar”. E pronto, ele pegou as coisas dele e sumiu, me deixando com o aluguel pra pagar sozinha e um buraco no peito que eu não sabia como tapar.
Depois disso, tudo desmoronou de vez. Eu não conseguia focar no trabalho, as pautas tavam uma droga, e o dinheiro foi sumindo. O aluguel atrasou, o cartão estourou, e eu comecei a viver de miojo e café requentado. Quando o Rafael apareceu com essa proposta maluca, eu tava tão desesperada que nem pensei duas vezes. Um milhão de reais era mais que um salvavidas — era a chance de apagar esse passado todo e recomeçar.
Abri os olhos de volta, sentindo um nó na garganta. O quarto chique do Rafael tava quieto, mas minha cabeça tava gritando. Eu não era só uma jornalista quebrada que topou um casamento de mentira por dinheiro. Eu era a filha do Seu João, que morreu cedo demais; a menina que fritava pastel pra ajudar a mãe; a estudante que sonhou alto e caiu feio. E agora eu tava aqui, fingindo ser alguém que eu não era, só pra não afundar de vez.
Levantei da cama e fui até a janela, olhando a cidade lá embaixo. São Paulo brilhava como sempre, cheia de luzes e promessas. Talvez o Rafael tivesse razão — talvez esse ano pudesse ser o melhor da minha vida.
Peguei o celular e vi que tinha uma mensagem nova dele: “Evento da empresa, quinta-feira, 19h. Esteja pronta”. Suspirei e joguei o celular na cama.
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Atualizado até capítulo 40
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