Eu tava jogada na cama do meu quarto no castelo de gelo, olhando pro teto — de novo, porque, né, parecia que eu tinha virado especialista nisso. O lance do skate com o Rafael na garagem ainda tava rodando na minha cabeça como um filme que eu não sabia se era comédia ou drama. Meu Deus, o que tinha sido aquilo? O jeito que ele me segurou, a voz rouca no meu ouvido, o calor das mãos dele na minha cintura… Eu tava ferrada. Não podia estar sentindo esse tipo de coisa por ele, não pelo iceberg do contrato, mas meu corpo não parecia entender isso. E pra piorar, eu ainda tinha a mídia me chamando de caça-fortunas, o senhor Albuquerque farejando e o Felipe rondando como um fantasma idiota. Eu precisava de ajuda. Urgentemente.
Peguei o celular e abri o grupo das meninas no WhatsApp. A Mari, a Bia e a Lu eram minha tábua de salvação, e eu tava afundando rápido demais pra ficar me fazendo de forte sozinha. Digitei com os dedos voando: “Gente, SOS nível máximo. Venham aqui no apê do Rafael hoje à noite, pelo amor de Deus. Tragam vinho, pizza e um desfibrilador, porque eu acho que meu coração não aguenta mais essa vida.”
Não deu nem dez segundos pra Mari responder com um “EU SABIA QUE VOCÊ IA SURTAR, TÔ INDO AGORA” em caps lock, como se ela já tivesse a mala pronta esperando meu chamado. A Bia mandou um “Clara, respira, a gente chega aí. O que rolou dessa vez?”, e a Lu, sempre no mundo da lua, só jogou um “Vou levar umas velas aromáticas pra acalmar o clima, tá?”. Eu ri sozinha, sentindo um alívio só de saber que elas tavam vindo. Essas meninas eram meu chão, e eu tava precisando de chão pra caramba.
O Rafael tinha saído pra mais uma reunião — porque, sério, o cara não parava nunca —, então eu tinha o apê livre pra transformar aquilo numa noite de terapia de emergência. Arrumei a sala rapidinho, joguei umas almofadas no sofá pra ficar mais aconchegante e abri a janela pra tirar aquele ar de museu que o lugar tinha. Quando a campainha tocou, eu praticamente corri pra abrir a porta, e lá tavam elas: a Mari com duas garrafas de vinho na mão e um sorrisão de quem ama um drama, a Bia carregando uma caixa de pizza que cheirava a paraíso, e a Lu com uma bolsa cheia de velas e um incenso que já tava deixando o corredor com cheiro de lavanda.
— Clara, minha nossa, você tá viva! — gritou a Mari, me puxando pra um abraço que quase me sufocou enquanto entrava com tudo. — Eu vi aquela matéria da Caras e já sabia que você ia pirar. Conta tudo agora!
— Calma, Mari, deixa ela respirar — disse a Bia, colocando a pizza na mesinha de centro e me dando um olhar de “tô preocupada, mas vou te ouvir”. Ela era sempre a voz da razão, mesmo quando eu tava a um passo do colapso.
— Gente, eu não sei nem por onde começar — falei, me jogando no sofá e pegando uma taça que a Mari já tava enchendo de vinho. — Essa semana foi um circo. A mídia me chamou de interesseira, o pai do Rafael tá me testando como se eu fosse uma criminosa, o Felipe apareceu falando que ainda me ama, e ontem… Meu Deus, ontem eu quase caí dura por causa do Rafael.
— Espera, como assim o Rafael? — perguntou a Lu, acendendo uma vela com calma enquanto se sentava no chão, como se fosse meditar no meio do meu caos. — Ele não é o cara frio que só quer o contrato?
— Era pra ser! — retruquei, dando um gole no vinho que desceu queimando. — Mas ontem ele me pegou tentando andar no skate dele na garagem, riu de mim, me ensinou a andar e… gente, ele me segurou pela cintura, falou no meu ouvido, e eu juro que quase perdi o juízo. Ele tava com a camisa aberta, todo solto, tomando cerveja… Eu não sei o que tá acontecendo comigo!
A Mari arregalou os olhos e deu um gritinho, batendo as mãos na coxa. — Clara, você tá gamada no bilionário! Eu sabia, eu sabia! Esse contrato ia virar treta emocional, eu avisei desde o começo!
— Não tô gamada, Mari! — protestei, mas minha voz saiu mais alta que o normal, e eu senti o rosto esquentar. — É só… sei lá, ele tá diferente. Ele abriu o jogo sobre a mãe dele, sobre o passado, e ontem ele tava… humano. Sexy pra caramba, mas humano. E eu não posso sentir isso, gente, é um contrato!
A Bia cruzou os braços e me encarou com aquele olhar de psicóloga que ela fazia tão bem. — Clara, para um segundo. Você tá confusa porque ele tá mostrando um lado que você não esperava, mas isso não quer dizer que é amor. Pode ser só atração, ou você projetando algo nele porque tá carente depois do Felipe. O que você sentiu de verdade na garagem?
Eu parei, engolindo em seco. O que eu senti? Meu Deus, eu senti calor, tesão, vontade de virar e agarrar ele ali mesmo na garagem, com o skate e tudo. Mas também senti um vazio, uma dúvida, porque eu sabia que não era real. — Eu senti… ele — falei, meio sem jeito. — O calor dele, a voz, o jeito que ele me olhou. Mas aí eu lembrei que é tudo mentira, e fiquei com medo de tá me iludindo. E se eu acabar gostando dele de verdade, Bia? O que eu faço com um milhão de reais e um coração quebrado?
— Ai, amiga, isso tá virando novela mexicana mesmo — disse a Mari, rindo enquanto abria a pizza e pegava um pedaço. — Mas sério, Clara, se ele tá te mexendo assim, talvez ele sinta algo também. Ele te ensinou a andar de skate, abriu o jogo sobre a mãe… Isso não é coisa de iceberg total, não.
— Ou é só ele tentando te manter no jogo — cortou a Bia, sempre desconfiada. — Ele precisa de você pro plano dele funcionar, Clara. Pode ser só manipulação pra te deixar confortável. Você já perguntou pra ele o que ele sente?
— Perguntar pra ele? — repeti, quase engasgando com o vinho. — Bia, o Rafael mal fala de sentimento com uísque na mão, imagina eu chegando e falando: ‘Oi, querido, você tá afim de mim ou é só o contrato?’. Ele ia me jogar pela janela!
A Lu, que tava quieta até então, levantou a cabeça da vela e falou, com aquele tom calmo que parecia de outro planeta: — Talvez ele não saiba o que sente, Clara. Às vezes a gente guarda tanto as coisas que nem percebe quando elas começam a vazar. O skate… talvez ele tá se soltando com você sem nem querer.
Eu fiquei quieta, processando. Será que a Lu tinha razão? Será que o Rafael tava deixando aquele menino do skate vazar sem perceber? Ou era só eu vendo coisa onde não tinha? — Gente, eu não sei mais o que pensar — admiti, jogando a cabeça pra trás no sofá. — Eu só sei que tô num mato sem cachorro. A mídia tá me ferrando, o Felipe tá me assombrando, e o Rafael… ele tá me confundindo pra caramba.
— Então foca no que você pode controlar — disse a Bia, pegando um pedaço de pizza e me entregando outro. — Bloqueia o Felipe de vez, deixa o Rafael lidar com a mídia e o pai dele, e tenta entender o que você quer disso tudo. Se for só o dinheiro, beleza. Mas se tiver mais, você vai ter que encarar, Clara.
— E se tiver mais, eu te ajudo a planejar o casório de verdade, hein — brincou a Mari, piscando pra mim. — Imagina, você virando a senhora Albuquerque pra valer, com direito a vestido de noiva e tudo!
— Para, Mari, pelo amor de Deus! — falei, rindo apesar do nervoso. — Eu mal sobrevivo ao contrato, imagina um casamento de verdade com ele. Mas… valeu, meninas. Sério, eu tava surtando sozinha aqui. Vocês são meu porto seguro.
— Sempre, amiga — disse a Lu, acendendo mais uma vela e sorrindo. — E olha, essa energia tá pesada. Vou deixar uma vela de proteção pra você, tá? Pro Rafael não te engolir viva.
— Se ele me engolir, espero que seja de um jeito bom — soltei, sem pensar, e a Mari caiu na gargalhada, quase derrubando o vinho.
— Essa é a Clara que eu conheço! — gritou ela, levantando a taça. — Um brinde à você, ao bilionário sexy e ao caos que a gente ama!
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Atualizado até capítulo 40
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