Eu tava jogada no sofá da sala, com uma xícara de café na mão — dessa vez eu já tinha dominado a cafeteira hi-tech, um pequeno milagre na minha vida caótica de “esposa de mentira”. O brunch dos investidores tinha sido ontem, e eu ainda tava digerindo tudo: o papo enigmático do senhor Albuquerque, o “Em casa, pelo menos. Não precisa sustentar a encenação o tempo todo.” do Rafael, e essa sensação esquisita de que eu tava começando a entender o cara por trás do terno impecável. Mas entender o Rafael era tipo tentar montar um quebra-cabeça sem as bordas — eu tinha umas peças, mas a imagem inteira ainda tava fora de alcance. Quem era ele, afinal? Por que esse plano maluco de casar comigo? E o que fazia Aquele coração de gelo bater, se é que batia?
O dia tava tranquilo, pelo menos. O Rafael tinha saído cedo de novo — reunião, claro, porque o cara parecia nunca parar —, e eu resolvi dar uma fuçada no castelo de gelo pra passar o tempo. Não que eu fosse xeretar de verdade, tipo abrir gavetas ou algo assim, mas dei uma volta pela sala, olhando os detalhes que eu nunca tinha parado pra reparar. As paredes brancas com quadros abstratos caríssimos, o bar sempre abastecido com garrafas. Tudo parecia tão “Rafael Albuquerque”, mas ao mesmo tempo não dizia nada sobre ele. Era tudo tão… estéril. Até que eu vi uma coisa que me fez parar.
Num canto da estante, meio escondido atrás de uns livros grossos de economia — que, vamos combinar, eu nunca ia ler —, tinha um porta-retratos pequeno, daqueles simples, de madeira. Peguei com cuidado, como se fosse explodir na minha mão, e dei uma olhada. Era uma foto antiga, meio amarelada nas bordas: um menino de uns 8 anos, cabelo castanho bagunçado, sorrindo com um skate na mão. Ao lado dele, uma mulher linda, de cabelo longo e olhos verdes iguais aos do Rafael, abraçando ele com um sorriso que parecia aquecer a foto inteira. Não tinha como errar: era ele, o Rafael criança, e aquela devia ser a mãe dele. Mas cadê o senhor Albuquerque? E por que essa foto tava quase escondida, como se fosse um segredo?
Eu tava tão perdida olhando aquilo que nem ouvi a porta abrindo. — Clara? — A voz dele me pegou desprevenida, e eu quase deixei o porta-retratos cair no chão. Virei rápido, com cara de quem foi pega no flagra, e lá tava ele, na entrada da sala, com a sobrancelha levantada e o paletó pendurado no ombro.
— Meu Deus, Rafael, você quer me matar do coração? — falei, colocando o porta-retratos de volta na estante com as mãos tremendo. — Desculpa, eu… só tava olhando.
Ele deu um passo pra dentro, jogou o paletó no sofá e me encarou, com aquele olhar que eu nunca sabia se era raiva ou curiosidade. — Olhando o quê, exatamente?
— Isso aqui — respondi, apontando pro porta-retratos. — É você com sua mãe, né? Eu não sabia que você já teve um skate. Ou um sorriso.
Ele ficou quieto por uns segundos, e eu juro que vi a mandíbula dele apertar, como se eu tivesse tocado num nervo exposto. Aí ele foi até o bar — porque, né, uísque era o remédio pra tudo na vida dele — e serviu um copo enquanto falava: — Isso foi há muito tempo. E sim, é minha mãe. Por que a curiosidade?
— Porque eu não sei nada sobre você, Rafael — retruquei, cruzando os braços e sentando no sofá. — Você sabe tudo de mim: meu passado, minhas dívidas, até meu ex babaca. Mas você? É um mistério. Eu vivo na sua casa, finjo ser sua esposa, e não sei nem de onde você veio. Quem é você, além do bilionário gelado que manda em tudo?
Ele tomou um gole do uísque e se sentou na poltrona, me olhando como se tivesse decidindo se valia a pena abrir a boca. Por um segundo, achei que ele ia me mandar esquecer o assunto, mas aí ele suspirou e começou a falar.
— Tá, Clara. Você quer saber? Eu nasci em São Paulo, mas não aqui nesse mundo de prédios de vidro e hotéis de luxo. Minha mãe, Ana, era de uma família simples do interior, filha de agricultores. Meu pai a conheceu quando tava começando a expandir os negócios da família, ainda nos anos 80. Ela trabalhava numa loja de roupas no centro, e ele… bem, ele era o Albuquerque, mesmo naquela época. Charmoso, ambicioso, com um plano pra tudo. Eles se apaixonaram, ou pelo menos foi o que ela achou. Casaram rápido, e eu nasci um ano depois.
Eu pisquei, surpresa. — Então sua mãe não era desse mundo de rico? Tipo eu?
— Tipo você — confirmou ele, com um meio sorriso que não tinha graça nenhuma. — Ela era simples. Me criou com histórias de quando ela era criança, colhendo frutas no quintal, andando descalça na terra. Eu adorava isso. O skate da foto? Ela me deu no meu oitavo aniversário. Meu pai odiava, dizia que era coisa de “moleque de rua”, mas ela insistiu. Dizia que eu precisava de algo pra me soltar, pra não virar um robô como ele.
Eu ri, sem querer. — Desculpa, mas você com skate é uma imagem que eu nunca imaginaria.
— Pois é. Eu era bom, sabia? — disse ele, com um brilho nos olhos que eu nunca tinha visto. — Passava horas na rua com os amigos do bairro, caindo, ralando o joelho, voltando pra casa todo sujo. Minha mãe ria, limpava os cortes e dizia que eu ia ser diferente do meu pai. Mas aí tudo mudou.
Ele parou, tomou outro gole do uísque, e eu senti um frio na espinha. — Mudou como? — perguntei, quase num sussurro.
— Ela morreu quando eu tinha 12 anos — respondeu ele, com a voz mais baixa que o normal. — Câncer. Rápido, agressivo. Num dia ela tava me levando pra tomar sorvete, no outro tava no hospital, magra demais, fraca demais. Meu pai… ele não lidou bem. Nunca foi de demonstrar sentimento, mas depois que ela se foi, ele virou uma parede. Me tirou da escola pública onde eu estudava com meus amigos, me jogou num colégio interno chique, e começou a moldar o “herdeiro perfeito”. O skate ficou no passado, junto com tudo que eu era antes.
Eu fiquei quieta, processando. Meu Deus, ele tinha perdido a mãe dele também. Igual eu perdi meu pai. Mas enquanto eu cresci com o amor da minha mãe me segurando, ele ficou com… o quê? Um pai tubarão e um monte de dinheiro? — Rafael, eu… sinto muito — falei, sem saber direito o que dizer. — Sua mãe parecia incrível.
— Ela era — disse ele, olhando pro copo como se tivesse vendo ela ali dentro. — Depois que ela morreu, meu pai decidiu que eu não podia ser fraco. Me jogou na empresa aos 16, me fez aprender tudo: finanças, negociações, como mandar nas pessoas. Ele dizia que emoção é um luxo que a gente não pode pagar nesse mundo. E eu acreditei. Virei isso que você vê: o cara que resolve tudo, que não perde o controle. Mas às vezes… às vezes eu olho pra essa foto e penso no que ela diria se me visse agora.
— E o que você acha que ela diria? — perguntei, sentindo um nó na garganta.
Ele deu uma risada seca, quase amarga. — Ela ia odiar isso tudo. O terno, o uísque, esse plano idiota de casar por contrato. Ela ia dizer que eu tô vivendo a vida do meu pai, não a minha. E ela tava certa sobre uma coisa: eu virei um robô. Mas é o que funciona, Clara. É o que me mantém no topo.
Eu me levantei do sofá e fui até a estante, pegando o porta-retratos de novo. Olhei praquele menino sorrindo com o skate, tão diferente do homem na minha frente. — Sabe, Rafael, você não é tão robô assim. Robô não guarda uma foto da mãe escondida. Robô não me diz pra tirar a máscara em casa. Talvez tenha um pedaço daquele menino aí dentro ainda.
Ele me encarou. Mas aí ele levantou, veio até mim e pegou o porta-retratos da minha mão, olhando pra foto como se fosse a primeira vez em anos. — Talvez — disse ele, quase pra si mesmo. — Mas esse menino não sobreviveria no mundo do meu pai. E eu preciso sobreviver.
— Sobreviver não é viver, Rafael — retruquei, antes que pudesse me segurar. — Sua mãe te deu aquele skate pra você se soltar. Talvez esse contrato, esse plano todo… talvez seja só mais uma jaula que você tá aceitando.
Ele me olhou, surpreso. Não era um sorriso, não era choro — era só… um vazio que ele não sabia como preencher. — E você, Clara? Tá vivendo ou só sobrevivendo nesse contrato comigo?
Eu abri a boca pra responder, mas não saiu nada. Porque, Meu Deus, eu não sabia.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Walderez Custódio
/Chuckle//Chuckle//Chuckle/
2025-04-04
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