Eu tava jogada no sofá da sala do Rafael — sim, eu já tava começando a me aventurar pra fora do meu quarto, porque ficar trancada lá tava me dando nos nervos. O evento da empresa que ele mencionou tava a dois dias de distância, e eu ainda não fazia ideia de como ia sobreviver a mais uma noite fingindo ser a esposa perfeita. O jantar com o pai dele já tinha sido um teste de resistência, e agora eu ia ter que encarar um monte de gente rica da empresa, todos me olhando torto como se eu fosse uma invasora. Meu Deus, eu precisava de um respiro.
Peguei o celular e abri o grupo das amigas no WhatsApp. A Mari, a Bia e a Lu tavam quietas desde meu último “surto em 3, 2, 1” depois do casamento no cartório, mas eu sabia que elas tavam loucas pra saber mais. E, pra ser honesta, eu tava morrendo de saudade delas. Essas meninas eram meu porto seguro, minha âncora no meio desse caos todo. Então, resolvi jogar um pedido de socorro no ar.
“Gente, SOS. Tô surtando aqui no apê do Rafael. Podem vir me salvar hoje à noite? Tragam vinho e pizza, pelo amor de Deus.”
Não deu nem um minuto pra Mari responder com um “EU SABIA QUE VOCÊ IA CHAMAR A GENTE, TÔ INDO” em caps lock, como se ela tivesse gritando do outro lado da cidade. A Bia mandou um “Tá, mas só se você contar tudo com detalhes. E eu levo o vinho, porque você só compra coisa barata”. E a Lu, como sempre no mundo da lua, escreveu: “Pizza de quê? E posso levar meu baralho pra gente jogar tarot depois?”. Eu ri sozinha, sentindo um alívio que eu não sabia que precisava. Essas três eram minha salvação.
Respondi rapidinho: “Valeu, meninas. Pizza de calabresa, Lu, e pode trazer o tarot sim. Cheguem às 19h, antes que o Rafael volte e me veja surtando de vez.” Coloquei o celular no colo e fiquei olhando pro teto da sala — um teto chique pra caramba, com luzes embutidas que eu nem sabia como acender direito. Pelo menos por uma noite eu ia ter um pedacinho da minha vida normal de volta.
O dia passou voando enquanto eu tentava arrumar o apartamento pra receber as meninas. Não que precisasse de muita coisa — o lugar já era impecável, tipo um showroom de revista de decoração —, mas eu joguei umas almofadas no sofá pra deixar mais aconchegante e abri a janela pra tirar aquele cheiro de “casa de rico” que parecia impregnado no ar. O Rafael tinha saído cedo pra alguma reunião, então eu tinha o castelo de gelo só pra mim.
Quando o interfone tocou às 18h55, meu coração deu um pulinho de alegria. O porteiro — um cara diferente do Seu Zé, mas igualmente sério — avisou: “Senhora Albuquerque, suas visitas chegaram.” Eu quase ri do “senhora Albuquerque”, mas disse pra liberar a entrada e corri pra abrir a porta.
A Mari foi a primeira a entrar, com uma energia que parecia iluminar o lugar todo. Ela tava com uma bolsa gigante pendurada no ombro e uma caixa de pizza na mão, gritando: “Clara, sua rica, onde você tava com a cabeça escondendo esse palácio da gente?”. Atrás dela veio a Bia, segurando duas garrafas de vinho tinto e me olhando com cara de “explica isso direito”, e por último a Lu, com uma bolsa de veludo roxa e um sorriso avoado, já tirando o baralho do bolso como se fosse começar o tarot ali na porta.
— Meninas, vocês não sabem como eu tava precisando disso — falei, abraçando cada uma delas com força. A Mari retribuiu com um apertão que quase me quebrou uma costela, a Bia deu um tapinha nas minhas costas tipo “calma lá”, e a Lu me abraçou como se fosse um koala, toda molenga.
— Tá, agora senta aqui e conta tudo desde o começo, porque eu ainda não acredito que você casou com um bilionário por contrato — disse a Mari, jogando a pizza na mesinha de centro e se jogando no sofá como se fosse a dona do lugar.
Eu ri, peguei uns copos na cozinha — copos chiques que eu tinha medo de quebrar — e voltei pra sala enquanto a Bia abria o vinho. — Então, foi assim — comecei, sentando no chão pra ficar mais à vontade. — O Rafael apareceu do nada no meu apê velho, ofereceu um milhão pra eu ser a esposa dele por um ano, e eu, que tava no fundo do poço, disse sim. Aí a gente casou no cartório, eu me mudei pra cá, e ontem eu conheci o pai dele num jantar que quase me matou de nervoso.
A Mari arregalou os olhos e deu um gole no vinho. — Meu Deus, Clara, isso é tipo novela das nove! E o pai dele, é tão assustador quanto dizem?
— Pior — respondi, pegando um pedaço de pizza. — O cara é um tubarão, como o Rafael falou. Me olhou como se soubesse que eu sou uma farsa. Mas o Rafael disse que eu me saí bem, então… acho que sobrevivi.
A Bia, que tava quieta até então, cruzou os braços e me encarou. — Tá, mas e você, Clara? Como você tá lidando com isso? Casar com um estranho, morar num lugar que não é seu… Não é só sobre o dinheiro, né?
Eu suspirei. — Não é, Bia. Eu tô tentando me convencer que é só um trabalho, sabe? Um ano, um milhão, e depois eu recomeço. Mas às vezes eu olho pra esse lugar, pro Rafael, e penso: o que eu tô fazendo aqui? Eu não sou essa pessoa.
A Lu, que tava mexendo nas cartas do tarot, levantou os olhos pra mim com aquele jeito dela, meio místico. — Clara, o universo te colocou aqui por um motivo. Talvez não seja só o dinheiro. Talvez você precise aprender algo com esse cara gelado.
— Aprender o quê, Lu? A ser fria como ele? — retruquei, rindo de leve, mas com um fundo de verdade.
— Não sei — disse ela, embaralhando as cartas. — Vamos tirar uma pra você agora e ver o que sai.
A Mari bateu palma, animada. — Isso, Lu, faz o tarot dela! Eu quero saber se ela vai virar a rainha desse castelo ou se vai sair correndo com o milhão na mão!
A Lu puxou uma carta e virou na mesinha: era o “Enamorado”. Ela sorriu, misteriosa. — Escolhas, Clara. Você tá num cruzamento. O que você vai escolher? O coração ou a razão?
Eu revirei os olhos, mas não consegui não rir. — Tá, Lu, muito bonito, mas eu escolhi o milhão, não o Rafael. Isso aqui é só negócios.
— Sei lá, hein — disse a Mari, me cutucando com o pé. — Ele é gato pra caramba, Clara. Vai que você acaba gostando do iceberg?
— Nem ferrando — respondi, rindo, mas sentindo um calafrio esquisito. Gostar do Rafael? Impossível. O cara era um robô em forma de gente.
A noite foi passando com mais pizza, mais vinho e muitas risadas. A Bia me fez prometer que ia tomar cuidado com o Rafael e o pai dele, a Mari inventou mil planos pra eu gastar o milhão quando tudo acabasse, e a Lu leu o tarot pra todas nós, prevendo que a Mari ia “encontrar um amor avassalador” e que a Bia ia “lutar contra sombras do passado”. No fim, elas foram embora lá pras onze, me deixando com um quentinho no peito que eu não sentia há dias.
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Atualizado até capítulo 40
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