Eu tava andando de um lado pro outro na sala do Rafael, com o celular na mão e o coração na boca, esperando ele chegar. A mensagem do Felipe ainda tava queimando na minha cabeça, tipo um filme ruim que eu não conseguia pausar. “Eu ainda te amo”, ele disse. Sério? Depois de tudo? E pra piorar, a mídia tinha pegado a gente — eu nem sabia como, mas se o Felipe viu, era só questão de tempo até virar um circo. O Rafael ia surtar, eu tinha certeza. Ele era obcecado com controle, e isso aqui era tipo uma bomba explodindo no meio do plano perfeito dele.
Quando ouvi a porta abrir, quase dei um pulo. Era ele, claro, entrando com aquele ar de quem já tava puto antes mesmo de saber o tamanho da encrenca. O terno impecável, o cabelo penteado pra trás, mas os olhos verdes tavam mais afiados que nunca. Ele jogou as chaves no potinho de vidro com um barulho seco e me encarou, tipo “fala logo antes que eu perca a paciência”.
— Tá, respira, Rafael — comecei, levantando as mãos como se fosse acalmar um bicho bravo. — Antes que você me mate, deixa eu explicar. O Felipe, meu ex, me mandou mensagem hoje. Ele viu uma foto nossa num site de fofoca, sabe-se lá como, e me chamou pra conversar. Eu fui, burra que sou, e ele tá desconfiado que nosso casamento é de mentira. E, pior, ele jogou na minha cara que ainda me ama e quer que eu “pense de novo sobre a gente”. Pronto, é isso.
Ele ficou quieto por uns segundos, só me olhando com aquele raio-X que ele fazia tão bem. Aí ele cruzou os braços e falou, com a voz baixa e cortante: — Você foi encontrar ele? Sem me avisar?
— Foi, Rafael! — retruquei, já sentindo o sangue subir. — Eu não achei que precisava de permissão pra lidar com meu passado. Ele apareceu do nada, e eu quis saber o que ele queria. Não é como se eu tivesse planejado um reencontro romântico!
Ele deu um passo pra frente, ainda com os braços cruzados, e eu vi a mandíbula dele apertar. — Clara, esse contrato não é brincadeira. Você acha que pode sair por aí, encontrar ex-namorado e deixar ele fuçar na nossa história sem me contar? E se ele abrir a boca pra alguém? E se a imprensa pegar isso e transformar num escândalo? Meu pai vai acabar com a gente.
— Tá, eu sei que foi burrice, beleza? — admiti, jogando as mãos pro alto. — Mas eu não achei que ele ia vir com essa de “te amo” do nada! E ele não tem prova nenhuma, Rafael. É só desconfiança. A gente pode contornar isso.
Ele bufou, tipo um touro pronto pra avançar, e foi até o bar pegar o uísque — porque, né, aquilo já era praticamente um ritual pra ele. — Contornar como, Clara? A mídia já tá em cima, e agora tem um ex-noivo xereta no meio. Eu te escolhi porque você era discreta, porque não tinha laços com meu mundo. E agora você me traz isso?
Eu senti uma pontada no peito, meio raiva, meio culpa. — Ah, me desculpa por ter uma vida antes de você, Rafael! Eu não pedi pro Felipe aparecer, nem pra mídia fuçar. Eu tô tentando fazer esse seu plano maluco funcionar, mas eu não sou um robô que você controla com um botão! Eu sou gente, sabia?
Ele parou com o copo na mão, me encarando como se eu tivesse falado algo que ele não esperava. Por um segundo, achei que ele ia mandar eu calar a boca e sair da sala, mas aí ele largou o copo no balcão e respirou fundo, como se tivesse tentando se segurar. — Tá, Clara. Vamos por partes. Primeiro: o que exatamente ele disse?
Eu me joguei no sofá, esfregando o rosto com as mãos. — Ele viu a foto, perguntou se eu casei com você por dinheiro, disse que me conhece e que esse casamento “não parece eu”. E aí jogou essa bomba de “eu ainda te amo” e pediu pra eu pensar na gente. Eu mandei ele pro inferno e saí de lá, mas ele mexeu comigo, Rafael. Não vou mentir.
Ele levantou uma sobrancelha, e dessa vez tinha um brilho diferente nos olhos dele — não era só raiva, era… sei lá, curiosidade? — Mexeu com você como?
Eu hesitei, porque, Meu Deus, como eu ia explicar isso pro cara que era meu “marido” de mentira? Mas ele tava esperando uma resposta, então fui na lata: — Ele me conhece, Rafael. Cinco anos juntos não somem assim. Ele sabe que eu não sou de casar por interesse, que eu sempre corri atrás das minhas coisas. E quando ele falou que eu não parecia feliz… sei lá, bateu uma dúvida. Será que dá pra ver que é tudo fachada? Será que eu tô falhando nesse seu joguinho?
Ele ficou quieto de novo, girando o copo na mão como se tivesse pensando em mil coisas ao mesmo tempo. Aí ele se sentou na poltrona na minha frente e me olhou direto nos olhos. — Clara, você não tá falhando. Meu pai tá intrigado com você, os acionistas te adoraram no evento, e até eu… — Ele parou, como se tivesse quase dito algo que não queria. — Você tá fazendo o que eu pedi. Mas se esse Felipe ainda mexe com você, isso é um problema. Não pro contrato, mas pra você.
Eu pisquei, surpresa. Ele tava preocupado comigo? Ou era só medo de eu estragar tudo? — Não mexe, Rafael. Quer dizer, mexeu na hora, mas eu não amo ele mais. É só… resto de bagagem, sabe? Ele me largou na pior, e agora quer voltar como se nada tivesse acontecido. Eu só fiquei balançada porque ele acertou onde dói.
Ele assentiu, devagar, e tomou um gole do uísque. — Então esquece ele. Bloqueia o número, ignora se ele tentar de novo. E a mídia… eu cuido disso. Já falei com minha assessoria, eles vão soltar uma nota dizendo que somos um casal discreto, apaixonado, bla bla bla. Se o Felipe abrir a boca, ninguém vai acreditar num ex despeitado contra a máquina dos Albuquerque.
Eu ri, sem querer, imaginando o Felipe tentando peitar o império do Rafael. — Tá, você é bom nisso, admito. Mas e se ele não desistir? Ele é teimoso pra caramba.
— Se ele não desistir, eu resolvo — disse Rafael, com um tom que me deu um arrepio. Não era ameaça, era certeza. — Mas você precisa me prometer uma coisa, Clara: nada de encontros secretos com ex ou qualquer um que possa ferrar isso. A gente tá no mesmo barco agora.
— Prometo, querido — falei, com um toque de ironia pra quebrar o clima pesado. Ele deu aquele meio sorriso que eu já tava começando a reconhecer e levantou da poltrona.
— Ótimo. Amanhã tem um brunch com uns investidores. Esteja pronta às 10h. E, Clara… — Ele parou na porta da sala, me olhando por cima do ombro. — Você não é uma fachada. Você é mais real do que metade dessa gente que eu convivo. Não deixa um idiota como ele te fazer duvidar disso.
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Atualizado até capítulo 40
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