Acordei com o barulho do celular vibrando na mesinha de cabeceira, e juro que por uns segundos achei que tudo tinha sido um sonho louco. Mas aí vi a mensagem do Rafael: “Cartório, 14h. Esteja lá. Roupa decente”. Meu estômago deu um nó, e eu joguei o celular na cama como se ele tivesse me queimado. Não era sonho. Era real. Eu ia casar com um bilionário que eu mal conhecia, num cartório qualquer, por um milhão de reais. Que tipo de novela mexicana minha vida tinha virado?
Fui pro banheiro, joguei uma água no rosto e encarei o espelho. Meu cabelo tava um caos, as olheiras pareciam tatuagem, e eu tinha cara de quem tava indo pra forca, não pra um casamento. “Tenta parecer uma noiva feliz”, ele tinha dito. Tá, Rafael, mas como é que eu faço isso com essa cara de enterro?
Abri o armário e fiquei olhando pras minhas roupas como se alguma mágica fosse fazer aparecer um vestido de noiva chique. Não rolou. O mais próximo que eu tinha de “decente” era um vestido bege que eu usei numa formatura da prima da Mari uns anos atrás. Não era exatamente o look dos sonhos pra um casamento, mas pelo menos não tava rasgado nem manchado de café. Passei um ferro rápido nele — porque, né, eu não ia casar amassada —, joguei um salto baixo que não me matasse no caminho e dei uma maquiada leve pra disfarçar o pânico. No fim, até que eu tava apresentável. Não uma noiva de revista, mas uma noiva de cartório, digamos assim.
Chamei um Uber de novo — porque ônibus num dia desses era pedir pra chegar suada e com cara de derrota — e saí com o coração na boca. O Seu Zé me viu passando e gritou: “Tá indo pra algum evento chique, Clara?”. Eu só acenei com um sorriso forçado e entrei no carro antes que ele perguntasse mais. No caminho, fiquei olhando pela janela, tentando me convencer que tava fazendo a coisa certa. Um milhão de reais, Clara. Um milhão. Pensa nas férias, no apartamento novo, na cara do Felipe quando te vir por cima. Mas aí vinha o outro lado da minha cabeça: E se der tudo errado? E se ele for um monstro? E se eu não aguentar um dia com esse cara?
Cheguei no cartório uns dez minutos antes das 14h, e o Rafael já tava lá, impecável como sempre. Terno cinza escuro, cabelo penteado pra trás, e aquele ar de quem manda no mundo. Ele me olhou de cima a baixo quando eu cheguei, e juro que vi um leve franzir de sobrancelha, como se meu vestido bege fosse um crime pessoal contra ele.
— Você veio — disse ele, com aquele tom seco que já tava me dando nos nervos.
— Claro que eu vim. Não é todo dia que a gente casa por um milhão, né? — respondi, tentando jogar um pouco de humor pra aliviar o clima. Não funcionou. Ele só deu um meio sorriso e fez sinal pra eu entrar com ele.
O cartório era simples, com paredes brancas meio descascadas e um ventilador barulhento no teto. Tinha uma moça de uns 40 anos atrás do balcão, com cara de quem já viu mil casais passarem por ali, e duas testemunhas que o Rafael deve ter arranjado — um cara de terno que parecia advogado e uma mulher de tailleur que não parava de mexer no celular. Nem um “oi”, nem um sorriso. Tudo muito frio. Igual o noivo, aliás.
A cerimônia — se é que dá pra chamar aquilo de cerimônia — foi rápida pra caramba. A moça leu umas coisas num tom monótono, perguntou se a gente aceitava um ao outro, e eu quase engasguei na hora de dizer “sim”. Rafael disse o dele sem nem hesitar, como se tivesse assinando um contrato de aluguel, não casando. Assinamos os papéis, as testemunhas assinaram também, e pronto. Em menos de 15 minutos, eu era oficialmente a senhora Clara Menezes Albuquerque. Pelo menos no papel.
— Parabéns, casal — disse a moça do cartório, sem nenhum entusiasmo, enquanto carimbava os documentos. Eu só agradeci com um murmúrio, ainda tentando processar que tinha acabado de casar.
Saímos do cartório, e o Rafael parou na calçada, olhando pro relógio como se já tivesse outro compromisso em cinco minutos. — Meu motorista vai te levar pro meu apartamento agora. Pode trazer suas coisas hoje à noite. Amanhã a gente começa as aparições públicas.
— Espera aí — falei, piscando rápido. — Hoje à noite? Tipo, já? Eu nem fiz as malas direito!
— Você assinou o contrato, Clara. Coabitação obrigatória, lembra? — disse ele, sem nem olhar pra mim direito. — Quanto antes você se mudar, mais rápido a gente entra na rotina.
Eu abri a boca pra protestar, mas ele já tava entrando num carro preto que parecia custar mais que minha vida inteira. O motorista, um cara de uns 50 anos com cara séria, abriu a porta pra mim e disse: “Senhorita Menezes, por favor”. Não tinha escapatória. Entrei no carro, e enquanto o Rafael ia embora num outro veículo, eu fui levada pro que ia ser meu novo “lar”.
O apartamento dele — ou melhor, mansão suspensa — ficava num prédio de luxo na Vila Nova Conceição, um bairro que eu só conhecia de passar de ônibus e sonhar. Quando entrei, quase deixei o queixo cair. Era tudo gigante: sala com pé direito alto, janelas do chão ao teto mostrando a cidade inteira, móveis que pareciam saídos de revista de decoração e uma cozinha que eu duvidava que ele já tivesse usado na vida. O motorista me levou até um quarto no corredor — “seu quarto, senhora Albuquerque”, ele disse, antes de sair —, e eu fiquei ali, parada, olhando pra uma cama king size que parecia gritar “você não pertence aqui”.
Sentei na cama, joguei a bolsa no chão e respirei fundo. Tá, Clara, você casou. Com um cara que parece um robô rico. E agora mora num lugar que parece um museu. Um milhão de reais, lembra? Um milhão. Mas, Meu Deus, o que eu tinha feito?
Peguei o celular e mandei uma mensagem no grupo das amigas: “Gente, casei. Tô no apê dele agora. Surto em 3, 2, 1…”. A Mari respondeu na hora com um “VOCÊ O QUÊ?????”, e eu só joguei o celular na cama, porque não tinha energia pra explicar.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Rosilene Ramos
ela não deveria ter contado pra ninguém, ainda mais em grupo de coleguingas,aff
2025-03-27
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