Capítulo 4: O Dia do "Sim" de Mentirinha

Acordei com o barulho do celular vibrando na mesinha de cabeceira, e juro que por uns segundos achei que tudo tinha sido um sonho louco. Mas aí vi a mensagem do Rafael: “Cartório, 14h. Esteja lá. Roupa decente”. Meu estômago deu um nó, e eu joguei o celular na cama como se ele tivesse me queimado. Não era sonho. Era real. Eu ia casar com um bilionário que eu mal conhecia, num cartório qualquer, por um milhão de reais. Que tipo de novela mexicana minha vida tinha virado?

Fui pro banheiro, joguei uma água no rosto e encarei o espelho. Meu cabelo tava um caos, as olheiras pareciam tatuagem, e eu tinha cara de quem tava indo pra forca, não pra um casamento. “Tenta parecer uma noiva feliz”, ele tinha dito. Tá, Rafael, mas como é que eu faço isso com essa cara de enterro?

Abri o armário e fiquei olhando pras minhas roupas como se alguma mágica fosse fazer aparecer um vestido de noiva chique. Não rolou. O mais próximo que eu tinha de “decente” era um vestido bege que eu usei numa formatura da prima da Mari uns anos atrás. Não era exatamente o look dos sonhos pra um casamento, mas pelo menos não tava rasgado nem manchado de café. Passei um ferro rápido nele — porque, né, eu não ia casar amassada —, joguei um salto baixo que não me matasse no caminho e dei uma maquiada leve pra disfarçar o pânico. No fim, até que eu tava apresentável. Não uma noiva de revista, mas uma noiva de cartório, digamos assim.

Chamei um Uber de novo — porque ônibus num dia desses era pedir pra chegar suada e com cara de derrota — e saí com o coração na boca. O Seu Zé me viu passando e gritou: “Tá indo pra algum evento chique, Clara?”. Eu só acenei com um sorriso forçado e entrei no carro antes que ele perguntasse mais. No caminho, fiquei olhando pela janela, tentando me convencer que tava fazendo a coisa certa. Um milhão de reais, Clara. Um milhão. Pensa nas férias, no apartamento novo, na cara do Felipe quando te vir por cima. Mas aí vinha o outro lado da minha cabeça: E se der tudo errado? E se ele for um monstro? E se eu não aguentar um dia com esse cara?

Cheguei no cartório uns dez minutos antes das 14h, e o Rafael já tava lá, impecável como sempre. Terno cinza escuro, cabelo penteado pra trás, e aquele ar de quem manda no mundo. Ele me olhou de cima a baixo quando eu cheguei, e juro que vi um leve franzir de sobrancelha, como se meu vestido bege fosse um crime pessoal contra ele.

— Você veio — disse ele, com aquele tom seco que já tava me dando nos nervos.

— Claro que eu vim. Não é todo dia que a gente casa por um milhão, né? — respondi, tentando jogar um pouco de humor pra aliviar o clima. Não funcionou. Ele só deu um meio sorriso e fez sinal pra eu entrar com ele.

O cartório era simples, com paredes brancas meio descascadas e um ventilador barulhento no teto. Tinha uma moça de uns 40 anos atrás do balcão, com cara de quem já viu mil casais passarem por ali, e duas testemunhas que o Rafael deve ter arranjado — um cara de terno que parecia advogado e uma mulher de tailleur que não parava de mexer no celular. Nem um “oi”, nem um sorriso. Tudo muito frio. Igual o noivo, aliás.

A cerimônia — se é que dá pra chamar aquilo de cerimônia — foi rápida pra caramba. A moça leu umas coisas num tom monótono, perguntou se a gente aceitava um ao outro, e eu quase engasguei na hora de dizer “sim”. Rafael disse o dele sem nem hesitar, como se tivesse assinando um contrato de aluguel, não casando. Assinamos os papéis, as testemunhas assinaram também, e pronto. Em menos de 15 minutos, eu era oficialmente a senhora Clara Menezes Albuquerque. Pelo menos no papel.

— Parabéns, casal — disse a moça do cartório, sem nenhum entusiasmo, enquanto carimbava os documentos. Eu só agradeci com um murmúrio, ainda tentando processar que tinha acabado de casar.

Saímos do cartório, e o Rafael parou na calçada, olhando pro relógio como se já tivesse outro compromisso em cinco minutos. — Meu motorista vai te levar pro meu apartamento agora. Pode trazer suas coisas hoje à noite. Amanhã a gente começa as aparições públicas.

— Espera aí — falei, piscando rápido. — Hoje à noite? Tipo, já? Eu nem fiz as malas direito!

— Você assinou o contrato, Clara. Coabitação obrigatória, lembra? — disse ele, sem nem olhar pra mim direito. — Quanto antes você se mudar, mais rápido a gente entra na rotina.

Eu abri a boca pra protestar, mas ele já tava entrando num carro preto que parecia custar mais que minha vida inteira. O motorista, um cara de uns 50 anos com cara séria, abriu a porta pra mim e disse: “Senhorita Menezes, por favor”. Não tinha escapatória. Entrei no carro, e enquanto o Rafael ia embora num outro veículo, eu fui levada pro que ia ser meu novo “lar”.

O apartamento dele — ou melhor, mansão suspensa — ficava num prédio de luxo na Vila Nova Conceição, um bairro que eu só conhecia de passar de ônibus e sonhar. Quando entrei, quase deixei o queixo cair. Era tudo gigante: sala com pé direito alto, janelas do chão ao teto mostrando a cidade inteira, móveis que pareciam saídos de revista de decoração e uma cozinha que eu duvidava que ele já tivesse usado na vida. O motorista me levou até um quarto no corredor — “seu quarto, senhora Albuquerque”, ele disse, antes de sair —, e eu fiquei ali, parada, olhando pra uma cama king size que parecia gritar “você não pertence aqui”.

Sentei na cama, joguei a bolsa no chão e respirei fundo. Tá, Clara, você casou. Com um cara que parece um robô rico. E agora mora num lugar que parece um museu. Um milhão de reais, lembra? Um milhão. Mas, Meu Deus, o que eu tinha feito?

Peguei o celular e mandei uma mensagem no grupo das amigas: “Gente, casei. Tô no apê dele agora. Surto em 3, 2, 1…”. A Mari respondeu na hora com um “VOCÊ O QUÊ?????”, e eu só joguei o celular na cama, porque não tinha energia pra explicar.

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Comments

Rosilene Ramos

Rosilene Ramos

ela não deveria ter contado pra ninguém, ainda mais em grupo de coleguingas,aff

2025-03-27

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Capítulos
1 Capítulo 1: A Proposta que Muda Tudo
2 Capítulo 2: A Linha do Sim
3 Capítulo 3: O Escritório do Rei
4 Capítulo 4: O Dia do "Sim" de Mentirinha
5 Capítulo 5: A Primeira Noite no Castelo de Gelo
6 Capítulo 6: O Jantar do Tubarão
7 Capítulo 7: Meu Passado
8 Capítulo 8: As Amigas do Resgate
9 Capítulo 9: O Segredo do Iceberg
10 Capítulo 10: O Evento da Firma
11 Capítulo 11: O Fantasma do Passado
12 Capítulo 12: O Confronto no Castelo de Gelo
13 Capítulo 13: O Brunch dos Ricos
14 Capítulo 14: O Outro Lado do Iceberg
15 Capítulo 15: O Circo e o Skate
16 Capítulo 16: As Amigas e o Surto Coletivo
17 Capítulo 17: O Beijo que Não Era Pra Acontecer
18 Capítulo 18: O Fogo que Não Apaga
19 Capítulo 19: O Caos que Não Para
20 Capítulo 20: A Bomba Chamada Isabela
21 Capítulo 21: O Lado Leve do Iceberg
22 Capítulo 22: O Circo Pegando Fogo
23 Capítulo 23: O Ponto Sem Volta
24 Capítulo 24: A Jogada da Isabela e a Chegada das Salvadoras
25 Capítulo 25: O Contra-Ataque
26 Capítulo 26: O Dia do Tudo ou Nada
27 Capítulo 27: A Ressaca do Triunfo
28 Capítulo 28: O Tombo dos Vilões e a Chegada da Mãe
29 Capítulo 29: O Confronto com Dona Lúcia
30 Capítulo 30: O Café com a Mãe e o Novo Começo
31 Capítulo 31: O Jantar da Paz
32 Capítulo 32: O Chá de Atualização com as Meninas
33 Capítulo 33: O Rolê das Meninas e o Arroz da Redenção
34 Capítulo 34: A Carta Que Mudou Tudo
35 Capítulo 35: A Verdade na Cara do Monstro
36 Capítulo 36: Cruzando o Oceano pela Verdade
37 Capítulo 37: A Mãe Reencontrada
38 Capítulo 38: Libertando Ana
39 Capítulo 39: O Domingo do Recomeço
40 Capítulo 40: Epílogo
Capítulos

Atualizado até capítulo 40

1
Capítulo 1: A Proposta que Muda Tudo
2
Capítulo 2: A Linha do Sim
3
Capítulo 3: O Escritório do Rei
4
Capítulo 4: O Dia do "Sim" de Mentirinha
5
Capítulo 5: A Primeira Noite no Castelo de Gelo
6
Capítulo 6: O Jantar do Tubarão
7
Capítulo 7: Meu Passado
8
Capítulo 8: As Amigas do Resgate
9
Capítulo 9: O Segredo do Iceberg
10
Capítulo 10: O Evento da Firma
11
Capítulo 11: O Fantasma do Passado
12
Capítulo 12: O Confronto no Castelo de Gelo
13
Capítulo 13: O Brunch dos Ricos
14
Capítulo 14: O Outro Lado do Iceberg
15
Capítulo 15: O Circo e o Skate
16
Capítulo 16: As Amigas e o Surto Coletivo
17
Capítulo 17: O Beijo que Não Era Pra Acontecer
18
Capítulo 18: O Fogo que Não Apaga
19
Capítulo 19: O Caos que Não Para
20
Capítulo 20: A Bomba Chamada Isabela
21
Capítulo 21: O Lado Leve do Iceberg
22
Capítulo 22: O Circo Pegando Fogo
23
Capítulo 23: O Ponto Sem Volta
24
Capítulo 24: A Jogada da Isabela e a Chegada das Salvadoras
25
Capítulo 25: O Contra-Ataque
26
Capítulo 26: O Dia do Tudo ou Nada
27
Capítulo 27: A Ressaca do Triunfo
28
Capítulo 28: O Tombo dos Vilões e a Chegada da Mãe
29
Capítulo 29: O Confronto com Dona Lúcia
30
Capítulo 30: O Café com a Mãe e o Novo Começo
31
Capítulo 31: O Jantar da Paz
32
Capítulo 32: O Chá de Atualização com as Meninas
33
Capítulo 33: O Rolê das Meninas e o Arroz da Redenção
34
Capítulo 34: A Carta Que Mudou Tudo
35
Capítulo 35: A Verdade na Cara do Monstro
36
Capítulo 36: Cruzando o Oceano pela Verdade
37
Capítulo 37: A Mãe Reencontrada
38
Capítulo 38: Libertando Ana
39
Capítulo 39: O Domingo do Recomeço
40
Capítulo 40: Epílogo

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