Eu tava jogada na cama king size do meu “novo quarto”, olhando pro teto como se ele fosse me dar alguma resposta sobre o que eu tinha feito da minha vida. O celular vibrou de novo no grupo das amigas — a Mari ainda tava surtando com um “ME CONTA TUDO AGORA, CLARA!” e a Bia já tinha mandado um “Se ele te trancar num porão, me avisa” —, mas eu não tinha nem força pra responder. Tava tudo girando na minha cabeça: o cartório, o “sim” de mentirinha, o Rafael me despachando pro apartamento dele como se eu fosse um pacote do Correios. E agora eu tava aqui, sozinha numa casa que parecia mais um museu do que um lugar pra morar.
Levantei da cama e dei uma volta pelo quarto, só pra ver se conseguia me sentir um pouco em casa. Tinha um armário gigante — vazio, claro, porque minhas coisas ainda tavam no meu apê velho —, uma cômoda branquinha com um espelho que me fez lembrar que eu tava com cara de quem não dormia há uma semana, e uma janela enorme com vista pra cidade. Fiquei olhando os prédios lá embaixo, as luzes piscando, e pensei: “Beleza, Clara, você tá no topo do mundo agora. Literalmente. Mas e aí?”.
De repente, ouvi um barulho vindo da sala. Tipo um tilintar de copo ou algo assim. Será que o Rafael tinha voltado? Meu coração deu um salto, e eu saí do quarto na ponta dos pés, como se fosse uma ladra invadindo a própria casa. Cheguei no corredor e vi ele lá, de costas, mexendo num bar chiquérrimo que ficava num canto da sala. Sem terno dessa vez, só uma camisa social preta com as mangas dobradas e uma calça que, juro, parecia custar mais que meu salário de um ano. Ele tava servindo um líquido âmbar num copo — uísque, provavelmente, porque rico adora essas coisas — e nem tinha percebido que eu tava ali.
— Hm… oi? — falei, meio sem graça, quebrando o silêncio.
Ele virou a cabeça devagar, como se eu tivesse interrompido um momento sagrado, e me olhou com aqueles olhos verdes que pareciam atravessar a gente. — Clara — disse ele, seco como sempre. — Você se instalou?
— Mais ou menos — respondi, dando um passo pra frente e tentando não parecer uma completa intrusa. — Ainda tenho que pegar minhas coisas no meu apartamento. Não deu tempo de organizar tudo hoje.
Ele deu um gole no uísque e assentiu, como se minha resposta fosse a coisa mais previsível do mundo. — Mandei o motorista buscar suas coisas amanhã de manhã. Você não vai precisar voltar lá.
Eu pisquei, confusa. — Como assim? Tipo, ele vai pegar tudo sem eu estar lá?
— Você me passou o endereço ontem, lembra? — disse ele, com aquele tom de quem tá explicando o óbvio pra uma criança. — O porteiro deixa ele entrar, ele pega o que for seu e traz pra cá. Simples.
— Tá, mas… e se ele pegar algo que eu não quero? Ou se eu precisar escolher o que trazer? — perguntei, cruzando os braços. Eu sei que tava parecendo chata, mas era minha vida que tava sendo encaixotada por um estranho!
Rafael suspirou, claramente sem paciência. — Clara, eu não tenho tempo pra microgerenciar suas mudanças. Se precisar de algo específico, faz uma lista e manda pro motorista. Mas amanhã você já tem que estar totalmente instalada aqui. A gente tem um jantar de negócios à noite, e você vai comigo.
— Um jantar? Já? — Minha voz saiu mais aguda do que eu queria, e eu senti meu estômago embrulhar. — Rafael, eu mal sei o que tá acontecendo, e você já quer me jogar num jantar chique? Eu nem sei como me comportar direito!
Ele me encarou por uns segundos, e juro que vi um brilho de diversão nos olhos dele, como se minha cara de pânico fosse engraçada. — Você não precisa saber muito. É só sorrir, ficar do meu lado e fingir que tá feliz por estar casada comigo. Não é tão difícil assim.
— Tá, mas e se alguém perguntar como a gente se conheceu? Ou quanto tempo a gente tá junto? — retruquei, sentindo o desespero subir. — Eu não sei nada sobre você, Rafael!
Ele terminou o uísque num gole só e colocou o copo no balcão com um clique seco. — A gente resolve isso agora, então. Senta aí — disse, apontando pra um sofá de couro que parecia saído de um catálogo de revista.
Eu obedeci, meio sem jeito, e ele se sentou na poltrona do outro lado, cruzando as pernas como se fosse um rei no trono. — Vamos alinhar a história. A gente se conheceu há seis meses num evento de caridade. Eu te achei interessante, começamos a sair, e há duas semanas eu te pedi em casamento num jantar romântico em Paris. Simples, direto, e ninguém vai cavar mais fundo que isso.
— Paris? — repeti, rindo sem querer. — Eu nem tenho passaporte, Rafael!
— Ninguém vai checar isso — disse ele, com um leve franzir de sobrancelha. — O importante é que a história seja convincente. Meu pai vai estar no jantar amanhã, e ele precisa acreditar que isso é real.
— Seu pai? — Meu coração quase parou. — Você não disse que ele ia estar lá!
— Agora eu disse — respondeu ele, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Ele é o motivo disso tudo, Clara. Se ele não comprar a ideia, o contrato não vai funcionar, e você pode dar adeus ao seu milhão.
O pai dele. O cara que podia acabar com meu plano de sair do buraco com um estalar de dedos. — Tá, e… como ele é? O que eu preciso fazer pra ele gostar de mim?
Rafael deu um meio sorriso, mas não era um sorriso simpático. Era mais… irônico. — Meu pai é um tubarão, Clara. Ele vai te testar, vai tentar te desarmar pra ver se você é de verdade. Só não se deixe intimidar. Fique firme, sorria, e me deixe falar a maior parte do tempo. Se ele gostar de você, metade do trabalho tá feito.
— Beleza, sem pressão, né? — murmurei, esfregando as mãos no rosto. — E se eu meter os pés pelas mãos? E se ele perceber que eu não sou o tipo de mulher que você casaria de verdade?
— Ele não vai perceber — disse Rafael, com uma confiança que eu queria ter. — Você só precisa parecer apaixonada por mim na frente dele. O resto eu resolvo.
— Apaixonada por você? — repeti, quase rindo de nervoso. — Rafael, eu mal te conheço, e você não é exatamente o cara mais… caloroso do mundo.
Ele levantou uma sobrancelha, como se eu tivesse dito algo interessante. — Então finge, Clara. Você é jornalista, sabe inventar uma história. Usa isso a seu favor.
Eu fiquei em silêncio, processando tudo. Fingir paixão por um cara que parecia mais um iceberg do que um marido. Sorrir pro pai dele, que era um “tubarão”. E ainda por cima num jantar chique onde eu provavelmente ia ser a única pessoa sem um guarda-roupa de grife.
— Tá, eu vou tentar — falei, finalmente, levantando os olhos pra ele. — Mas você podia me dar um manual de instruções pra amanhã, sabe? Tipo, o que eu visto? Como eu chamo seu pai? Essas coisas.
Rafael se levantou, foi até o bar e pegou outro copo, enchendo com uísque. Dessa vez, ele me ofereceu um, e eu aceitei — porque, né, eu tava precisando. — Amanhã de manhã, uma estilista vai vir aqui com algumas opções de roupa pra você. Escolha algo elegante, mas não exagerado. Meu pai odeia ostentação barata. E pode chamar ele de ‘senhor Albuquerque’. Ele gosta de formalidade.
— Certo… — murmurei, dando um gole no uísque e sentindo o líquido queimar minha garganta. — E você? Como eu te chamo na frente deles?
Ele me olhou por cima do copo, e por um segundo achei que ele ia rir. Mas não. — Me chama de ‘querido’. É convincente e não soa forçado.
— Querido — repeti, testando a palavra na boca. Soava ridículo, mas eu não ia discutir. — Tá bom, querido. Vamos ver se eu sobrevivo a esse jantar.
Ele deu um gole no uísque e assentiu. — Você vai sobreviver, Clara. Só não estrague tudo.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Cristiane Paes Fagundes
e pq ela não pode ir pegar as coisas dela...
2025-04-01
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