CAPÍTULO 14

         Ver Mia tão abatida me incomodou mais do que eu gostaria de admitir. Algo dentro de mim se revirou ao perceber aquela sombra de tristeza nos olhos dela. Não era apenas cansaço ou preocupação… era solidão.

         Peguei o telefone e liguei para a obstetra dela, buscando entender melhor o que estava acontecendo. Ela me explicou sobre a recomendação da yoga para gestantes e mencionou a amiga que ministrava as aulas.

Após desligar, olhei a programação das aulas e logo compreendi o que estava a afetando. A maioria das mulheres estavam acompanhadas por seus parceiros.

E Mia… ela estava sozinha.

             Um nó se formou em minha garganta. Não era apenas sobre a yoga. Era sobre Nathan. Sobre a ausência dele. Sobre tudo o que ela perdeu e que, de alguma forma, eu nunca conseguiria substituir.

Fiquei alguns minutos em silêncio, refletindo. Então, uma ideia surgiu.

Mia voltou à sala, entregando um copo d’água e o comprimido para minha mãe com o mesmo carinho de sempre.

— Aqui está, senhora Elina. Tome com calma, está fresquinha. — Sua voz era doce e atenciosa.

Mamãe sorriu, pegando o copo e o comprimido com delicadeza.

— Você é um anjo, minha querida. Cuida tão bem de mim…

Ela sorriu, mas havia um toque de melancolia ali.

Eu, que até então observava em silêncio, guardei o celular no bolso e me aproximei.

— Mia.

Ela levantou os olhos para mim, surpresa pela minha postura repentina.

— Amanhã eu te levo para a aula de yoga.

Seu olhar vacilou.

— Mas, Jacob…

— Sem discussão. Eu vou com você.

           Ela piscou algumas vezes, parecendo absorver minhas palavras. Um leve rubor tomou conta de seu rosto, e então, um sorriso singelo surgiu. Aquele sorriso.

— Obrigada…

Mais tarde, naquela noite

           O quarto estava mergulhado em penumbra, apenas a luz do abajur lançava um brilho suave sobre as páginas do livro que eu lia. Mas minha mente não estava ali.

Mia.

O sorriso dela.

A forma como os olhos dela se iluminavam, mesmo carregando tanta dor.

              Balancei a cabeça, fechando o livro com um suspiro pesado. O que diabos eu estava fazendo?

Levantei-me da cama e fui até a cozinha em busca de um copo d’água.

               Ao entrar, parei no meio do caminho. Ela estava ali, sentada à mesa, devorando um sanduíche com uma concentração quase cômica.

Pensei em dar meia-volta, mas me senti ridículo por isso. Então, apenas me aproximei.

— Mia… comendo a essa hora?

Ela olhou para mim, surpresa, com a boca cheia. Mastigou rápido antes de falar:

— Estou faminta. Parece que minha barriga tem um buraco sem fundo.

Soltei um pequeno riso.

— Bem, isso faz parte. Sophie está crescendo, precisa de energia.

Caminhei até a pia, enchi um copo d’água e bebi, apoiando-me no balcão.

— Quer um? — Ela ofereceu, apontando para um segundo sanduíche sobre o prato.

— Não, obrigado. Estou sem fome.

              Ela deu de ombros, terminando de comer. Ao se levantar, pegou o prato e veio até a pia, ficando ao meu lado.

Foi aí que aconteceu.

Um movimento descuidado, um toque sutil do cotovelo no meu copo esquecido na beirada da pia…

O vidro despencou e se estilhaçou no chão.

— Ah, meu Deus! Como eu sou desastrada… — Ela se abaixou apressada, tentando recolher os cacos.

— Mia, espera…

             Nos abaixamos ao mesmo tempo, nossas mãos se encontrando no ar por um instante. Foi rápido, mas intenso.

Nossos olhares se cruzaram.

E algo… algo que não deveria estar ali… surgiu no meio daquele instante.

O tempo pareceu desacelerar.

Ela engoliu em seco, e antes que eu pudesse reagir, ouvi seu pequeno gemido de dor.

— Droga, você se cortou…

Imediatamente, segurei sua mão e a puxei para cima, levando-a até uma cadeira.

— Deixe isso comigo, você não vai mexer em mais nada.

Ela hesitou, mas obedeceu.

Peguei o kit de primeiros socorros e me ajoelhei diante dela, segurando sua mão com firmeza enquanto limpava o pequeno corte com delicadeza.

Ela se mexeu levemente ao sentir o ardor do antisséptico.

— Quase pronto…

O silêncio era denso, quase palpável.

           Cada vez que nossos olhos se encontravam, eu sentia algo inquietante se espalhar dentro de mim. Algo errado. Algo que eu não deveria sentir.

Coloquei um curativo sobre o corte e soltei sua mão, afastando-me um pouco.

— Pronto. Cuide para não forçar a mão por um tempo.

— Obrigada, Jacob. Mas… deixe-me limpar isso, fui eu quem derrubou.

— Não. Vá descansar. Eu cuido disso.

Ela hesitou mais uma vez, mas, por fim, assentiu e saiu da cozinha.

Fiquei parado ali por um longo tempo, encarando o chão.

O que diabos estava acontecendo comigo?

Fechei os olhos, passando a mão pelo rosto.

Eu me sentia errado. Muito errado.

Alguma coisa estava mudando.

E isso me assustava mais do que qualquer coisa.

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Comments

Vanessa Corrêa🦋🦋

Vanessa Corrêa🦋🦋

Ahhh sabia q era ele o primeiro a se apaixonar
ah q lindo❤️❤️❤️❤️

2025-03-10

5

Maria de Fátima Soares da Silva

Maria de Fátima Soares da Silva

Estou adorando a sua história não demora para atualizar os capítulos por favor

2025-03-10

0

Luiza Oliveira

Luiza Oliveira

muito linda sua história parabéns 😍😍 que venha mais capítulos por favorzinho 😘

2025-03-10

0

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