CAPÍTULO 07

      Assim que desliguei o telefone, meu coração martelava no peito. A voz de Mia… tão frágil, tão hesitante, mas também carregada de uma força silenciosa que eu já começava a reconhecer. Só Deus sabia o que essa jovem estava enfrentando, quanta dor ela já havia suportado.

Mas agora, ela não precisaria mais suportar sozinha.

Ela e o bebê estavam sob minha proteção.

Dirigi de Zürich a Genebra sem hesitar, ignorando o cansaço e o peso das horas avançadas da madrugada. A tempestade de neve castigava as ruas, tornando a viagem ainda mais perigosa, mas nada me faria recuar.

          Quando finalmente estacionei diante do prédio onde Mia morava, o vento cortante açoitou meu rosto no instante em que saí do carro.

Eu subi os degraus rapidamente e bati à porta.

Demorou alguns segundos até que ela se abrisse.

E então, lá estava ela.

Mia.

         Seus olhos estavam vermelhos, as olheiras profundas denunciavam o cansaço. Seu rosto pálido, sua silhueta magra e frágil envolta em um casaco desgastado. Mas, acima de tudo, havia algo nela que me atingiu como um soco no peito: a expressão de alguém que já havia perdido tanto que aprendera a não esperar mais nada da vida.

Aquela garota era forte. Mas ninguém consegue ser forte o tempo todo.

— Vamos? — Minha voz saiu firme, mas sem pressa.

      Ela hesitou por um segundo. Seus dedos seguravam a alça da mala com força, como se aquela bagagem fosse tudo o que restava de sua vida.

— Deixe-me pegar isso para você — acrescentei, pegando as malas de suas mãos sem lhe dar escolha. — Apenas entre no carro, Mia. Não precisa se esforçar mais.

        Ela assentiu em silêncio. Mas, antes de dar o primeiro passo, olhou uma última vez para o apartamento.

Eu sabia o que aquele olhar significava.

Ela estava deixando para trás não apenas um lugar, mas tudo o que conhecia.

E isso exigia mais coragem do que qualquer um poderia imaginar.

         Depois de um longo momento, Mia respirou fundo e virou-se, entrando no carro sem dizer nada.

        Guardei as malas no porta-malas, sentindo o peso de algo maior do que apenas roupas e pertences. Havia anos de sofrimento dentro daquelas pequenas bagagens.

Entrei no carro e fechei a porta, soltando um suspiro enquanto ligava o motor.

— Você está se sentindo bem? Consegue viajar agora? — perguntei, lançando um olhar atento para ela.

       Mia apenas assentiu, mas seus olhos traíam a exaustão e o peso de tudo o que estava acontecendo. Ela estava segurando as emoções com força, mas nem os mais fortes conseguem manter as muralhas erguidas para sempre.

Dirigi, deixando aquela cidade para trás.

O silêncio no carro era pesado, mas não desconfortável. De vez em quando, eu a observava pelo canto do olho, vendo suas pálpebras lutarem contra o sono.

E, poucos minutos depois, ela finalmente cedeu.

O cansaço venceu.

Ela dormiu.

Meu coração apertou. Quantas noites sem dormir ela já teria enfrentado? Quantas vezes passou frio, fome, medo?

Apertei o volante com mais força. Isso acabou agora.

         Chegamos à minha casa algumas horas depois. O portão eletrônico se abriu assim que o porteiro me reconheceu. A enorme propriedade se estendia à nossa frente, cercada por árvores cobertas de neve, iluminada apenas pelas luzes suaves da entrada.

Estacionei o carro e desliguei o motor.

Mia começou a despertar lentamente, piscando algumas vezes, desorientada.

— Chegamos — murmurei, minha voz mais suave agora.

Ela esfregou os olhos e olhou pela janela, e foi nesse momento que vi a surpresa em seu rosto.

Seus lábios se entreabriram, seus olhos se arregalaram levemente.

— Isso… isso é sua casa? — Sua voz saiu hesitante.

— Sim. — Desci do carro e contornei o veículo, abrindo a porta para ela. — Venha.

         Ela saiu devagar, puxando o casaco ao redor do corpo enquanto olhava ao redor, ainda sem palavras.

A grande mansão de arquitetura clássica, com colunas imponentes e janelas enormes, parecia um contraste brutal com tudo o que ela viveu até agora.

Ela estava perplexa.

— Vamos entrar, está frio — disse, oferecendo minha mão.

Ela hesitou antes de aceitar, sua mão gelada e pequena na minha.

        Fiz um gesto para os empregados, que rapidamente pegaram suas malas e levaram para dentro.

Mia observava tudo em silêncio, claramente desconfortável com a movimentação.

— Seu quarto já está pronto — informei, guiando-a pela casa. — Se houver algo que não goste, posso providenciar algo melhor.

Ela me olhou, surpresa.

— Não… não precisa. — Sua voz saiu baixa, mas sincera. — Eu gostei. De verdade.

Senti um peso sair de meus ombros.

— Fico feliz em saber. — Fiz uma pausa antes de continuar. — Agora descanse, Mia. Amanhã, quero apresentá-la à minha mãe.

Ela assentiu, parecendo absorver tudo ainda.

— Descanse bem — acrescentei, prestes a me virar para sair.

Mas então, senti algo inesperado.

A mão dela segurou meu braço.

Fiquei surpreso pelo gesto.

Ela não olhou diretamente para mim, mas sua voz veio baixa, quase hesitante.

— Senhor Jacob… obrigada.

Fechei os olhos por um breve segundo, sentindo aquelas palavras se alojarem fundo no meu peito.

— Obrigada por estar me ajudando. De verdade.

       Por um momento, não soube o que responder. Eu não era um homem de muitas palavras quando se tratava de sentimentos, mas naquele instante, eu sabia que precisava deixá-la saber.

— Não precisa me agradecer, Mia. — Minha voz saiu firme, mas carregada de intensidade. — É meu dever. Você e esse bebê são minha responsabilidade agora.

Ela mordeu o lábio, emocionada, mas não disse mais nada.

Apenas assentiu.

Soltei um longo suspiro e afaguei de leve seu ombro.

— Agora vá descansar. É importante para o seu bebê. Amanhã, vou levá-la a uma amiga obstetra. Quero ter certeza de que você receberá todos os cuidados necessários.

Ela hesitou, mas depois assentiu novamente.

Deixei-a ali, observando-a por um último momento antes de sair do quarto.

Mas naquela noite, deitado em minha cama, o sono não veio.

Olhei para o teto, perdido em pensamentos.

Aquela jovem e meu neto haviam trazido algo que eu não sentia há anos.

Um motivo.

Eu os protegeria.

Eu prometi a Nathan.

E eu cumpriria.

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Comments

Selma

Selma

Jacob encontrou nela e, no bebê um motivo para não desistir.

2025-03-07

6

Rosa Maria

Rosa Maria

VC é maravilhosa autora,suas histórias são lindas e bem escritas.Parabens 🥰❤️

2025-03-07

0

Mclaudia Oliveira

Mclaudia Oliveira

Eles merecem ser feliz 🙌🙏

2025-03-07

1

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