CAPÍTULO 01

    Um dia antes

     O ronco grave do motor do Audi preto ecoava pelas ruas movimentadas de Zürich, Suíça, enquanto eu dirigia até o Hospital de Zürich. O inverno já se fazia presente no ar gelado daquela manhã, mas eu mal sentia o frio.

Meu nome é Jacob Frei. Cirurgião cardíaco, um dos melhores do país.

          Minhas mãos já salvaram incontáveis vidas. Corações pararam e voltaram a bater sob meu bisturi. Mas, ironicamente, eu fui incapaz de salvar as duas pessoas que mais amei na vida.

           Minha esposa, Natasha, foi a primeira. Um câncer implacável arrancou sua vida antes mesmo que tivéssemos tempo de lutar de verdade. Ela morreu em meus braços, me deixando com uma dor que achei que jamais poderia ser superada.

Mas o destino não estava satisfeito com apenas uma tragédia.

Nathan.

Meu filho. O meu menino.

         Ele tinha apenas três anos quando foi sequestrado. Desapareceu sem deixar rastros. Sem um bilhete, sem um pedido de resgate. Sem respostas.

         Eu o procurei por vinte anos. Contratei detetives, banquei investigações particulares, segui pistas vazias, me atirei em cada mínimo vestígio de esperança… apenas para acabar esmagado pela frustração todas as vezes.

A polícia desistiu. Todos desistiram.

Menos eu.

Mas a dor de perder Nathan nunca amenizou, nunca aliviou, nunca perdeu força.

E é por isso que, até hoje, eu afundo na única coisa que ainda me mantém de pé: o trabalho.

Era mais fácil fingir que nada doía quando eu estava salvando vidas.

        Estacionei o carro na vaga reservada aos médicos e segui com passos apressados para a entrada principal do Hospital, um dos mais prestigiados de Zürich. O hospital era a minha segunda casa, ou talvez a única casa que me restava.

        Assim que atravessei os corredores brancos impecáveis, a voz de Mariana, minha assistente, me interceptou com urgência.

— Doutor Frei! — ela me chamou, apressando os passos até me alcançar. — Paciente masculino, Vinte e três anos, deu entrada com dores intensas no tórax e falta de ar. O quadro é crítico.

Apertei o passo, minha mente já começando a calcular todas as possibilidades clínicas. Em segundos, me transformei no cirurgião.

— Quais são os sinais vitais? Pressão arterial? Saturação? — disparei, ajustando as luvas enquanto caminhávamos.

— Pressão 160 por 100. Saturação em 92%, mas caiu para 89% há alguns minutos. Ele está suando frio e sente uma dor em aperto irradiando para o braço esquerdo.

Meus olhos se estreitaram.

Sintomas claros de um infarto.

— Já foi administrado ácido acetilsalicílico? — perguntei, pegando meu jaleco do braço e o vestindo rapidamente.

— Sim, e colocamos oxigênio suplementar. Mas ele continua com dor intensa.

— Preparem morfina e nitroglicerina. Quero um eletrocardiograma agora. Também solicitem troponina, hemograma completo e uma angiotomografia.

Mariana assentiu e saiu correndo à frente.

           Eu cheguei na sala de atendimento poucos segundos depois, pronto para enfrentar mais um caso, pronto para salvar mais uma vida…

Mas quando meus olhos pousaram no paciente, meu corpo inteiro travou.

Era como se o tempo tivesse parado.

Aquela silhueta, aquele rosto… aquele jovem poderia ter sido Nathan.

Ele tinha a idade exata que meu filho teria agora.

Meu peito apertou.

Um arrepio gelado subiu por minha espinha, e uma onda esmagadora de lembranças me atingiu com força.

O riso infantil de Nathan ecoou em minha mente. Seu cheiro, seu toque. A forma como ele agarrava meu dedo com suas pequenas mãos.

Por um segundo, meu mundo desmoronou.

        Meus pulmões travaram, e eu quase dei um passo para trás, como se estivesse diante de um fantasma.

— Doutor? — a voz de Mariana me puxou de volta.

Pisquei algumas vezes, tentando me ancorar na realidade.

Nathan se foi. Esse não é meu filho.

Eu sou médico. Preciso agir. Preciso salvar esse rapaz.

Respirei fundo, ajustei o jaleco e assumi o controle.

— Vamos começar. Preciso dos exames agora. Monitorizem os sinais vitais de minuto em minuto.

Minha voz soou firme, mas por dentro… meu coração ainda estava descompassado.

Eu estava quebrado. Ainda sou quebrado.

Mas ninguém nunca saberá.

       Saí da sala assim que os exames começaram. Passei pelo corredor branco e frio do hospital, até que finalmente parei.

Apoiei as mãos na parede e fechei os olhos por um instante.

Meu peito doía.

Nathan deveria estar ali. Deveria ter crescido ao meu lado. Deveria ter sido feliz.

Mas tudo o que me restava era esse buraco no peito.

Vinte anos de vazio.

Engoli em seco, respirei fundo e voltei para os corredores.

O próximo paciente me esperava.

E eu precisava continuar.

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Comments

Selma

Selma

Ele sente dor de perder a esposa e, o filho e, o pior é não saber o que aconteceu com o seu filho. E, se sentir incapaz por no conseguir encontrar ele.

2025-03-05

5

Selma

Selma

Muito triste para ele, salvar vidas e, no conseguir salvar a vida da sua esposa.

2025-03-05

2

Selma

Selma

Triste a vida dele, sente um vazio enorme e, se sente culpado por não ter o filho próximo dele.

2025-03-05

1

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