No dia seguinte
O vento cortante fazia minha pele arrepiar enquanto eu destravava a porta do apartamento. A cidade estava silenciosa, envolta pelo frio da tarde, e tudo o que eu queria era entrar e me aquecer. Mas, no instante em que minha mão tocou a maçaneta, uma voz grave rompeu o silêncio.
— Senhorita.
Meus músculos se retesaram. Virei-me lentamente, o coração acelerado, pronta para encarar seja lá quem fosse.
Diante de mim, um homem alto e bem vestido me observava, ele parecia ter uns quarenta e dois anos e seus olhos eram familiares. Seu terno escuro parecia caro, e havia algo em sua postura, firme, imponente, que me fez saber de imediato que ele não era alguém comum.
— Sim? — respondi, mantendo a voz firme, mas meu olhar instintivamente varreu os arredores. Aquele homem não parecia perigoso, mas a cautela era instintiva.
Ele hesitou um instante, como se buscasse as palavras certas, mas, quando falou, sua voz carregava um peso que me atingiu como um soco no estômago.
— Você é a noiva do Nathan? Quer dizer… do Tim?
A menção ao nome de Tim fez um arrepio percorrer minha espinha. Meu peito apertou, e senti minha garganta secar.
— Quem é você? — perguntei, minha confusão evidente.
O homem pareceu respirar fundo antes de finalmente soltar a verdade que mudou tudo.
— Me chamo Jacob Frei, eu sou o pai dele.
O ar escapou dos meus pulmões.
Minha mente tentou processar suas palavras, mas era como se o mundo ao meu redor tivesse ficado em silêncio absoluto. Meus lábios se entreabriram, mas nenhuma palavra saiu.
— Como? — minha voz saiu quase num sussurro.
— Podemos conversar um minuto? — ele perguntou, sua expressão tomada por algo que beirava o desespero contido.
Eu não confiava nele. Nunca o tinha visto antes, e seu olhar intenso me deixava inquieta. Mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim dizia que ele não era uma ameaça.
Minha mão apertou a chave em meu bolso, como se pudesse encontrar segurança ali. Então, relanceei os olhos para o lado e vi uma pequena confeitaria aberta, a poucos metros.
— Ali. — apontei para o local. Se ele queria conversar, que fosse em um ambiente público.
Ele assentiu, como se entendesse minha precaução, e caminhamos até lá.
Na confeitaria
Nos sentamos à mesa perto da janela, onde a neve caía lá fora, cobrindo a cidade de branco. Meu coração ainda martelava contra o peito.
Ele chamou uma garçonete, mas eu mal conseguia prestar atenção. Minha mente estava presa na revelação chocante de que Tim tinha um pai. Um pai que eu nunca soube que existia.
— Você quer pedir algo? — ele perguntou, sua voz baixa, quase hesitante.
Minha primeira reação foi negar. Eu estava tão nervosa que comer parecia impossível. Mas, naquele instante, minha barriga roncou alto, me traindo.
Ele percebeu e, com um olhar firme, disse:
— Peça o que quiser.
Hesitei por um momento, sentindo um leve constrangimento, mas acabei pedindo um sanduíche e um chá quente. Ele, por sua vez, apenas pediu um cappuccino.
O silêncio se instalou entre nós por alguns instantes, até que ele quebrou a barreira.
— Nathan Frei, era seu nome de batismo. Passei vinte anos procurando por ele. — sua voz soou carregada de dor, enquanto deslizava uma pequena foto na mesa, ela estava envelhecida pelo tempo, mas dava para ver nitidamente, era Tim. — Ele foi tirado de mim quando tinha apenas três anos. — Finalizou.
Eu engoli em seco, sentindo um calafrio subir por minha espinha.
— Tim… foi sequestrado?
Ele assentiu lentamente.
— Ainda estou em busca dos responsáveis. Durante anos, tudo o que me importava era encontrá-lo. Mas… — sua voz falhou. — Descobri tarde demais.
Meu peito se apertou com força.
Eu sabia o que era perder Tim. Eu sabia como aquela dor dilacerava cada parte do nosso ser. E agora, vendo a expressão devastada daquele homem, soube que ele sentia a mesma coisa.
— Como ele era? — ele perguntou, a voz carregada de expectativa.
Minhas mãos se apertaram ao redor da xícara quente. Um pequeno sorriso nostálgico se formou em meus lábios, mesmo quando a dor ainda ardia em meu peito.
— Tim era a melhor pessoa que já conheci. — minha voz saiu embargada. — Ele era honesto, trabalhador… meu melhor amigo. Um homem bom, mesmo quando o mundo nunca lhe deu muito em troca.
Os olhos dele brilharam com algo que parecia… orgulho.
— Ele sonhava em ser médico. — completei.
A reação foi imediata. O homem me encarou com surpresa, como se aquelas palavras tivessem um impacto ainda maior do que eu poderia imaginar.
— Médico? — repetiu, sua expressão transbordando emoção.
Assenti.
— Mas nunca teve condições para isso. Ele sempre quis ajudar as pessoas… sempre quis fazer a diferença.
O homem abaixou a cabeça por um momento, um sorriso melancólico brincando em seus lábios.
— Eu sempre imaginei que, se um dia o encontrasse, ele teria seguido a mesma profissão que eu… — sua voz falhou levemente. — E agora descubro que ele queria isso também.
A garçonete trouxe nossos pedidos, e eu comi rápido, minha fome agravada pela gravidez. Ele, por sua vez, segurava a xícara de cappuccino, perdido em pensamentos.
— Você está de quantos meses... Mia, certo? — ele perguntou de repente.
— Sim, Mia. Estou de quatro meses. — respondi, passando a mão inconscientemente sobre minha barriga. — Infelizmente… Tim nunca soube que seria pai.
Um silêncio pesado se instalou.
Conversamos por um longo tempo, compartilhando lembranças, dores… tentando preencher os vazios que a ausência de Tim deixou.
Até que ele perguntou:
— Você pode me levar até ele?
Meu corpo travou.
Não era fácil para mim ir até o túmulo de Tim. Mas algo naquele homem me fez sentir que ele precisava disso tanto quanto eu.
Eu assenti.
...----------------...
Minutos depois, no cemitério
A neve cobria o chão em um tapete branco e silencioso quando chegamos.
Meus passos eram lentos, o peso da dor sempre me atingia quando vinha aqui.
Quando paramos diante da lápide de Tim, o homem ficou imóvel. Apenas olhou para o nome gravado ali.
Então, como se todo o controle tivesse se esvaído, ele caiu de joelhos.
— Me perdoe… — sua voz era um sussurro destruído. — Eu falhei com você, meu filho. Eu não consegui proteger você.
A dor que transbordava dele era quase tangível.
Minhas lágrimas rolaram silenciosas. Passei a mão em meu ventre, sentindo um nó apertar minha garganta.
Ele passou os dedos trêmulos sobre a foto de Tim gravada na lápide.
— Você… é tão parecido com sua mãe… — sua voz carregava uma saudade que eu não entendia. — Eu falhei com vocês dois.
O vento frio cortava minha pele, mas a dor que nos envolvia era mais intensa do que qualquer tempestade de neve.
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Atualizado até capítulo 37
Comments
Vanessa Corrêa🦋🦋
Eu quase chorei com esse capítulo 🥹 🥹 🥹
Que dor a deles😢😭
2025-03-05
3
Selma
Que triste, ficando imaginando a dor que ele está sentindo. É imensurável a dor de perder quem amamos.
2025-03-05
1
Adelia Cabral
Muito triste essa sensação de que poderia ter feito, mas tem coisas que acontece porque tem que ser assim
2025-04-01
0