Horas depois
O relógio na parede marcava pouco mais de sete da noite quando me dei conta de que ainda estava ali, sentado em meu consultório, segurando aquela pequena imagem entre os dedos.
Minha neta.
Era apenas uma foto de ultrassom, um borrão em preto e branco que muitos talvez nem soubessem interpretar, mas para mim… Era uma joia preciosa. O último laço que me restava com Nathan.
Soltei um suspiro profundo e olhei para o porta-retrato em minha mesa. A foto do meu filho, com aquele sorriso inocente.
Com cuidado, abri a moldura e encaixei a ultrassonografia ali, ao lado dele.
— Agora vocês estão juntos — murmurei, sentindo uma pontada no peito.
A Mia…
Ela era uma jovem extraordinária. Forte, mesmo sem perceber. Especial.
Mas eu sabia o que vinha pela frente. O mundo não era gentil.
E, por Deus, eu não permitiria que nada acontecesse a ela.
Bati o punho na mesa, tentando dissipar aquela sensação que me consumia. Precisava me concentrar.
A porta se abriu sem cerimônia, e ergui os olhos.
— Jacob.
Era Pierre, um dos cirurgiões do hospital. Ele entrou, ajeitando a gravata enquanto puxava a cadeira para se sentar.
— Pierre — murmurei.
— Passei para ver como você está. Soube que esteve na ala obstétrica hoje.
Lancei-lhe um olhar de advertência.
— Notícias correm rápido demais por aqui.
Ele riu.
— Um dos maiores cirurgiões cardiovasculares desse hospital se interessando por ultrassonografias? É claro que as pessoas comentam.
Não respondi. Apenas inclinei-me para frente, entrelaçando os dedos.
Pierre percebeu minha falta de paciência e mudou de assunto.
— Soube que você vai fazer o transplante do jovem Miller.
Assenti.
— O coração está a caminho. A cirurgia acontece ainda hoje.
Ele soltou um suspiro.
— Tão jovem. Espero que tudo corra bem.
— Vai correr — respondi, minha voz firme.
Pierre assentiu, levantando-se.
— Vou deixar você se preparar. Boa sorte na cirurgia, Jacob.
Ele saiu, e por um momento, o silêncio do consultório voltou a me envolver.
Fechei os olhos por um segundo.
Miller.
16 anos.
Se eu falhasse, ele não teria uma segunda chance.
Levantei-me, puxando o jaleco e ajeitando a postura.
Agora não havia espaço para distrações.
Eu não era apenas Jacob Frei.
Eu era o cirurgião que salvaria aquela vida.
E falhar não era uma opção.
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No centro cirúrgico
O ambiente era frio e iluminado.
Minha equipe já estava a postos, todos preparados para o que viria a seguir.
Minha assistente, Mariana, aproximou-se.
— Doutor Frei, acabamos de receber a confirmação. O coração chegou e está sendo preparado para o implante.
Assenti.
— Monitoramento total. Não quero nenhuma oscilação antes de começarmos.
Ela se afastou para seguir minhas ordens, e eu aproximei-me da mãe de Miller, que aguardava do lado de fora da UTI, seu rosto pálido e marcado pelo cansaço.
— Doutor… — Sua voz tremeu. — Meu filho vai aguentar?
Olhei dentro de seus olhos, e minha resposta veio sem hesitação.
— Vamos dar a ele a melhor chance possível.
Ela assentiu, lágrimas caindo, mas não disse mais nada. Apenas segurou minha mão com força.
Quando entrei na sala de cirurgia, o ar ao redor mudou.
A tensão era palpável.
O jovem já estava anestesiado, sua pele pálida sob a luz intensa das lâmpadas cirúrgicas.
Abaixei-me, observando sua respiração calma.
— Você vai sair dessa, garoto — murmurei.
Levantei os olhos e encarei minha equipe.
— Vamos começar.
O bisturi cortou a pele com precisão.
Cada movimento era meticuloso, cada corte, cada sutura, uma dança precisa entre a vida e a morte.
— Abrindo cavidade torácica — anunciei, sentindo o suor começar a se formar sob minha touca cirúrgica.
As mãos de meus assistentes trabalhavam rapidamente, seguindo minhas ordens.
— Ventilação controlada. Pressão arterial estável — informou o anestesista.
Mariana aproximou-se com o órgão.
— Coração pronto para o implante, doutor.
Olhei para ele. Um coração novo. A esperança para aquele garoto.
— Vamos trabalhar.
O silêncio reinou enquanto fazíamos a anastomose, conectando cada vaso sanguíneo com precisão milimétrica.
O tempo parecia se dissolver.
E então, o momento crucial.
— Soltem as pinças.
Os segundos seguintes foram uma eternidade.
Então, o som mais esperado ecoou pela sala.
Tum. Tum. Tum.
O coração começou a bater.
O anestesista conferiu os sinais.
— Ritmo sinusal normal.
Um alívio invisível percorreu a equipe.
Exalei fundo, sem permitir que minhas emoções tomassem o controle.
— Fechem com cuidado.
Quando dei o último ponto na pele do garoto, soube que havíamos vencido aquela batalha.
Miller teria uma nova chance de viver.
E, naquele momento, lembrei-me da promessa silenciosa que fiz a Mia.
Eu protegeria minha neta.
Eu protegeria aquela jovem que, sem perceber, estava mudando algo dentro de mim.
Saí da sala cirúrgica, tirando as luvas, o jaleco e a touca.
A mãe de Miller levantou-se num salto ao me ver.
Ela não precisou perguntar nada.
Eu apenas assenti.
Ela desabou em lágrimas, soluçando de alívio.
Eu apenas toquei seu ombro, sentindo, pela primeira vez em muito tempo, que algo dentro de mim também começava a mudar.
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Atualizado até capítulo 37
Comments
Claudia Teixeira
pq sequestraram o Nathan? quem foi que fez isso? não nos foi explicado autora
2025-03-08
3
Selma
Ele é um profissional extraordinário, não deixou dúvidas que faria todo o possível para salvar a vida desse jovem.
2025-03-09
1
Claudia
Que bom que a cirurgia foi bem sucedida 👏👏👏👏♾🧿
2025-03-08
3