CAPÍTULO 06

         O papel pequeno e amassado ainda estava entre meus dedos trêmulos. Jacob Frei. Esse nome agora estava gravado em minha mente como uma tempestade prestes a varrer tudo o que eu conhecia. Meu Tim… meu Nathan… ele tinha uma família. Uma que ele nunca soube que existia.

         Meu peito pesava com a verdade esmagadora. Tim tinha sido sequestrado quando criança, cresceu nas ruas, sofreu nas mãos de uma mulher cruel que o abandonou sem explicações quando ele tinha apenas doze anos. Ele sempre me dizia que não sabia nada sobre sua origem, que a única coisa que tinha era o nome que essa mulher lhe deu: Tim.

Mas agora eu sabia.

Ele era filho de Jacob Frei.

E esse homem queria que eu e meu bebê fôssemos morar com ele.

        Fechei os olhos e respirei fundo, sentindo um nó apertado na garganta. Eu queria confiar. Eu queria acreditar que aquilo não era um sonho ilusório prestes a se transformar em um pesadelo. Mas depois de tudo que eu e Tim passamos, confiar era um luxo que eu não podia me permitir tão facilmente.

         Ainda assim, eu me sentia segura perto dele. Havia algo na maneira como Jacob me olhava, no peso em sua voz, que me fazia sentir que ele realmente se importava. Que ele queria corrigir um erro do passado.

Mas querer não era suficiente.

          Naquela noite, mal dormi. Virei de um lado para o outro, tentando ignorar o frio cortante do pequeno apartamento. Eu tinha contas para pagar. Amanhã venceria o prazo do aluguel. Se eu não conseguisse o dinheiro, eu estaria na rua.

           A manhã chegou cinzenta e implacável. Vesti meu casaco mais grosso, puxei as luvas surradas e coloquei na sacola os doces que passei a noite preparando. Era tudo o que eu tinha. Minha única chance de conseguir o dinheiro.

             A cidade estava gelada e cruel como sempre. Eu andava pelas ruas cobertas de neve, tentando vender os doces para os poucos passantes que se aventuravam no frio. Minhas mãos estavam dormentes, e meus pés afundavam na neve enquanto eu chamava as pessoas, oferecendo meu trabalho com um sorriso forçado.

Depois de horas, apenas uma senhora parou diante de mim.

— Minha querida, você deve estar congelando… — Ela disse, puxando a carteira de dentro do casaco.

— Estou bem, senhora. — Respondi, forçando um sorriso. — Aceita um doce? Eu mesma fiz.

Ela olhou para minha cesta por um momento antes de pegar alguns.

— Eu levarei quatro. Quanto custa?

Meus olhos brilharam com um lampejo de esperança.

— São três francos cada.

Ela me entregou o dinheiro com um olhar gentil.

— Você tem mãos habilidosas, querida. Não deveria estar na rua nesse frio.

Agradeci com um sorriso triste.

— Eu faço o que preciso para sobreviver.

           Ela me lançou um último olhar antes de seguir seu caminho, deixando-me sozinha novamente na imensidão gelada.

Aquela foi a única venda que fiz o dia todo.

        O desespero crescia em meu peito como uma maré violenta. Andei por mais algumas horas, minhas pernas doendo, minha respiração ficando cada vez mais curta no ar gélido. Mas ninguém mais parou para comprar.

         No dia seguinte, tentei de novo. As mesmas ruas. A mesma rotina. O mesmo fracasso.

         Quando o sol começou a se pôr, me sentei em um banco, sentindo o gelo penetrar através das camadas de roupa. Meus olhos ardiam. Meu peito doía.

Eu falhei.

          Uma lágrima escorreu pelo meu rosto e congelou quase instantaneamente com o frio cortante.

Eu não conseguia mais lutar sozinha.

           Peguei a foto de Tim no bolso interno do casaco e passei o dedo sobre seu rosto, sentindo um nó na garganta.

— O que eu faço, meu amor? — Sussurrei, minha voz tremendo.

Ele não estava ali para responder.

Eu tinha apenas uma opção.

Meus dedos trêmulos discaram o número no papel.

O telefone tocou uma… duas… três vezes.

— Sim? — A voz grave do senhor Frei preencheu o silêncio ao meu redor.

Fechei os olhos e inspirei fundo.

— S-Senhor Frei? — Minha voz saiu hesitante, quase um sussurro.

Houve uma breve pausa antes de ele responder, seu tom mudando para algo mais firme, mais atento.

— Mia? É você?

Engoli em seco, sentindo meu corpo inteiro tremer, e não era apenas por causa do frio.

— Sim… sou eu. — Minha voz saiu embargada.

        Do outro lado da linha, percebi que ele prendeu a respiração por um segundo antes de perguntar:

— Você está bem? Aconteceu alguma coisa?

Fechei os olhos e apertei a foto de Tim contra meu peito.

— Eu… — Minha voz falhou. Meu orgulho tentava me impedir de dizer as palavras, mas eu precisava engolir isso. Eu precisava pensar no meu filho. — Eu aceito sua proposta.

Houve um momento de silêncio absoluto. Então, sua voz voltou, mais firme, mais decidida.

— Onde você está agora?

— Eu… Eu posso pegar um ônibus até aí…

— Não. — Sua resposta foi imediata, quase cortante. — Não quero que você passe por isso sozinha. Espere aí. Eu vou buscá-la.

A forma como ele disse aquelas palavras, com tanta certeza, com tanta proteção, fez algo dentro de mim estremecer.

— Eu não quero incomodar… — Tentei argumentar, ainda sentindo aquele velho instinto de não depender de ninguém.

— Mia. — Sua voz ficou mais suave, mas ainda assim carregada de firmeza. — Isso não é um incômodo. Você e o bebê são minha família agora. Eu estou indo.

Minha garganta fechou e, por um momento, não consegui responder.

— Tudo bem. — Sussurrei, permitindo-me, pela primeira vez, confiar.

Após desligar, olhei novamente para a foto de Tim.

— Espero que eu esteja fazendo a coisa certa, meu amor…

Levantei-me e fui para casa. Chegando lá, comecei a juntar minhas coisas.

          Minhas roupas eram poucas, então não demorou muito para arrumá-las em uma mala pequena. Peguei as fotos de Tim, cada uma delas um fragmento da nossa história, e as guardei com cuidado.

Por último, coloquei a mão sobre minha barriga, ainda plana.

— Eu prometo a você, meu amor… — Murmurei. — Eu vou te dar uma vida melhor.

E, pela primeira vez em muito tempo, senti que não estava mais sozinha.

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Comments

Onilda Furlan

Onilda Furlan

da pra sentir a angústia do personagem .
autora você nos coloca dentro do livro e para choramos juntos.

2025-04-01

0

Quase cinquentona🥴🥺😔😩

Quase cinquentona🥴🥺😔😩

Como um ser humano pode ser tão cruel , ao ponto de sequestrar uma criança, e abandona-la na rua ? 🤔😡🤬😤🤮

2025-03-07

0

Selma

Selma

Mia vai ter que aprender a confiar e, engolir o seu orgulho pelo bem de seu filho.

2025-03-06

0

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