CAPÍTULO 02

       A sala do meu pequeno apartamento parecia menor a cada dia. As paredes estreitavam-se ao meu redor, sufocantes, refletindo o peso do desespero que carregava no peito. A cidade de Genebra estava fria, mas o inverno que me consumia vinha de dentro.

          Segurava um porta-retratos nas mãos trêmulas, o vidro um pouco rachado, mas ainda emoldurando o sorriso de Tim, um sorriso que eu nunca mais veria pessoalmente. Minha outra mão pousava instintivamente sobre meu ventre, que ainda não denunciava a nova vida que crescia dentro de mim.

— Se ao menos você soubesse… — murmurei, o nó na garganta apertando mais e mais.

O mundo parecia ter perdido as cores desde que ele partiu.

        Tim e eu sonhávamos com um futuro. Uma casa modesta, filhos correndo pelo quintal, um cachorro talvez. A ideia de pertencermos a algo, de termos um lar de verdade, sempre foi nosso maior sonho, pois nunca tivemos isso.

       Nos conhecemos ainda adolescentes, sobrevivendo nas ruas, invisíveis para o resto do mundo. Ele foi abandonado por uma mulher aos 12 anos, e eu… bem, nem mesmo sei de onde vim. Fomos nossa única família, crescendo juntos, cuidando um do outro quando ninguém mais se importava.

          Quando finalmente começamos a construir algo, quando a vida começou a parecer menos cruel… o destino arrancou Tim de mim.

Um maldito câncer.

          Vi o homem que eu amava definhar dia após dia, seus olhos perdendo o brilho, seu corpo antes forte se tornando frágil. Ele partiu três meses atrás, levando consigo tudo o que eu conhecia como felicidade.

E agora, aqui estou eu.

Grávida. Sozinha. Sem um centavo.

O baque firme na porta me trouxe de volta à dura realidade.

Respirei fundo, secando rapidamente as lágrimas, e fui abrir.

          A dona do apartamento, uma mulher corpulenta e de feições severas, me encarava impaciente. Seus braços cruzados e os lábios pressionados me diziam tudo antes mesmo que ela abrisse a boca.

— Senhorita Müller, estou esperando o pagamento do aluguel. — Sua voz era firme, impaciente. — Já se passaram 30 dias do vencimento e não recebi um centavo.

Engoli em seco, o estômago revirando em angústia.

— Eu… por favor, me dê mais alguns dias. — Minha voz saiu trêmula, quase suplicante. — Eu estou tentando conseguir o dinheiro, mas as coisas têm sido difíceis desde que…

Parei. Não adiantava explicar.

Ninguém se importa com as dores de uma mulher quebrada.

A proprietária arqueou uma sobrancelha, impaciente.

— Dias? Mia, eu não posso bancar a caridade. Se não tiver o dinheiro em quatro dias, vai ter que sair.

— Mas… eu não tenho para onde ir. — Minha voz falhou, o desespero transbordando.

Ela suspirou, mas sua expressão permaneceu dura.

— Então, sugiro que encontre um jeito de conseguir. Porque no quinto dia, eu trarei alguém para trocar a fechadura.

E então, girou nos calcanhares e se afastou pelo corredor sem olhar para trás.

         Fechei a porta com as mãos tremendo. Meus joelhos fraquejaram, e antes que percebesse, estava deslizando até o chão frio.

Agarrei o porta-retratos de Tim, apertando-o contra o peito.

— O que eu faço, Tim? O que eu faço?

As lágrimas desciam livres agora, quentes contra minha pele gélida. O medo me consumia de dentro para fora. Eu não podia perder o pouco que me restava.

Não podia perder nosso bebê também.

        Naquela tarde, depois de enxugar as lágrimas e me forçar a respirar, fiz a única coisa que ainda me restava: peguei os ingredientes que tinha e comecei a assar.

Bolos. Doces. Pequenas esperanças embaladas em papel fino.

         Fiz o que pude com o pouco que me restava na despensa, preparando tudo com mãos trêmulas e o coração pesado. Depois, vesti o casaco surrado e saí às ruas geladas de Genebra.

O vento cortante fazia meus dedos doerem, mas eu ignorei.

Eu precisava tentar.

A cada esquina, minha voz se levantava em súplica:

— Bolos caseiros! Doces fresquinhos! Por favor, senhor, senhora, apenas alguns francos!

Mas ninguém parecia me ver.

          As pessoas passavam apressadas, preocupadas com suas próprias vidas. Algumas lançavam olhares de pena, outras de desconfiança. Algumas apenas fingiam que eu não estava ali.

O dia foi se arrastando, e as poucas vendas que consegui mal somavam moedas suficientes para comprar um pouco de pão.

Quando o sol começou a se pôr, eu já não sentia os dedos dos pés.

         Sentei-me em um banco da praça, exausta, observando as pessoas indo e vindo sem perceberem a batalha silenciosa que eu travava.

Agarrei minha barriga, que ainda não mostrava sinais da vida que crescia ali, mas que já pesava como um lembrete constante de que eu não podia desistir.

— Eu preciso ser forte. — murmurei para mim mesma. — Por você.

O vento soprou contra meu rosto, e fechei os olhos por um momento, tentando ignorar o medo.

Eu não sabia como, mas precisava encontrar uma solução.

E rápido.

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Comments

fanfiqueira -formada

fanfiqueira -formada

a mãe dele tinha câncer então podia se algo passado de mãe pra filho se alguém da família é diagnosticado com câncer a chance de outra pessoa também ser

2025-03-20

0

Selma

Selma

Coitada sempre teve uma vida difícil e, agora sem-noção seu amor e, com um filho para criar.

2025-03-05

1

Selma

Selma

Coitada como vai voltar para rua grávida, difícil não ter ninguém.

2025-03-05

1

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