No dia seguinte
O cheiro forte de antisséptico impregnava o ar da sala de cirurgia. As luzes brancas acima da mesa refletiam o suor em minha testa, mas eu nem sentia o cansaço. Minhas mãos se moviam com precisão cirúrgica, minha mente totalmente focada no que fazia. A vida daquele paciente dependia de mim, e falhar não era uma opção.
— Sucção. — Ordenei, sem desviar os olhos do campo cirúrgico.
A equipe respondeu de imediato, cada um sabendo exatamente o que fazer.
Mais alguns minutos e a cirurgia estava finalizada.
— Pode suturar. — Disse a um dos médicos residentes.
Ele assentiu e começou o procedimento final, enquanto eu dei um passo para trás, respirando fundo. Mais uma batalha vencida.
Deixei a sala, removendo as luvas ensanguentadas e descartando os aventais cirúrgicos. O cansaço pesava nos ombros, mas eu não podia parar ainda. Após me limpar, segui direto para minha sala, ansiando por alguns minutos de descanso antes da próxima responsabilidade.
Ao me sentar, passei os olhos pelos relatórios no computador, analisando dados, mas minha mente estava longe. Como sempre, a ausência dele me perseguia.
Meu filho.
Passei os últimos vinte anos tentando encontrá-lo, e todas as pistas sempre levavam a becos sem saída. Mas ainda havia esperança. Sempre havia.
Foi então que a secretária anunciou sua chegada.
— Doutor Frei, Nicolau está aqui.
Meu peito se apertou.
Nicolau era o detetive que eu contratara para encontrar meu filho.
E pela expressão em seu rosto quando entrou, meu coração acelerou. Ele tinha algo para me dizer. Algo importante.
— Diga-me, Nicolau. — Minha voz soou firme, mas meu coração batia violentamente. — Você encontrou alguma coisa?
O homem hesitou por um momento, seus olhos refletindo algo sombrio.
— Doutor… eu encontrei seu filho.
Meu corpo inteiro congelou.
O ar foi arrancado dos meus pulmões, e por um instante, não consegui pensar.
Vinte anos. Vinte anos de busca, de esperança, de dor.
E agora, finalmente…
— Você tem certeza? Onde ele está? Como ele está? Eu preciso vê-lo! — Minha voz saiu urgente, quase desesperada.
Nicolau desviou o olhar, hesitando. Um calafrio percorreu minha espinha.
— Senhor Frei… há algo que o senhor precisa saber antes.
Aquela pausa. Aquela maldita pausa.
Engoli em seco, sentindo meu peito apertar de um jeito que nunca havia sentido antes.
— Fale logo, Nicolau.
O detetive respirou fundo antes de soltar a sentença que destruiu tudo dentro de mim.
— Seu filho… ele está morto.
O mundo parou.
O sangue esvaiu do meu rosto.
Uma pressão esmagadora tomou meu peito, me sufocando, me rasgando por dentro.
— N-não… não pode ser. — Minha voz saiu rouca, frágil, como se estivesse quebrando.
— Ele faleceu há três meses, doutor. — Nicolau disse, e as palavras foram como facas atravessando meu peito.
A cadeira atrás de mim balançou quando me recostei, o impacto da notícia me atingindo como um golpe brutal.
Três meses.
Ele esteve tão perto.
Eu o procurei por duas décadas. E quando finalmente o encontrei… ele já não estava mais neste mundo.
Um grito de dor subiu pela minha garganta.
Meu punho se fechou involuntariamente, e num impulso furioso e desesperado, derrubei tudo o que estava sobre minha mesa.
Relatórios, pastas, papéis, tudo voou pelos ares e se espalhou pelo chão.
Meu filho.
Meu garoto.
O garotinho que me foi arrancado, que eu passei anos sonhando em reencontrar, já não existia mais.
A dor era insuportável.
O silêncio na sala era pesado, até que Nicolau voltou a falar, com cautela.
— Conseguimos identificá-lo através de uma fonte anônima. Um informante que, depois de anos, decidiu contar o que sabia. Ele nos forneceu o nome e a localização. Investigamos e… descobrimos que seu filho se chamava Tim.
Tim.
Repeti aquele nome em minha mente, tentando absorvê-lo.
— Ele morreu em Genebra. Lutava contra um câncer.
Eu passei vinte anos buscando por ele. E ele esteve o tempo todo tão perto… mas sozinho.
— Tem alguma informação dos sequestradores? — Questionei.
— Nada concreto, Doutor.
Senti uma fúria tomar conta de mim.
Queria gritar. Queria destruir algo.
Mas então, Nicolau pigarreou, chamando minha atenção de novo.
— Senhor… há mais uma coisa.
Levantei meus olhos para ele, e ele hesitou antes de continuar.
— Seu filho… ele não estava sozinho.
Franzi o cenho, sentindo meu coração acelerar.
— O que quer dizer?
— Ele tinha uma noiva.
Meu peito se apertou novamente.
— Uma jovem humilde, senhor. E… — Ele fez uma pausa, observando minha reação antes de completar. — Ela está grávida.
Minha mente travou.
Grávida?
Meu neto.
Um lampejo de esperança rompeu a escuridão avassaladora dentro de mim.
Algo dentro do meu peito, que antes estava apenas destroçado, de repente começou a bater mais forte.
— Tem certeza disso? — Perguntei, minha voz carregada de emoção.
Nicolau assentiu e colocou um papel sobre minha mesa.
— Aqui está o endereço dela. Caso o senhor queira vê-la, ela é a única que pode falar mais sobre seu filho.
Meu olhar caiu sobre aquele pedaço de papel.
Ali, naquele pequeno pedaço de papel, estava a única ligação que me restava com meu filho.
Estendi a mão, pegando-o com dedos trêmulos.
— Pode ir, Nicolau. — Minha voz saiu mais baixa agora, carregada de cansaço e um turbilhão de emoções.
Ele assentiu respeitosamente antes de sair, me deixando sozinho com a devastação e…
Com uma nova esperança.
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Atualizado até capítulo 37
Comments
Maria jose Nunes dos santos
autora minha linda , sem querer ser chata , mais já sendo atualiza pelo menos dois capítulos por dia rsrs , estou ficando empolgada com a história
2025-03-05
3
Ana Marta Benedicto
Ely, parabéns um início muito emocionante e espero que ele possa ficar com a mãe do neto dele.
2025-03-05
2
Lyllie J.
Nossa me emocionei realmente aqui, não quero nunca passar pela dor de perder um filho, já perdi meus pais, a dor é insuportável.
2025-03-18
0