Naquela noite, eu caminhava devagar, equilibrando com cuidado uma bandeja repleta de frutas frescas, um pote de iogurte e uma tigela de sopa fumegante. O cheiro suave do caldo se espalhava pelo ar, misturando-se ao perfume amadeirado da mansão.
Ao chegar à porta do quarto da senhora Elina, bati suavemente.
— Senhora Elina, eu trouxer o seu jantar — minha voz saiu gentil, mas firme, anunciando minha presença antes de entrar.
A idosa estava deitada, seus olhos opacos mirando o teto, como se buscassem respostas entre as sombras do passado. Sua respiração era frágil, assim como seu corpo, que parecia cada dia mais magro sob os lençóis de cetim.
— Não quero comer… — murmurou ela, a voz embargada, carregada de cansaço e esquecimento. Seus dedos enrugados se moviam levemente sobre o tecido da cama, como se estivessem tentando encontrar algo que já não estava ali.
Coloquei a bandeja sobre a mesinha ao lado da cama e me aproximei, meu coração apertando ao vê-la tão frágil.
— Deixe-me ajudá-la — falei com doçura, tocando sua mão com delicadeza. — Um pouco de comida vai lhe fazer bem.
Ela piscou algumas vezes, franzindo a testa, como se minha presença ali fosse um enigma. Seus olhos vagaram pelo meu rosto, buscando algo familiar.
— Quem… quem é você? — perguntou, sua voz carregada de confusão.
Engoli em seco. O Alzheimer a levava e trazia para dentro de um labirinto sem saída, onde o presente e o passado se misturavam.
Ajoelhei-me ao seu lado, segurando sua mão com carinho.
— Sou Mia — respondi suavemente. — Estou cuidando da senhora agora.
Ela hesitou, seus olhos analisando meu rosto com atenção.
— Mia… — repetiu o nome como se tentasse segurá-lo na memória.
Assenti e, com calma, a ajudei a sentar na cama. Seus movimentos eram lentos, as articulações rígidas pela idade. Cuidadosamente, posicionei sua cadeira de rodas ao lado da cama e a ajudei a se acomodar.
— Esta sopa foi feita por mim — disse com um sorriso, pegando a tigela e misturando o caldo com a colher. — Está fresquinha, cheia de sabor.
Levei a primeira colherada até seus lábios, soprando para não queimar. Ela hesitou, mas aceitou a comida, fechando os olhos por um instante ao sentir o gosto.
— Eu conheço você… — murmurou de repente.
Meus olhos se arregalaram.
— Sabe? — perguntei, sorrindo surpresa.
Ela assentiu, seus lábios curvando-se levemente.
— Você é minha nora…
O ar pareceu fugir dos meus pulmões. Meus dedos tremeram ao segurar a colher. Meu rosto corou de vergonha.
— Está tão linda… — acrescentou com um olhar perdido, como se estivesse enxergando outra pessoa através de mim.
Engoli em seco e me forcei a sorrir.
— Não, senhora… — disse gentilmente. — Sou noiva do seu neto. Do Nathan.
O brilho em seus olhos se apagou por um momento.
— Do Nathan? — ela franziu o cenho. — Mas… Meu menino Nathan é só uma criança… Ele ainda brinca no jardim com seu carrinho de madeira…
Meu coração apertou.
Se ao menos fosse assim… Se ao menos ele ainda estivesse aqui.
Sorri, acariciando sua mão.
— A senhora tem razão… — murmurei suavemente. Algumas verdades não precisavam ser ditas. Não havia necessidade de fazê-la reviver a dor de perder o neto todas as vezes que esquecia.
Ofereci-lhe outra colherada.
— Agora, que tal mais um pouco de sopa?
Ela assentiu levemente, abrindo a boca para aceitar mais uma colherada.
A cada pequeno gesto, a cada palavra trocada, eu sentia que começava a fazer parte daquele lugar.
Que, de alguma forma, também pertencia àquela casa.
Depois de colocá-la para dormir, caminhei pelos corredores vazios da mansão, envolvida pelo silêncio.
O senhor Jacob não voltou para casa naquela noite.
Imaginei-o no hospital, exausto após mais uma cirurgia complicada. Médicos como ele viviam à mercê do tempo, entre a vida e a morte, sem descanso.
Entrei no meu quarto, sentindo o peso da noite.
Deitei-me e, em poucos minutos, o sono me venceu.
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Na manhã seguinte
Acordei com uma onda de náusea avassaladora.
Corri para o banheiro e me curvei sobre a pia, sentindo meu estômago se revirar.
Vomitei o que não tinha, um tremor percorrendo meu corpo.
Respirei fundo, tentando me recompor.
Enquanto tomava um banho, deslizei a mão pelo meu ventre.
Minha barriga ainda estava plana e rígida, mas eu sabia… Lá dentro, uma nova vida crescia.
Após o banho
Vesti um vestido confortável, prendi os cabelos e desci para o café da manhã.
Ao entrar na sala de jantar, me deparei com o senhor Jacob à mesa, acompanhado da senhora Elina.
Ele ergueu os olhos e me olhou com atenção.
— Bom dia, Mia — disse ele, sua voz grave e firme. — Descansou bem?
Assenti, oferecendo um sorriso educado.
— Sim, obrigada. Espero que o senhor também tenha conseguido descansar.
Seus olhos analisaram-me por um instante, mas ele apenas assentiu, levando a xícara de café aos lábios.
Virei-me para a senhora Elina, que estava sentada com uma expressão distante, como se estivesse em outro tempo.
— Bom dia, senhora Elina — saudei, aproximando-me com gentileza.
Ela me olhou, seu olhar confuso vagando sobre mim.
Não me reconheceu.
Sentei-me ao seu lado e comecei a comer, ao mesmo tempo em que, discretamente, a ajudava com a comida.
O senhor Jacob nos observava em silêncio.
Não precisei olhar para saber que ele percebia cada mínimo detalhe.
Ele era um homem de poucas palavras, mas seu olhar dizia muita coisa.
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Atualizado até capítulo 37
Comments
Selma
Jacob é muito calado, acho que muito solitário e, acredito que Mia vai trazer paz e, amor ao seu coração.
2025-03-09
5
Rosana Silva Mariano
vivi isso com a minha mãe durante três anos, é muito difícil você ver a pessoa que você ama se definhando e se esquecendo de tudo
2025-04-01
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Rosana Silva Mariano
realmente é uma mistura entre o passado e o presente mas a pessoa vive mais no passado do que no presente triste
2025-04-01
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