A noite se arrastava num silêncio tenso para Giuliana. O único som que ela escutava, era o ruído irregular da respiração de Alessandro. A luz amarelada de uma lâmpada pendurada por um fio no meio da sala, lançava sombras irregulares sobre as paredes descascadas, destacando rachaduras que pareciam veias abertas no concreto. Giuliana estava sentada no chão ao lado do sofá, os braços envolvendo os joelhos enquanto observava o homem que tinha salvado. O vestido vermelho, agora manchado pelo sangue seco e amarrotado pelo esforço de arrastá-lo até ali, grudava em sua pele, um lembrete constante do caos em que estava se metendo. Seus cabelos, antes presos em um coque, caíam em mechas rebeldes sobre os ombros, emoldurando seu rosto cansado, mas alerta.
Alessandro permanecia desacordado, o corpo musculoso esparramado no sofá surrado, que rangia sob seu peso a cada movimento involuntário. O cobertor fino que ela jogara sobre ele escorregara até a cintura, revelando o curativo improvisado que cobria o ferimento de bala na lateral do abdômen.
Ela pegou um pano úmido e limpou o suor que escorria pelo rosto dele. Seus dedos hesitaram por um instante ao tocar a pele dele que estava quente. Havia algo quase magnético naquele estranho, uma presença que a inquietava além do risco que ele representava. Talvez fosse o contraste entre a vulnerabilidade de seu estado atual e a aura de poder que ainda emanava dele, mesmo desacordado. Ou talvez fosse apenas o cansaço e a adrenalina brincando com sua mente.
_No que eu estou pensando? Giuliana se perguntou pela milésima vez, esfregando as mãos no rosto como se pudesse apagar a decisão impulsiva de ajudá-lo.
Pouco tempo depois, Alessandro abriu os olhos devagar, a visão embaçada ajustando-se à luz fraca do ambiente desconhecido. O teto era manchado, irregular, e o cheiro no ar misturava mofo, outros cheiros e algo doce. Ele tentou se mexer, mas um gemido baixo escapou de seus lábios quando a dor o atravessou como uma faca.
_Fique quieto, ou vai abrir o curativo. Alertou Giuliana, cortando o silêncio.
Ele virou a cabeça com esforço, os olhos encontrando a fonte da voz. Sentada no chão ao lado dele, com as pernas dobradas e um pano manchado nas mãos, estava ela, a mulher que tinha encontrado em um dos beco por onde passou. O vestido vermelho destacava-se na penumbra, mesmo sujo e amarrotado, e os cabelos castanhos caíam em ondas desleixadas sobre os ombros. Seus olhos, porém, foram o que mais chamaram sua atenção: grandes e expressivos.
Havia uma beleza crua nela, não do tipo polido ou artificial que ele estava acostumado a ver nas mulheres que frequentavam seu círculo social, mas algo mais real, mais vivo. Mesmo exausta, ela exalava uma força silenciosa, uma rebeldia que ele reconheceu instintivamente.
Alessandro respirou fundo e se ergueu um pouco, levando uma mão ao ferimento. Seu olhar varreu o ambiente até voltar a ela.
_Quem é você?
A voz era rouca, carregada de desconfiança. Giuliana se levantou cruzando os braços.
_Acho que eu que deveria fazer essa pergunta. Respondeu, tentando parecer no controle, apesar do coração acelerado.
Alessandro forçou-se a sentar, mesmo com a dor que sentia. Seus olhos não desviaram dela nem por um segundo.
_Onde eu estou?
_ Na minha casa! Respondeu, seca. _Porque eu fui idiota o suficiente para salvar você.
Ele a observou enquanto ela se aproximava, entregando-lhe a garrafa de água. Seus dedos roçaram os dele por um instante, e ele sentiu um calor inesperado subir pelo braço, algo que não podia atribuir apenas à febre. Havia uma eletricidade naquele toque, uma faísca que o pegou desprevenido. Ele tomou um gole d’água, os olhos nunca deixando os dela, tentando decifrá-la.
Ele piscou algumas vezes, como se estivesse tentando conectar os acontecimentos. Então, algo mudou em sua expressão. A tensão no ar aumentou.
_Você me trouxe para cá?
_Óbvio!
_Sozinha?
_Sim. Você estava quase na minha porta, um tanto grogue.
Um silêncio carregado se instalou. Giuliana viu o olhar dele ficar intenso.
_Quem mandou você me ajudar? O que você quer em troca?
_Como é que é? Ela riu, incrédula. _Só vi um homem sangrando, e como não queria ter uma morte na consciência, resolvi ajudar.
Os olhos de Alessandro brilharam com algo que ela não soube decifrar. Então, ele passou a língua pelos lábios secos e sorriu, mesmo ferido.
_Então, você não faz ideia de quem eu sou?
_Não… Ela respondeu, encarando ele. _E, sinceramente? Nem quero saber!
O sorriso dele aumentou um pouco.
_Interessante. Disse olhando para ela, percebendo o quanto ela era bonita. Havia algo naquela mulher que o puxava, uma beleza crua e despretensiosa que ia além das curvas delineadas pelo tecido vermelho ou da sua postura. Era a atitude, a forma como ela respondia sem se curvar, como encarava o perigo sem pestanejar. Ele gostava disso, mais do que gostaria de admitir.
Giuliana sentiu um arrepio diferente diante do olhar dele, mas antes que pudesse dizer algo, um barulho súbito na porta quebrou o momento. Giuliana que correu na cozinha pegando uma faca e segurando com força, sentindo o coração bater descompassado.
_ Se esconda… Pediu Giuliana, e Alessandro observava tudo atentamente, os olhos afiados, mas ficou em silêncio, pressionando a ferida enquanto se mantinha na sombra. Ele passou a mão na cintura descobriu que havia perdido a sua arma, o que o deixava vulnerável se fosse um ataque contra ele.
A maçaneta girou e, sem aviso, a porta se abriu com força.
_Giuliana! A voz grave e áspera de Carlo preencheu o ambiente.
Ela sentiu um arrepio na espinha antes mesmo de virar para encarar o homem que entrou. Seu pai.
Giuliana suspirou, abaixando a faca lentamente.
_ Pai… O que o senhor está fazendo aqui?
Carlo fechou a porta com um empurrão brusco e caminhou até ela, os olhos escuros avaliando o ambiente com desprezo.
_Estou aqui para salvar sua vida. Pensei que depois desses dias que você saiu de casa ia pensar melhor, voltar... Olha onde você está morando! Esse lugar é insalubre.
_Salvar minha vida? Giuliana cruzou os braços tentando se controlar. _Desde quando o senhor se preocupa com a minha vida? Se se preocupasse, não teria me vendido para aquele homem.
Carlo bufou, dando mais um passo à frente, reduzindo a distância entre eles até que sua presença fosse quase sufocante, o cheiro de charuto impregnado em suas roupas invadindo as narinas dela.
_Eu avisei que isso ia acontecer, Giuliana. Você acha que pode continuar se escondendo? Que pode se livrar do seu dever?
Nos fundos da sala, Alessandro se manteve quieto. Cada palavra que ouvia lhe dava mais informações sobre ela..
Giuliana cerrou os dentes, mantendo-se firme.
_Eu não devo nada a ninguém. Você deve! Eu não vou servir como moeda de troca, não vou me casar com aquele homem.
Carlo agarrou a mão da filha com força, e Alessandro sentiu o corpo todo se tensionar, mas permaneceu imóvel, cerrando os punhos.
_Sua ingrata. A voz do pai dela saiu venenosa. _Acha que pode me desafiar? Eu sou o seu pai...
_O senhor me vendeu, pai. Pensar que isso é algo bom? Mas não é!
_Não, eu estou te dando um futuro! Um casamento com um homem influente! Mas você prefere agir como se fosse livre. Como se fosse melhor que eu.
_Não sou melhor que ninguém. Mas também não sou um pedaço de carne para ser vendida.
O pai dela respirou fundo, controlando a raiva.
_Você acha que tem escolha, Giuliana? Acha que ele vão aceitar um não?
Ela engoliu seco, mas não recuou.
_Eu não me importo. Disse tentando mascarar o medo que sentia.
_ Vamos para casa… Carlo começou a puxá-la.
_ Ela ja disse que não vai… A voz forte de Alessandro no escuro assustou Carlo.
Carlo girou nos calcanhares, os olhos arregalados de surpresa enquanto tentava localizar a origem da voz que lhe causou medo. Alessandro emergiu parcialmente da penumbra, mas Carlo não viu seu rosto.
_ Já arrumou um homem, é isso? Você não presta, é igual a sua mãe. Carlo se virou para sair. _Isso não terminou Giuliana, vou te entregar para o seu noivo e você vai sofrer as consequências por ter se entregado a outro homem. Carlo apenas a observou por longos segundos, com um olhar carregado de ameaça e saiu.
A porta se fechou com um estrondo, e Giuliana ficou imóvel.
Por alguns segundos, o único som que se ouviu na casa foi a respiração pesada de Giuliana. Ela largou a faca sobre a mesa, as mãos trêmulas enquanto passava os dedos pelos cabelos, tentando se recompor, se perguntando como o pai a encontrou naquele lugar.
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Atualizado até capítulo 65
Comments
joelma silva
eita glória e agora 🤦🏻♀️ oxe u pai n viu u rosto de Alexandro será 🤔
2025-03-01
3
Patricia M
concerteza foi a amiga que falou onde giuliana estava essa amiga deve ser uma cobra se fingindo de amiga kkkkk
2025-03-27
0
Kellyla Nunes
Autora linda do meu coração, não deixa aquele imundo do Luca tocar na Giuliana, manda ele para o quinto dos inferno.
2025-03-04
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