Cap. 2

O sol já estava se pondo quando Giuliana entrou no escritório do pai. O ambiente luxuoso da casa onde ela cresceu nunca pareceu tão sufocante quanto naquele momento. Carlo, estava sentado atrás da imponente mesa de mogno, um charuto entre os dedos e um olhar frio que fez um arrepio percorrer sua espinha.

_ Pai, que historia é essa que eu vou ter que me casar com aquele homem? Perguntou com a voz carregada de incredulidade, enquanto cruzava os braços para esconder o tremor nas mãos. Os rumores já haviam se espalhado e uma amiga havia ligado para ela querendo saber se era verdade que Giuliana se casaria.

Carlo não respondeu de imediato. Deu uma longa tragada no charuto, soltando a fumaça em anéis perfeitos que flutuaram no ar antes de se dissiparem.

_Não é história... você vai se casar com Lucca Vitale. Disse Carlo de forma foi direta, sem dar brecha para discussão.

A declaração foi como um soco no estômago. Giuliana que sentiu o coração bater forte no peito. O choque inicial rapidamente foi dando lugar a uma onda de raiva que subiu por sua garganta. Ela sabia bem quem era Lucca, além dele ser homem arrogante, manipulador, que ele tinha o histórico de assediar quem quer que cruzasse seu caminho, usando o poder da família Vitale como um escudo para seus caprichos.

_O quê?  Sua voz saiu mais alta do que esperava. _ O Senhor só pode estar brincando! Não vou me casar aquele homem, e ainda mais sabendo quem ele é, e com o que está envolvido. O senhor sabe que ele faz parte da mafia.

Carlo ergueu os olhos lentamente, como se estivesse pesando a ousadia da filha.

_Isso não é uma escolha que você pode fazer, Giuliana. Seu casamento vai acontecer, quer você queira ou não. Lucca fez um grande investimento comigo, não vou voltar atrás.

Giuliana deu um passo à frente, fechando as mãos com força.

_Eu não sou uma mercadoria que o senhor possa negociar!

O pai bateu o charuto no cinzeiro com calma, antes de levantar-se, e seu olhar tornou-se sombrio.

_Você é minha filha. E se quiser continuar viva, levando uma boa vida, vai ter que obedecer.

_Seus negócios sujos, suas dívidas, não são problema meu! Se está endividado, resolva isso sozinho, não me entregando para aquele monstro! Retrucou Giuliana mesmo com medo.

A expressão de Carlo endureceu, e ele se aproximou lentamente.

_Você acha que tem opção? Sua voz era baixa, mas letal. _Se não se casar com Lucca, o que voce acha que vai acontecer? Lucca vai vir atrás de você, dos seus irmãos e de mim. Ele vai tomar tudo que temos, inclusive nossas vidas.

_ Eu não quero essa vida... eu não quero me casar com ele.

_Eu duvido que você tenha um destino melhor do que ser esposa de um homem poderoso como o Lucca, o futuro Don dos Vitale. Ou você prefere virar um brinquedo nas mãos dele? Pois é isso que vai acontecer se você se recusar a se casar com ele, e eu não vou poder fazer nada para impedir que isso aconteça.

A realidade daquelas palavras a atingiu como um golpe, esmagando qualquer resquício de esperança que ela ainda pudesse ter. Carlo nunca foi pai afetuoso, e desde que a mãe desapareceu  misteriosamente há alguns anos, ele tinha se tornado ainda mais distante, mais cruel. Agora Giuliana via com clareza o que ele era capaz de sacrificar para proteger os próprios interesses.

_ Amanhã, Lucca vai te levar para jantar, então, deve se comportar bem, fazer tudo o que ele pedir.

Giuliana não disse nada, mas cederia tão fácil.

________________________________________________

No dia seguinte, acompanhada por dois seguranças que sempre vigiavam seus passos, Giuliana foi levada até um restaurante sofisticado, onde Lucca a esperava com um sorriso satisfeito nos lábios.Ele era um homem bonito, de feições marcantes e porte imponente, mas havia algo nele que a deixava inquieta. Um brilho cruel nos olhos, um jeito predatório em seus gestos.

_Giuliana, você é ainda mais bela do que eu me lembrava. Lucca estendeu a mão  para pegar a dela, mas Giuliana recuou instintivamente, afastando-se do alcance dele.

_Não me toque!

Lucca sorriu diante da atitude defensiva dela.

_Ah, acho que você ainda não entendeu, não é? Lucca se inclinou para a frente, os olhos percorrendo o corpo dela de cima a baixo com uma mistura de desejo e posse que fez a sentir nojo. _Giuliana, logo você será a  minha esposa, e eu vou tocar você quando quiser, fazer com você o que eu quiser.

_Isso nunca! Eu tendo nojo de você.  Respondeu com desprezo sentindo náusea só de imaginar ser tocada por Lucca.

O sorriso de Lucca sumiu, e ele se inclinou para perto dela.

_ É o que você pensa… você será minha, só minha.

O sangue de Giuliana gelou. Ela se levantou num impulso, mas sentiu a mão de Lucca segurar seu pulso com força.

_Se eu fosse você, não tentaria fugir. Eu sempre consigo o que quero. Avisou em tom de ameaça.

Giuliana puxou o seu braço, e foi embora sem olhar para trás, jamais casaria com Lucca. Naquele momento ela tomou sua decisão: precisava fugir, mas não sabia como se estava sempre sendo vigiada.

Ao chegar em casa, Giuliana desceu do carro com as pernas trêmulas, o peito subindo e descendo em respirações irregulares. Os olhos estavam marejados, mas ela não queria mais chorar. Sentia a garganta arder de raiva e desespero.

Seu pai havia decidido seu destino sem sequer consultá-la.

A simples ideia de casar com Lucca fazia seu estomago revirar.  Lucca a olhava como se já fosse sua posse, e as palavras dele, frias e dominadoras, ainda ecoavam em sua mente.

Ela entrou em casa às pressas, sem se importar com os olhares dos funcionários sobre ela. Mas antes que fosse para o  quarto, uma voz sussurrada a chamou no corredor.

_Senhorita Giuliana...

Ela parou. Maria, a cozinheira da família, uma mulher de cabelos grisalhos e olhos bondosos, acenava para ela com urgência. Giuliana hesitou por um momento antes de seguir até lá a cozinha.

_ O que aconteceu, bambina? Perguntou Maria, preocupada passando a mão no seu rosto tentando secar suas lágrimas.

_ Meu pai… ele quer me case com um homem horrível, eu não quero… Maria eu preciso sair daqui… eu preciso fugir… A voz dela falhou, e Maria viu o desespero estampado em seu rosto._ Eu estou com 24 anos, nunca pude fazer nada, estou sempre sendo vigiada, presa nesta casa... isso não é vida.

_ Você pode fugir Hoje. Sussurrou olhando para os lados.

Giuliana arregalou os olhos tentando entender como Maria poderia ajudá-la.

_O quê? Como?

_Eu vi o jeito que saiu da sala do seu pai mais cedo. Vi seus olhos, menina. Você não quer isso, a sua mãe não ia querer. Olha só como você está... Maria sentiu pena de Giuliana.

Giuliana não conteve mais as lágrimas. Elas escorreram silenciosas enquanto Maria a puxava para um canto da despensa.

_Não tem saída, Maria. O meu pai nunca vai me deixar ir.

_Tem, sim. E eu posso te ajudar, mas tem que ser hoje, daqui a pouco.

A cozinheira então pegou um uniforme de empregada e colocou nas mãos de Giuliana.

_Vista isso. Abaixe o rosto, não olhe para ninguém. Quando a equipe de limpeza sair pelo portão dos fundos, vá junto. O segurança que fica lá já está acostumado a ver esses funcionários saindo a noite. Só mantenha a cabeça baixa.

Giuliana engoliu em seco, sentindo o coração disparar.

_ É o que eu posso fazer por você. Maria respirou fundo.

O medo latejou no peito de Giuliana, mas ela sabia que não tinha outra escolha.

_Por que está me ajudando, Maria? Se meu pai descobrir, ele…

Maria sorriu triste e alisou os cabelos dela.

_Porque já vi muitas mulheres presas a uma vida que não escolheram, como a sua mãe ficou nos últimos dias dela nesta casa... Eu sempre gostei da sua mãe, ela sempre me tratou muito bem, por isso não vou deixar você sofrer.

_ Eu não quero te prejudicar…

_ Não vai… às 22 horas deve sair dessa casa, o uniforme vai estar aqui. Disse colocando o uniforme no meio dos mantimentos.

Giuliana mordeu os lábios para conter mais um soluço olhando para o uniforme. Sua vida dependia disso. E ela não olharia para trás.

Giuliana foi para o quarto e pegou dinheiro que conseguiu encontrar e fez uma mochila com o básico, e esperou até a hora que Maria tinha dito.

Vestida com uma roupa de empregada, ela saiu acesso de funcionário, se misturando aos demais empregados sentindo o coração bater forte como se fosse sair pela boca.

Giuliana, sempre foi privada de tudo pelo pai, que não permitiu que ela fosse para a faculdade, ou que ela trabalhasse. Ela odiava o ter sua vida nas mãos dele, e sonhava em se libertar do ciclo de poder e violência.

Desde que a mãe sumiu misteriosamente, ela já tinha tentado fugir inúmeras vezes, mas sempre era impedida pelos seguranças do pai ou pelos irmãos. Agora precisava fazer algo diferente, mas para isso, precisava de dinheiro, e talvez documentos falsos.  Sabia que não poderia ficar em Palermo, e muito menos na região. a Sicília inteira estava sob o alcance dos tentáculos de seu pai e dos Vitale. Seu plano era claro: encontrar a mãe, e juntas fugirem para o Brasil, a terra natal da mãe, onde poderiam recomeçar longe de todo daquele pesadelo.

Ao sair da mansão ela sentiu uma sensação unica de liberdade e pensou em Alice, a única amiga que tinha e que poderia ajudá-la naquela momento.

E foi com ajuda de uma amiga, que Giuliana se escondeu uma casa em um dos becos da cidade, conseguindo um emprego como bartender em um bar decadente. Trabalhava nas sombras, o cabelo preso em um coque desleixado e o rosto escondido sob um boné, sempre alerta ao menor sinal de perigo. Mesmo sabendo que o pai e Lucca não frequentavam lugares como aquele, ela ainda tinha medo. Se eles a encontrassem, seria seu fim.

E Carlo, desde que soube da fuga da filha, estava atrás dela. Precisava encontrar Giuliana antes da festa de noivado que Lucca estava preparando.

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Comments

Jeneci Nunes

Jeneci Nunes

espero que a Giuliana consiga ficar no anonimato.

2025-03-01

3

Patricia M

Patricia M

tomara que giuliana consiga fugir deles e encontre com Alessandro

2025-03-27

0

Andreia Cristina

Andreia Cristina

dois crápulas das piores espécie

2025-03-02

1

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