conflito invisível

O sol mal havia surgido no horizonte quando Loki atravessou a casa, seus pés descalços ecoando no chão de madeira velha. A noite ao lado de Nik o deixou inquieto, mais confuso do que nunca.

Ele precisava de algo para distrair sua mente.

Algo que o lembrasse de quem ele era — e de quem Nik realmente era.

Entrou em um cômodo pequeno e trancado, sua sala particular, onde mantinha seu computador e suas ferramentas de trabalho. Ali, Loki não era só um predador físico. Ele era uma sombra digital, capaz de apagar rastros, invadir sistemas e manipular informações para manter sua liberdade intacta.

Sentou-se na cadeira giratória, acendeu a tela do computador e, com poucos comandos, acessou o que restava do celular de Nik — o que ele havia destruído dias atrás. Mas Loki sempre foi cauteloso. Antes de esmagar o aparelho, já havia feito uma cópia de todos os dados.

— Vamos ver quem você realmente é, príncipe.

Os dedos ágeis de Loki deslizaram pelo teclado, e uma infinidade de informações apareceu na tela.

Contas bancárias espalhadas pelo mundo, com milhões de dólares em saldo. Propriedades em seu nome em Paris, Londres, Nova York, Tóquio. Empresas de fachada, participações em fundos de investimento.

— Você é um pequeno tesouro ambulante, hein? — Loki riu, o som seco ecoando no cômodo.

Mas quanto mais ele fuçava, mais Loki percebia que havia buracos.

Arquivos apagados. Pastas ocultas.

Curioso, ele aprofundou a busca. Arrombar sistemas era seu talento, e os firewalls que protegiam aquelas informações não eram páreo para suas habilidades.

E então ele encontrou.

Um arquivo deletado há oito anos.

O nome era curto, mas chamou sua atenção de imediato: "Laços de Sangue".

Loki restaurou o arquivo e abriu.

O que viu fez até mesmo ele parar por um instante.

Eram gravações.

Filmagens de segurança de dentro da mansão Laurent. Salas luxuosas, jantares de gala, corredores impecáveis… mas o foco não era a riqueza.

Era Nik.

Com dez anos de idade, pequeno, com os cabelos caindo sobre os olhos, segurando um cachorro nos braços — um husky filhote. O vídeo mostrava o garoto sorrindo, uma felicidade pura e rara brilhando em seu rosto enquanto ele brincava no jardim com o animal.

Mas, na gravação seguinte, a expressão de Nik mudou.

Seu pai apareceu, o rosto frio como pedra. O áudio era claro:

— Você não precisa de fraquezas.

Então, sem aviso, o homem tirou o cachorro dos braços de Nik.

O choro desesperado do garoto ecoou pela gravação enquanto Victor Laurent arrastava o animal para longe, ignorando completamente os gritos e súplicas de Nik.

Loki continuou assistindo.

Outras gravações mostravam Nik crescendo, sempre sozinho nos corredores imensos da mansão, olhando pelas janelas, vendo os carros de luxo chegarem e partirem, sem ninguém olhar para ele.

Uma cena em particular ficou presa na mente de Loki:

Nik sentado sozinho em uma mesa de jantar comprida, um bolo de aniversário intocado diante dele, velas acesas. Nenhuma alma presente.

Ele estava cantando parabéns para si mesmo, com a voz tremendo.

Loki fechou o arquivo.

Por longos minutos, ficou encarando a tela preta.

Seu peito apertava. Aquela sensação estranha voltava, com mais força.

Nik não era só um garoto rico.

Ele era um garoto invisível.

Alguém que passou a vida inteira gritando por atenção, por amor, por ser visto — e foi ignorado por todos.

Loki passou a mão no rosto, tentando afastar aquela irritação crescente dentro dele.

Mas a verdade já estava grudada na sua pele.

Nik não era só uma vítima.

Ele era uma obsessão, uma fraqueza — e agora, uma parte dele.

E Loki não sabia mais se queria quebrar Nik…

Ou consertá-lo.

A manhã estava cinza, com o céu encoberto e uma leve brisa entrando pela fresta da janela trancada. Loki subiu as escadas com uma bandeja simples: uma caneca de café, uma fatia de pão com manteiga e um copo de água.

Ele não sabia exatamente por que estava fazendo aquilo.

Ele se dizia que era porque Nik não podia morrer ainda. Não daquele jeito. Se Nik fosse morrer, seria pelas suas mãos — não por fome, nem por fraqueza.

Mas uma parte dele sabia que era mentira.

Ele abriu a porta do quarto, e lá estava Nik, no mesmo canto de sempre. O corpo ainda frágil, mas agora os olhos de Nik já não estavam tão mortos. Havia algo ali.

Talvez fosse apenas confusão, talvez fosse só cansaço. Mas Nik ainda estava presente, por mais que tentasse desaparecer.

Loki se aproximou da cama e colocou a bandeja sobre a mesa ao lado. Pegou a caneca de café e se abaixou, segurando-a perto da boca de Nik.

— Bebe. — Loki ordenou, a voz baixa e firme.

Nik apenas olhou para o café. Ele não fez menção de recusar, mas também não se moveu.

Loki aproximou mais a caneca, tocando o líquido quente nos lábios secos de Nik, forçando-o a sentir o cheiro forte.

Foi então que Nik levantou a mão.

Com dedos trêmulos, ele agarrou a mão de Loki, segurando-a com uma força surpreendente para alguém tão fraco.

Os olhos de Nik subiram até encontrar os de Loki. Pela primeira vez em dias, ele falou.

— Por que você está tentando me salvar? — A voz saiu fraca, rouca, como se cada palavra rasgasse sua garganta.

Loki congelou.

A pergunta bateu nele como um soco no estômago.

Ele não tinha resposta.

Por uma fração de segundo, a máscara de Loki tremeu. O sorriso cruel, o olhar predatório… tudo isso quase desmoronou.

Mas Loki era bom em sobreviver.

Ele puxou a mão de volta bruscamente, derramando um pouco do café sobre o lençol sujo.

— Não se ilude, princípezinho. Eu só quero você vivo pra continuar me divertindo. — A voz dele voltou afiada, carregada de sarcasmo. — Não morre antes de eu acabar com você direito.

Nik apenas encarou Loki. Não havia medo. Não havia raiva. Apenas uma dúvida silenciosa e profunda.

Loki virou as costas e saiu do quarto, batendo a porta com força.

Mas, do lado de fora, ele parou.

Encostou a testa na madeira fria e fechou os olhos.

Porque aquela pergunta — por que você está tentando me salvar? — não saía da sua cabeça.

E a pior parte era que, no fundo, ele também queria saber a resposta.

Nik ficou encarando a porta fechada por longos minutos depois que Loki saiu. O café derramado escorria lentamente pelo lençol, mas ele não se mexeu para limpar.

A pergunta ainda ecoava na mente dele.

“Por que você está tentando me salvar?”

Ele não esperava que Loki fosse responder com sinceridade — o monstro que o prendeu ali não parecia capaz de admitir algo tão simples.

Mas, por um segundo, Nik viu algo.

Uma fração de hesitação.

Uma rachadura mínima na máscara de arrogância e crueldade de Loki.

E aquilo o confundiu.

Loki era seu carrasco. Seu torturador.

Mas, por algum motivo, Loki também era quem estava mantendo-o vivo.

Por quê?

Nik virou o rosto para o lado, encarando o teto manchado. Seu corpo ainda doía, sua perna quebrada latejava, e sua mente se arrastava entre o cansaço e a necessidade de entender.

Por que ele ainda estava vivo?

Se Loki só quisesse matá-lo, já teria feito isso. Se quisesse quebrá-lo, já havia conseguido.

Mas então… por que?

Do lado de fora da porta, Loki também estava preso na mesma pergunta.

Encostado na madeira, a respiração lenta, ele cerrava os punhos, frustrado consigo mesmo.

Ele nunca se importou com suas vítimas. Nunca.

E, no entanto, ali estava ele, trazendo comida, cuidando das feridas de Nik, puxando-o de volta da beira da morte vez após vez.

Por quê?

Loki voltou para seu quarto, jogou-se na cama e encarou o teto.

As imagens de Nik o assombravam. Não as imagens de Nik sendo arrogante e insolente nas primeiras horas, nem dele gritando e xingando entre golpes e dor.

Mas a imagem de Nik calado, os olhos mortos, como se o próprio garoto tivesse desistido de existir.

Isso foi o que o perturbou de verdade.

Ele não queria Nik morto.

Não queria Nik quebrado.

Ele queria Nik vivo.

Vivo para quê? Para ser sua posse? Para continuar o jogo doentio? Ou para algo que ele não conseguia admitir nem para si mesmo?

Loki fechou os olhos, mas a resposta não vinha.

Tudo o que sabia era que Nik estava preso nele.

E não importava quantas vezes ele tentasse afastar aquela sensação, ela voltava.

Mais forte.

Mais profunda.

E agora, ele não sabia se queria libertar Nik ou a si mesmo.

A porta do quarto se abriu de repente, batendo contra a parede, e Loki entrou como uma tempestade. Nik, ainda deitado, nem se mexeu. Seu olhar vazio apenas seguiu a figura alta atravessar o cômodo, os ombros rígidos e os passos pesados.

Loki parou ao lado da cama, olhando para baixo, como se Nik fosse um quebra-cabeça impossível de resolver.

— Você ainda não comeu.

A voz era áspera, mas havia algo nela — um traço quase imperceptível de incerteza.

Nik não respondeu.

Loki puxou uma cadeira e sentou-se, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas diante do rosto.

— O que você quer de mim, hein? — Sua voz veio baixa, mas carregada de tensão. — Eu te quebro, te humilho, te prendo… e você não reage. Você só existe. Como se nada disso fosse suficiente pra te atingir.

Nik piscou devagar, os olhos presos nos de Loki.

— Você quer que eu grite? Que chore? — Sua voz saiu rouca, desgastada. — Você quer que eu te odeie? Porque isso é fácil. Eu te odeio. Eu te odeio tanto que, se tivesse forças, eu arrancaria sua garganta com as minhas mãos.

Loki sorriu. Um sorriso torto, sombrio, mas seus olhos diziam outra coisa.

— Ótimo. — Ele se inclinou para frente. — Ódio eu entendo. Mas e você? Entende o que tá acontecendo aqui?

Nik virou o rosto para o lado, sem responder.

Loki não aceitou o silêncio.

Ele subiu na cama de joelhos, agarrando Nik pelo queixo, forçando-o a olhar novamente em seus olhos.

— Eu te prendi aqui porque você me irrita. Porque você me provoca, me desafia. Mas sabe o que me deixa mais louco? — Loki se aproximou, sua respiração quente roçando a pele pálida de Nik. — Eu não consigo te matar. E eu não sei por quê.

Nik engoliu seco, sua garganta movendo-se sob os dedos de Loki.

— Você acha que isso é algum tipo de romance doentio? — Nik cuspiu as palavras, seu tom ácido. — Eu não sou uma vítima apaixonada pelo meu sequestrador. Eu te odeio. Eu quero você morto. Eu quero esquecer que você existe.

Loki rriu baixo, os dedos deslizando do queixo para a garganta de Nik, apertando levemente.

— Eu não quero seu amor. Eu quero seu controle. Quero saber o que você tem que me puxa pra perto toda vez que eu tento te descartar. Quero entender por que, de todas as pessoas que eu destruí, só você ficou grudado na minha pele.

Nik tentou se afastar, mas o aperto de Loki aumentou. Não o suficiente para machucar de verdade, mas o bastante para lembrá-lo de quem tinha o controle.

— Eu sou seu reflexo. — Nik sussurrou. — Eu sou a parte que você não quer enxergar.

Loki ficou em silêncio.

Porque, pela primeira vez, Nik havia tocado no cerne da questão.

Nik representava tudo o que Loki passou a vida inteira tentando apagar dentro de si:

Fraqueza.

Vulnerabilidade.

Desejo reprimido.

Medo de não ser suficiente.

Nik era uma lembrança constante de que, por baixo da máscara de predador, Loki também era uma vítima de algo maior.

E isso o deixava louco.

Loki soltou Nik com um empurrão, levantando-se da cama como se o toque do garoto queimasse.

— Você não sabe de nada. — Ele rosnou. — Você é só um lixo mimado que nem sua própria família quis.

Nik deu uma risada curta e amarga.

— E ainda assim, eu tô dentro da sua cabeça. Isso te assusta, Loki?

O ar ficou denso entre os dois, tenso e perigoso.

Ódio, desejo, confusão e raiva se misturavam como veneno no ar.

Loki se virou, socando a parede com força antes de sair do quarto e bater a porta com tanta violência que rachaduras surgiram na moldura.

E Nik, sozinho de novo, finalmente sorriu de verdade.

Porque agora ele sabia:

Loki não era invencível.

E talvez, só talvez, a verdadeira prisão não fosse aquela corrente em seu tornozelo — mas sim, a mente de Loki, onde Nik agora morava sem pagar aluguel.

CONTINUA....

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