Joia sem valor

Os dias dentro daquela casa caíam sobre Nik como uma cortina de poeira e escuridão. Não havia relógio, não havia janelas no quarto onde ele ficava. A única luz vinha do teto rachado, e a única visita era Loki — sempre trazendo sua presença pesada, suas palavras venenosas e suas humilhações disfarçadas de ordens.

Mas, com o passar do tempo, Loki começou a perceber algo estranho.

A comida que ele deixava para Nik — às vezes jogada no chão, às vezes colocada sobre a mesa com desdém — nunca era tocada.

No início, Loki achou que era pirraça. Uma forma patética de Nik resistir sem precisar falar ou reagir.

Mas depois de alguns dias, a resistência virou outra coisa.

A pele de Nik, já pálida, começou a perder toda cor, ficando quase translúcida. Seus olhos fundos pareciam maiores, suas costelas começaram a aparecer debaixo da pele fina.

O corpo pequeno, já frágil desde o início, estava desaparecendo.

Na quarta noite em que voltou ao quarto e encontrou Nik exatamente na mesma posição, com a comida intacta ao lado da cama, Loki sentiu um nó estranho na garganta.

Aquilo não era só rebeldia.

Nik estava se deixando morrer.

— Levanta. — Loki ordenou, sua voz menos agressiva do que normalmente seria.

Nik não se moveu.

Loki se aproximou, se ajoelhando ao lado da cama, e agarrou o tornozelo de Nik, sacudindo-o com força.

— Eu disse levanta, porra!

Nada.

Ele pegou Nik pelos braços e o ergueu à força, puxando-o para sentar. O corpo de Nik estava leve demais, como se ele fosse feito de papel. A roupa de faxineira que Loki o obrigara a vestir dias antes parecia ainda mais ridícula agora, pendurada em um corpo que mal conseguia se sustentar.

— Você acha que pode se matar de fome aqui? Acha mesmo que eu vou deixar você morrer só porque quer fugir de mim desse jeito?

Loki agarrou o rosto de Nik, virando-o para encará-lo de perto.

O olhar de Nik estava vazio, distante. Como se já não estivesse mais ali, como se sua alma tivesse escapado do corpo enquanto Loki não olhava.

— Olha pra mim! — Loki rosnou, sacudindo o rosto de Nik. — Eu disse olha pra mim, porra!

Nada.

O silêncio de Nik era mais violento do que qualquer palavra.

Com raiva, Loki se levantou e saiu do quarto, voltando alguns minutos depois com uma tigela de sopa quente e uma colher. Ele jogou a tigela na mesa e ficou de pé, os braços cruzados.

— Você vai comer. Agora.

Nik não reagiu.

— Eu disse que você vai comer. Nem que eu tenha que enfiar essa merda pela sua garganta.

Nenhuma resposta.

A paciência de Loki se esgotou. Ele pegou a colher e encheu com sopa, segurou Nik pelo queixo e tentou abrir sua boca.

— Abre essa porra dessa boca, Nik.

Nik manteve os lábios cerrados, os olhos perdidos em algum ponto invisível.

Loki respirou fundo, e pela primeira vez em dias, o toque dele não foi de pura violência.

Ele afrouxou a mão no queixo de Nik e sussurrou:

— Você quer morrer, é isso?

Nik piscou lentamente, como se suas pálpebras pesassem toneladas.

Loki ficou parado, segurando a colher no ar, encarando aquele rosto sem vida.

E então, sem saber explicar por quê, sua mão tremia levemente.

Ele não podia explicar aquilo, mas a ideia de Nik simplesmente desaparecer, definhar até virar nada, o incomodava de um jeito que ele não sabia lidar.

— Eu não vou deixar você morrer assim. Se você quer morrer, que seja pelas minhas mãos. Mas se deixar apodrecer desse jeito... Isso não é opção.

Com um gesto rápido, Loki forçou a colher contra os lábios de Nik, enfiando sopa quente em sua boca.

Nik tentou virar o rosto, mas não tinha forças. A sopa escorreu pelos cantos da boca e pelo queixo, mas Loki não parou.

— Engole. — Sua voz saiu mais rouca do que pretendia.

Nik tossiu, engasgou um pouco, mas parte do líquido escorreu garganta abaixo.

Loki voltou com outra colherada, e outra, e outra.

— Você vai comer nem que seja à força. Você não vai fugir de mim desse jeito. Eu decido quando você morre.

Nik não lutou.

Ele não tinha energia pra isso.

Cada colher era um esforço enorme, e Loki sabia que aquilo era o máximo que conseguiria por hoje.

Ele deixou a tigela pela metade e jogou a colher de lado, levantando-se com raiva.

Mas antes de sair, parou na porta.

Olhou para Nik, agora com sopa escorrendo pelo queixo, os olhos ainda perdidos.

E, pela primeira vez, Loki sentiu algo semelhante a culpa.

Ele odiou aquela sensação.

Mas não pôde ignorar.

Ele apagou a luz e deixou Nik sozinho, mas, naquela noite, não conseguiu dormir.

Porque, pela primeira vez, ele começou a se perguntar...

Por que ele não conseguia simplesmente deixar Nik morrer?

E ele não tinha resposta.

Loki estava deitado na cama, encarando o teto manchado de umidade. O quarto estava escuro, mas mesmo no escuro, ele conseguia ver o vazio deixado por Nik.

Ele não entendia por que aquele moleque mexia tanto com ele.

Era só mais uma vítima. Mais um brinquedo para quebrar e descartar. Era assim que sempre funcionava.

Mas com Nik… era diferente.

Loki virou de lado, fechou os olhos com força, tentando ignorar a inquietação dentro do peito. O cansaço logo venceu, e ele caiu no sono.

E então, ele sonhou.

Ele estava parado no meio de uma sala escura, iluminada apenas por uma luz fraca no teto. No centro, estava Nik.

Mas Nik não era aquele garoto pálido e quebrado que estava preso no quarto.

Não.

No sonho, Nik estava inteiro.

Ele estava sentado sobre a cama, com um sorriso provocante nos lábios rosados, os cabelos bagunçados de propósito, a perna boa dobrada, enquanto a outra — ainda machucada — estava esticada, mas parecia não incomodá-lo.

Ele olhava diretamente para Loki, e aquele olhar tinha vida.

— Você não consegue me esquecer, consegue? — A voz de Nik era suave, carregada de ironia e algo mais profundo que Loki não sabia nomear.

Loki deu um passo à frente, mas o chão sob seus pés parecia grudar, como se o quarto inteiro estivesse tentando segurá-lo.

Nik se levantou, caminhando mancando em sua direção, mas com uma leveza que não combinava com sua perna ferida.

— Sou só mais um joguinho seu, não sou? — Nik sussurrou, parando a centímetros de Loki. — Então por que você sonha comigo? Por que eu ainda estou aqui?

Loki tentou responder, mas não saiu som algum.

Nik sorriu de canto, os olhos brilhando com algo entre tristeza e desafio.

Ele levantou a mão e tocou o rosto de Loki.

O toque era frio. Quase fantasmagórico.

— Eu estou na sua cabeça, Loki. Você me prendeu aqui. Agora, você não pode me tirar.

O sorriso de Nik se desfez. Seus olhos escureceram.

— E eu vou te assombrar até você entender o que realmente quer de mim.

Loki deu um passo para trás, o peito apertado por algo que não era medo… era algo muito pior.

Era desejo misturado com culpa.

Nik deu mais um passo à frente, invadindo o espaço dele, a respiração leve batendo contra sua pele.

— Me odeia tanto assim? Ou tem medo do que sente?

Loki acordou com um sobressalto, o corpo suado e o coração batendo forte contra as costelas. Ele olhou em volta, perdido entre o sonho e a realidade.

Ele odiava sonhar.

Principalmente com ele.

Ele passou a mão no rosto, respirando fundo.

Mas, mesmo acordado, podia quase sentir o toque de Nik em seu rosto.

E isso o deixou louco.

Loki levantou, saiu do quarto e parou em frente à porta onde Nik estava preso.

Ele encostou a testa contra a madeira fria, os punhos cerrados.

Ele precisava descobrir o que era essa obsessão.

Ou Nik o destruiria por completo.

Loki abriu a porta do quarto com cuidado incomum, algo nele o impedia de simplesmente arrombar ou entrar fazendo barulho como sempre fazia.

A luz fraca do corredor iluminou Nik encolhido na cama, coberto por um lençol fino e velho. Seu corpo parecia ainda menor, os ossos salientes denunciando a fraqueza causada pelos dias sem comer direito.

Mas o que prendeu Loki não foi o estado físico de Nik.

Foram os sons.

Nik estava dormindo, mas se mexia inquieto, os punhos apertando o lençol como se agarrasse algo invisível. Seus lábios tremiam e dele saíam palavras entrecortadas, quase sussurradas:

— Desculpa… eu… eu não queria… por favor… me desculpa, pai… mãe… por favor… não me deixem…

Uma lágrima escorreu pelo canto do olho de Nik.

Loki ficou parado, sentindo algo estranho revirar em seu estômago.

Ele não sabia o que era.

Raiva? Nojo?

Culpa?

Ele avançou devagar, sentou-se na beira da cama e ficou olhando para Nik de perto.

Aquele mesmo garoto que ele tinha quebrado, humilhado e torturado… agora parecia tão pequeno.

Tão perdido.

Loki não entendia.

Ele nunca cuidou de ninguém. Nunca quis. Pessoas eram brinquedos, passatempos descartáveis. Ele as controlava, as destruía e seguia em frente.

Mas, com Nik, ele não conseguia soltar a corrente.

Ele não conseguia acabar com isso.

Antes que pudesse se conter, Loki deitou ao lado de Nik.

Devagar, como se estivesse testando seus próprios limites, ele passou um braço ao redor do corpo magro, puxando Nik para perto.

Nik murmurou algo incompreensível no sono e virou-se involuntariamente, se encaixando no peito de Loki, buscando calor como se instintivamente procurasse proteção.

Loki ficou rígido por um momento, o toque da pele fria de Nik contra a sua queimando como fogo.

Mas ele não soltou.

Ele ficou ali, segurando o garoto, sentindo cada respiração trêmula, cada soluço abafado no meio do pesadelo.

E mesmo sem entender o motivo…

Ele não quis soltar.

Enquanto Nik dormia e chorava por um amor que nunca recebeu, Loki ficou ao lado dele, sem saber se era para confortar Nik ou a si mesmo.

Mas uma coisa era certa:

Aquele garoto estava quebrando algo dentro de Loki.

E o monstro não sabia como impedir.

— Por que eu tô fazendo isso? — Loki sussurrou para o escuro.

Nik não respondeu.

Loki ficou ali, deitado ao lado de Nik por um tempo que ele não soube medir. O garoto respirava de forma irregular, o corpo magro tremendo de tempos em tempos, como se estivesse congelado por dentro. Mesmo dormindo, Nik parecia carregar o peso de uma vida inteira de rejeição e dor.

E Loki não conseguia se afastar.

Ele apertava o corpo frágil contra o seu, o que era absurdo. Ele nunca fez isso com ninguém.

Pessoas eram objetos para ele. Diversão passageira.

Mas Nik…

Nik era diferente.

Era como se cada provocação, cada ato de rebeldia, cada olhar vazio puxasse Loki para mais perto. Ele não queria matá-lo. Queria quebrá-lo e moldá-lo de novo.

Mas, agora, olhando para ele daquele jeito, tão pequeno e vulnerável, Loki começou a se perguntar:

Era mesmo só isso?

Ele tentou afastar o pensamento. Tentou se lembrar de todas as coisas que fez com Nik — a perna quebrada, os tapas, as humilhações, as palavras cruéis.

E, mesmo assim, estava ali, segurando-o com cuidado, como se tivesse medo de quebrar o que restava.

Ele passou os dedos lentamente pelos cabelos escuros de Nik, o toque leve, quase cuidadoso.

— O que você fez comigo, hein? — murmurou, a voz rouca.

Nik não respondeu. Apenas se aconchegou um pouco mais contra ele, como se buscasse aquele calor sem perceber.

Loki fechou os olhos por um momento, tentando se lembrar de alguma vez, em toda sua vida, que tivesse sentido algo assim.

Proteção.

Ele não protegia ninguém.

Mas, com Nik…

Ele sentia um nó no peito só de imaginar aquele corpo frágil parando de respirar.

Ele não queria perder Nik.

Mas não sabia dizer se era porque queria Nik vivo… ou porque queria continuar sendo o dono de cada pedaço dele.

E isso o assustava.

Porque, pela primeira vez, Loki não estava no controle.

Nik era só um garoto quebrado, um garoto rejeitado até pelos próprios pais. E mesmo assim, ele havia enfiado uma rachadura no que existia dentro de Loki — e agora aquela rachadura só crescia.

— Eu devia te odiar. — Loki sussurrou, mais para si mesmo do que para Nik.

Mas o braço dele não soltou.

E ele sabia que não conseguiria se afastar.

Porque a obsessão não era só sobre posse.

Era sobre algo que Loki não sabia nomear.

E isso o deixava apavorado.

Mas, ao mesmo tempo, ele não conseguia parar.

CONTINUA...

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