O silêncio entre eles durou alguns minutos, apenas o som da chuva forte batendo no teto da caminhonete preenchia o espaço. Henrique, ainda envolto em seus próprios pensamentos, percebeu que estava prestes a se perder em lembranças dolorosas. Então, decidiu mudar o foco.
— E você, doutora? — perguntou de repente, virando-se para encará-la. — Como veio parar aqui, no meio do nada, lidando com bezerros e tempestades?
Isabela sorriu de leve com a forma descontraída como ele perguntou.
— Sempre quis ser veterinária. Desde pequena, eu adorava animais. Minha mãe dizia que, se dependesse de mim, eu traria todos os bichos de rua para dentro de casa.
Henrique soltou um riso baixo.
— Imagino a loucura que isso devia ser.
— Ah, sim! Meu pai ficava maluco. Ele queria que eu seguisse outra carreira, algo mais “seguro”, sabe? Mas a verdade é que eu nunca me imaginei fazendo outra coisa.
Ele arqueou uma sobrancelha, interessado.
— Então teve que bater de frente com a família pra seguir seu sonho?
Isabela assentiu, seu olhar distante.
— Meu pai queria que eu estudasse Administração para ajudar nos negócios da família, mas minha paixão sempre foi cuidar dos animais. Foi uma briga e tanto, mas minha mãe sempre esteve do meu lado.
Henrique percebeu a forma carinhosa com que Isabela falava da mãe e sorriu.
— Ela deve ter muito orgulho de você.
— Tem sim. E meu pai também, mesmo que não admita com todas as palavras. No fundo, acho que ele percebeu que eu sou mais feliz assim.
Henrique assentiu, respeitando o momento. Depois de um tempo, tentou aliviar a conversa.
— Então você gosta da vida no campo?
— Sempre gostei. Meu avô tinha uma fazenda e eu passava todas as férias lá. Foi lá que aprendi a montar, a cuidar dos animais… Eu me sentia em casa.
Henrique sorriu, sentindo uma familiaridade inesperada com sua história.
— Então essa vida sempre esteve no seu sangue.
— De certa forma, sim. Mas e você? — ela perguntou, virando-se para ele. — Como foi pra você sair daqui e se tornar um astro da música?
Henrique suspirou, apoiando a cabeça no banco.
— Foi uma loucura. No começo, ninguém acreditava que daria certo. Eu também tive que brigar com meu pai para seguir meu sonho. Ele queria que eu assumisse a fazenda, mas a música sempre foi minha paixão.
Isabela o observou atentamente, percebendo que ele falava daquilo com um misto de saudade e dor.
— E quando sua carreira deslanchou? Como foi?
Ele soltou um riso baixo, sem humor.
— Era tudo muito intenso. Viagens, shows lotados, fãs gritando meu nome… Mas também era solitário. Quanto mais sucesso eu fazia, menos tempo eu tinha pra mim mesmo.
Ela o olhou com compreensão.
— E então você voltou para cá.
Henrique ficou em silêncio por um instante, observando a chuva escorrendo pelo vidro.
— Sim. Eu precisava voltar.
Isabela não insistiu. Ela sabia que havia mais naquela resposta, mas percebeu que ele ainda não estava pronto para dizer.
Por um momento, tudo o que se ouviu foi o barulho da tempestade lá fora. O frio se intensificou, fazendo com que ambos se aproximassem mais debaixo do cobertor.
— E quanto ao amor? — Henrique perguntou de repente, quebrando o silêncio.
Isabela o olhou surpresa.
— O que tem?
— Você já se apaixonou?
Ela desviou o olhar por um momento antes de responder.
— Já… Algumas vezes. Mas nenhuma delas foi realmente certa.
Henrique franziu as sobrancelhas.
— Por quê?
Isabela suspirou.
— Acho que nunca encontrei alguém que entendesse meu jeito. Ou que estivesse disposto a aceitar minha rotina, meus sonhos. Sempre parecia que eu tinha que escolher entre minha carreira e um relacionamento… E eu escolhi minha carreira.
Henrique a observou atentamente, admirando a força por trás de suas palavras.
— Então você não se arrepende?
Ela sorriu de leve.
— Não. Acho que quando for a pessoa certa, não precisarei escolher.
Henrique sentiu algo estranho no peito ao ouvir isso. Ele sabia bem o que era viver entre escolhas difíceis… E, pela primeira vez em muito tempo, se perguntou se ainda havia espaço para o amor em sua vida.
Mas antes que pudesse refletir mais sobre isso, a chuva diminuiu o suficiente para que ele tentasse sair do atoleiro.
— Acho que a tempestade deu uma trégua. Vou tentar tirar a caminhonete daqui.
Isabela assentiu, mas ficou em silêncio, absorvendo a conversa que acabaram de ter.
Ela não sabia o que estava acontecendo entre os dois, mas sentia que aquela noite sob a chuva mudaria algo.
Talvez já tivesse mudado.
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Atualizado até capítulo 70
Comments
Carmen Borges de Oliveira
estou gostando muito do livro
2025-02-24
1
Raquel Martins
Livro muito bem escrito 👏🏽👏🏽
2025-03-27
0
Doraci Bahr
amando
2025-04-03
0