O dia na fazenda foi intenso. Depois de avaliar os cavalos, Isabela passou horas conhecendo os outros animais, revisando as fichas veterinárias e se familiarizando com a rotina do local. Os funcionários foram receptivos, mas ela sabia que, sempre que mencionava Henrique, as respostas vinham transmitidas de respeito e cautela. Ele era um patrão justo e cuidadoso, mas mantinha-se distante, como se tivesse criado um muro invisível entre ele e o resto do mundo.
Quando o sol começou a se pôr, o céu estava tingido de tons dourados e alaranjados. O ar fresco da tarde trazia consigo o cheiro da terra e do capim recém-cortado. Isabela decidiu caminhar um pouco antes de voltar ao chalé.
Foi então que ouvi o som.
Uma melodia suave, quase melancólica, pareava no ar como uma sugestão do passado. Seguindo o som, encontrou Henrique sentado nos degraus da varanda da casa principal, com um violão no colo. Ele tocava distraidamente, o olhar perdido no horizonte, sem perceber sua presença.
Por um momento, Isabela ficou ali, apenas ouvindo. A melodia tinha algo de familiar, mas ao mesmo tempo carregava uma dor silenciosa.
Flor e o Beija-flor
Canção de Henrique & Juliano
🎶…Essa é uma velha história
De uma flor e um beija flor
Que conheceram o amor
Numa noite fria de Outono
E as folhas caídas no chão
Da estação que não tem cor
E a flor conhece o beija-flor
E ele lhe apresenta o amor
E diz que o frio é uma fase ruim
Que ela era a flor mais linda do jardim
E a única que suportou
Merece conhecer o amor
E todo seu calor
Ai que saudade de um beija flor
Que me beijou depois voou
Pra longe demais
Pra longe de nós
Saudade de um beija-flor
Lembranças de um antigo amor
O dia amanheceu tão lindo
Eu durmo e acordo sorrindo…🎶
— Achei que você não tocava mais — disse ela, sem pensar.
Henrique parou de tocar imediatamente, como se tivesse sido arrancado de uma transe. Seu olhar encontrou o dela por um breve instante antes de desviar.
— Não costumo tocar quando tem gente por perto — respondeu, a voz rouca.
— Então acho que dei sorte.
Ele arqueou uma sobrancelha, analisando-a, mas não disse nada. Isabela hesitou por um segundo e, em vez de ir embora, enviou-se no primeiro degrau da escada, mantendo uma distância respeitável.
— Você ainda compõe? — Perguntei, genuinamente curioso.
Henrique suspirou, passando a mão pelos cabelos, claramente incomodado com a pergunta.
— Já foi mais fácil. Hoje em dia, parece que as palavras não fazem mais sentido.
Isabela o acolheu atentamente. Por trás da fama, das letras que um dia tocaram milhões de corações, havia um homem lidando com suas próprias feridas.
— A música nunca deixa a gente de verdade — disse ela, sua voz soando mais suave. — Talvez você só precise do tempo para reencontrá-la.
Henrique a encarou por um instante, como se aquelas palavras tivessem um impacto maior do que ele gostaria de admitir.
O silêncio entre os dois se prolongou, mas não foi desconfortável. Pelo contrário, havia algo no ar, uma conexão sutil, um entendimento que dispensava palavras.
Finalmente, Henrique desviou o olhar e tocou um último acorde antes de se levantar.
— Boa noite, Isabela.
Ela ofereceu de leve, sem forçar qualquer resposta.
— Boa noite, Henrique.
Enquanto ele entrava em casa, Isabela ficava ali por mais alguns instantes, ouvindo os últimos resquícios da melodia no vento.
Pela primeira vez, Henrique não parecia tão inalcançável.
E, talvez, sem perceber, ele estava começando a baixar a guarda.
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Atualizado até capítulo 70
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