O sol já ia alto quando Antônio apareceu na varanda da casa principal, ajeitando o chapéu de palha na cabeça. Henrique estava sentado no degrau, tomando café em silêncio, enquanto Isabela saía do estábulo após examinar um dos cavalos.
— Patrão, temos um probleminha — Antônio disse, coçando a nuca.
Henrique ergueu os olhos para ele, sem pressa.
— O que houve?
— O rapaz que entrega a ração sofreu um acidente na estrada de terra. Não foi nada grave, mas o caminhão atolou, e ele não vai conseguir vir hoje. Precisamos buscar a encomenda na cidade, ou os bichos vão ficar sem comida até amanhã.
Henrique suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Certo. Quem vai?
— Eu ia lá resolver isso agora, mas a doutora disse que queria ir junto.
Henrique virou-se para Isabela, que sorriu de leve.
— Eu queria conhecer melhor a cidade. Além disso, posso aproveitar para comprar algumas coisas para a enfermaria dos animais.
Ele analisou a expressão dela por um momento e depois se levantou, batendo a poeira da calça jeans.
— Eu vou.
Antônio ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— O senhor?
Henrique assentiu, pegando as chaves da caminhonete no bolso.
— Eu preciso sair um pouco daqui. Faz tempo que não vou à cidade.
Isabela o observou atentamente. Desde a noite anterior, parecia que algo nele havia mudado. Era sutil, mas estava ali.
— Tudo bem então, vamos juntos — ela disse, ajeitando a trança sobre o ombro.
Antônio sorriu.
— Bom, se vocês vão, melhor irem logo. A loja fecha cedo hoje.
Henrique assentiu e caminhou até a caminhonete preta estacionada perto do galpão. Isabela entrou no banco do carona e apertou o cinto enquanto ele dava a partida.
Assim que saíram pelo portão da fazenda, o cheiro de terra molhada e mato invadiu o veículo. A estrada de chão era irregular, com alguns trechos esburacados, mas Henrique dirigia com a calma de quem conhecia cada curva.
Por alguns minutos, ficaram em silêncio, apenas o som do motor e dos passarinhos cortando o ar.
— Você parece diferente hoje — Isabela comentou, quebrando o silêncio.
Henrique manteve os olhos na estrada, mas um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca.
— Diferente como?
— Mais... leve.
Ele soltou um suspiro e passou a mão no volante.
— Acho que ontem foi um dia importante para mim. Pegar no violão de novo... Foi como abrir uma porta que estava fechada há muito tempo.
Isabela sorriu, satisfeita.
— Fico feliz por isso. A música faz parte de você.
Henrique desviou o olhar rapidamente para ela antes de voltar à estrada.
— Talvez você tenha razão.
O caminho até a cidade era curto, cerca de vinte minutos, mas a paisagem era deslumbrante. Montanhas ao longe, campos verdes e algumas poucas casas de madeira espalhadas pelo caminho.
Ao chegarem ao pequeno centro, a cidade se revelou tranquila, com ruas largas e comércios simples. A praça principal era rodeada por árvores antigas e bancos de madeira onde alguns senhores conversavam.
Henrique estacionou a caminhonete em frente à loja agropecuária.
— Vamos lá — ele disse, descendo do carro.
Isabela o acompanhou, observando as pessoas ao redor. Algumas olhavam para Henrique com surpresa, como se não acreditassem que ele estava ali.
Ao entrarem na loja, o dono, um senhor de bigode grisalho e barriga saliente, arregalou os olhos.
— Ora, ora, se não é o Henrique Monteiro! — Ele se levantou da cadeira atrás do balcão, abrindo um sorriso. — Que milagre te traz à cidade, rapaz?
Henrique sorriu de lado e apertou a mão do homem.
— Preciso buscar a ração dos animais.
— Claro, claro! Mas olha, bom te ver por aqui. Tem gente que achava que você nunca mais ia sair daquela fazenda.
Henrique riu baixo.
— Pois é... Resolvi aparecer.
Enquanto ele acertava os detalhes da compra, Isabela caminhava pela loja, observando os produtos para os animais. Quando voltou para perto dele, percebeu que o dono da loja ainda o olhava com certa admiração.
— Você sabe que sua música ainda toca na rádio da cidade, né?
Henrique pareceu surpreso.
— Sério?
— Sério. O pessoal sente falta dos seus shows. Quem sabe um dia você volta?
Henrique não respondeu de imediato. Apenas pegou o recibo da compra e agradeceu.
Quando saíram da loja, Isabela percebeu que ele estava pensativo.
— Você sente falta?
— De quê?
— Dos shows, dos palcos, da música ao vivo...
Ele ficou em silêncio por um instante antes de responder:
— Eu achava que não. Mas agora... Não sei mais.
Isabela sorriu de leve, observando o brilho diferente em seu olhar.
Talvez aquela viagem à cidade tivesse sido mais significativa do que ele imaginava.
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Atualizado até capítulo 70
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