Última Saudade
O vento quente do interior soprava suavemente pelas estradas de terra, levantando poeira no horizonte. Isabela segurava firme o volante do carro enquanto observava a paisagem ao redor. Depois de anos estudando veterinária na cidade grande, estava voltando às suas raízes. Não exatamente para sua cidade natal, mas para um lugar que lhe parecia familiar: a Fazenda Esperança, propriedade de Henrique Vasconcellos, um nome que ela conhecia bem.
Henrique era um dos maiores nomes da música brasileira. Seu talento e carisma o haviam levado ao estrelato, mas nos últimos dois anos, ele havia sumido dos holofotes. Isabela sabia o motivo. Todos sabiam. A perda repentina de sua esposa o afastou de tudo e de todos. Agora, o que antes era uma fazenda cheia de vida parecia um refúgio silencioso para um homem que tentava escapar do próprio passado.
Mas aquilo não era problema dela. Seu trabalho era cuidar dos animais da propriedade e fazer seu melhor como veterinária.
Ao longe, Isabela avistou a casa principal da fazenda. Era uma construção imponente, mas com um charme rústico. Grandes varandas envolviam a estrutura, e os campos verdes se estendiam até onde os olhos podiam alcançar. Assim que estacionou o carro, respirou fundo e desceu, sentindo o cheiro fresco do mato e dos estábulos.
Ela não esperava uma recepção calorosa, mas também não esperava encontrar um homem parado na varanda, observando-a com um olhar frio e distante. Henrique.
O homem que um dia fora conhecido por seu sorriso fácil e sua voz envolvente agora parecia carregado de sombras. Seu cabelo estava um pouco mais comprido, a barba por fazer. Os olhos castanhos escuros, antes brilhantes, carregavam uma melancolia difícil de ignorar.
— Você é a veterinária? — Sua voz soou rouca, como se não fosse usada há algum tempo.
Isabela sustentou o olhar dele e assentiu.
— Isabela Martins. Fui contratada para cuidar dos animais da fazenda.
Ele apenas a analisou por um instante antes de virar-se de volta para dentro da casa, sem mais palavras.
Ótimo começo, pensou Isabela, revirando os olhos.
Algumas horas antes...
Longe dali, na cidade onde Isabela crescera, sua mãe organizava a cozinha com carinho, preparando o bolo de cenoura preferido da filha, mesmo sabendo que ela não estaria ali para comer. A relação de Isabela com a família sempre foi próxima. Seus pais, Marta e João, eram simples, trabalhadores, e sempre incentivaram os sonhos da filha. Seu irmão mais novo, Caio, ainda morava com os pais e passava os dias estudando para o vestibular de Medicina Veterinária, inspirado pela irmã.
— Será que ela vai se adaptar lá? — perguntou Marta, preocupada, enquanto colocava a forma no forno.
— Isabela sempre se adapta. Ela é forte — respondeu João, com um sorriso orgulhoso.
A família de Henrique, por outro lado, era uma história diferente.
No Rio de Janeiro, sua irmã mais velha, Laura, encarava o telefone pela terceira vez naquele dia, indecisa se deveria ou não ligar para o irmão. Desde a morte de Júlia, ele se afastara de todos. Recusava ligações, evitava encontros e desaparecera na fazenda.
— Ele precisa de ajuda — disse Laura para si mesma, finalmente tomando coragem para discar o número.
Henrique viu o nome da irmã na tela, mas, como de costume, ignorou. Ele não estava pronto para conversar. Não estava pronto para seguir em frente.
Mas então olhou pela janela e viu a nova veterinária descendo do carro.
E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que algo em sua rotina prestes a mudar.
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Atualizado até capítulo 70
Comments
Marilucia Vasconcelos Gonçalves
Começando agora16:4 dia 23-2-25 espero gosta até agora nenhuma história de fazendeiro me dsepsionou
2025-02-24
1
Neusa Aparecida Leonço
começando hoje 5/3/25 acho que vou gostar muito da história
2025-03-05
0
Suel Helen Moraes
oiê, olha eu aqui
2025-03-05
1