O céu começou a escurecer assim que Henrique e Isabela deixaram a cidade, carregando a caminhonete com os suprimentos da fazenda. As nuvens pesadas se espalhavam pelo horizonte, anunciando uma tempestade iminente.
— Acho que não vamos conseguir escapar da chuva — Isabela comentou, olhando pela janela.
Henrique apertou o volante, observando a estrada de terra à frente. As primeiras gotas começaram a cair, e em questão de minutos, o barulho da chuva intensa ecoava dentro do veículo.
— Se piorar, vamos ter que parar — ele disse, ligando os faróis no máximo para enxergar melhor o caminho.
A estrada, que já era difícil em dias normais, logo se transformou em um lamaçal escorregadio. Henrique dirigia com cautela, mas um trecho mais íngreme e barrento fez com que a caminhonete perdesse a tração. De repente, o veículo deslizou para a lateral e afundou em um buraco de lama.
— Droga! — ele resmungou, batendo a mão no volante.
Isabela olhou para ele, alarmada.
— O que aconteceu?
— Atolamos.
Ela soltou um suspiro e olhou ao redor. A estrada estava deserta, a chuva castigava o vidro e o céu escuro indicava que a tempestade só estava começando.
— E agora?
Henrique pegou o celular no painel e franziu a testa.
— Sem sinal.
Isabela verificou o próprio telefone e confirmou, balançando a cabeça.
— Pelo jeito, estamos por nossa conta.
Henrique tentou engatar a ré e acelerar devagar, mas as rodas giravam em falso, afundando ainda mais.
— Se tentarmos sair agora, só vai piorar — ele disse, desligando o motor.
— Precisamos esperar a chuva passar — Isabela concordou, cruzando os braços. — Mas vai esfriar muito rápido aqui dentro.
Henrique olhou para a parte de trás do carro e pegou um cobertor que mantinha ali para emergências.
— Aqui, pega isso — ele disse, entregando para ela.
Isabela o aceitou com um sorriso de gratidão, mas percebeu que ele não tinha outro para si.
— Você também precisa se aquecer — ela disse, abrindo espaço para que ambos compartilhassem o cobertor.
Henrique hesitou por um momento, mas então cedeu, puxando o tecido sobre seus ombros enquanto se acomodava melhor. O espaço no carro era pequeno, e a proximidade fez com que sentissem a respiração um do outro.
— Bom, pelo menos não estamos sozinhos — Isabela comentou, tentando aliviar a tensão.
Henrique soltou um riso baixo.
— Já passei por muita coisa na estrada, mas ficar atolado numa tempestade com uma veterinária bonita é novidade.
Isabela ergueu uma sobrancelha, fingindo surpresa.
— Foi isso que você quis dizer ou foi só o frio falando por você?
Henrique sorriu, desviando o olhar para a chuva forte lá fora.
— Talvez um pouco dos dois.
O silêncio se instalou entre eles, apenas o som da chuva preenchendo o espaço. Aos poucos, o frio os fez se aproximar ainda mais, seus ombros se tocando de forma natural.
— Me conta mais sobre o festival da cidade — Isabela pediu, tentando manter a conversa.
Henrique relaxou contra o banco.
— Sempre foi uma tradição. Desde pequeno, eu ia com meus pais. Depois que comecei a cantar, me tornei uma das atrações principais. Era um dos meus eventos favoritos…
Ele fez uma pausa, sua expressão se tornando mais fechada.
— Até que tudo mudou.
Isabela o observou com atenção.
— Por causa dela?
Henrique assentiu, respirando fundo.
— Depois que perdi minha esposa, parei de ir. Era como se qualquer coisa ligada à música me lembrasse dela.
Isabela hesitou antes de perguntar:
— E agora? Você sente que pode voltar a isso?
Ele olhou para ela, e por um momento, seus olhos castanhos refletiram algo que Isabela não conseguia decifrar.
— Não sei. Mas talvez seja hora de tentar.
Um trovão ecoou à distância, e Isabela, sem perceber, se aconchegou um pouco mais sob o cobertor. Henrique notou, mas não se afastou.
O destino os havia colocado ali, presos no meio da tempestade, sem escolha a não ser dividir o frio, o silêncio e seus pensamentos.
E naquela noite, algo invisível começou a se formar entre os dois.
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Atualizado até capítulo 70
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