O sol começava a despontar no horizonte quando Isabela despertou, sentindo o calor suave dos primeiros raios atravessando a cortina fina de seu quarto. A lembrança da noite anterior ainda estava viva em sua mente. Henrique se abrira como nunca antes, compartilhando sua dor, suas memórias e, talvez, sem perceber, um pedaço de si que ele guardava a sete chaves.
Após se vestir, seguiu para o estábulo. O cheiro da terra úmida misturado ao aroma característico dos cavalos preenchia o ar. Antônio já estava por ali, dando ordens aos funcionários enquanto os animais eram alimentados.
— Bom dia, doutora! — Antônio saudou, erguendo a aba do chapéu de palha.
— Bom dia, Antônio. Como estão as coisas?
— Tudo correndo bem. Mas... — Ele hesitou por um momento, coçando a cabeça.
Isabela percebeu a pausa e ergueu as sobrancelhas.
— Mas...?
— O patrão... Ele está no celeiro desde cedo. Pegou o violão que ele usava nos shows.
Ela sentiu o coração acelerar.
— Ele está tocando?
— Não sei dizer. Só sei que faz dois anos que ninguém vê esse violão fora do armário.
Intrigada, Isabela caminhou em direção ao celeiro. A porta de madeira estava entreaberta, e a luz dourada da manhã entrava em feixes entre as frestas das tábuas, iluminando a poeira suspensa no ar.
Lá dentro, Henrique estava sentado sobre uma pilha de feno, o violão apoiado no colo. A manga da camisa xadrez estava dobrada até os cotovelos, e o jeans surrado exibia sinais do tempo. Ele parecia perdido em pensamentos, os dedos deslizando de forma hesitante sobre as cordas, como se testasse uma lembrança que há muito tempo não visitava.
Isabela hesitou por um instante antes de entrar.
— Oi...
Henrique ergueu o olhar, visivelmente pego de surpresa.
— Oi... — Sua voz soou rouca. Ele abaixou os olhos para o violão e passou a mão pelo tampo de madeira como se acariciasse um velho amigo. — Acho que faz tempo demais que não toco esse aqui que foi meu companheiro por tantos anos de carreira.
— Mas pensou em tocar — ela observou, se aproximando devagar e se sentando ao lado dele sobre a feno.
Henrique soltou um longo suspiro.
— Depois de ontem à noite, fiquei pensando... A música sempre foi tudo para mim. Mas também foi o que mais doeu depois que perdi a Júlia.
O nome dela soou carregado de emoção, mas Henrique não desviou o olhar, como se, pela primeira vez, estivesse disposto a encarar o passado sem fugir.
Isabela inclinou ligeiramente a cabeça, observando-o.
— E agora? Ainda dói?
Ele ficou em silêncio por um momento. Então, pressionou suavemente as cordas e dedilhou um acorde. O som ecoou pelo celeiro, misturando-se ao leve balançar da palha no vento.
— Acho que não tanto quanto antes — ele disse, a voz quase um sussurro.
Isabela sorriu levemente.
— Você quer tentar tocar uma música?
Henrique soltou um riso seco, balançando a cabeça.
— Não sei se consigo.
— E se você tentasse só sentir? Sem compromisso. Sem cobrança. Apenas... a música.
Ele hesitou. O conflito era evidente em seu olhar. Mas então, respirou fundo e deixou os dedos se moverem.
A primeira nota foi hesitante, tímida, como um eco distante. Mas, aos poucos, a melodia ganhou forma. Era uma música sem letra, apenas acordes suaves, mas carregados de emoção. O som era melancólico, nostálgico, mas também de uma beleza arrebatadora.
Isabela fechou os olhos por um momento, absorvendo cada acorde. O Henrique que estava ali, tocando, não era o astro dos palcos, o ídolo das multidões. Era um homem quebrado, redescobrindo aos poucos a parte de si que havia enterrado junto com a dor.
Quando a última nota se dissipou no ar, Henrique abaixou o violão e olhou para ela.
— Foi um bom começo?
Isabela sustentou o olhar dele e sorriu.
— Foi incrível.
Henrique segurou o violão por um momento a mais, como se estivesse sentindo seu peso não apenas nas mãos, mas na alma. Então, ergueu os olhos para ela novamente.
E, naquele olhar, havia algo novo. Algo que Isabela não sabia nomear, mas que sentiu profundamente.
Talvez, naquele celeiro, sob o som do passado, algo novo estivesse nascendo.
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Atualizado até capítulo 70
Comments
Raquel Martins
Eles estão se tornando confidentes. O amor pode começar assim❤️
2025-03-27
0
Vanusa Crispim Da Silva
começando uma pequena mudança
2025-02-24
0