A noite foi tranquila na fazenda. A lua cheia pairava no céu como uma sentinela prateada, iluminando os vastos campos e lançando sombras suaves sobre os currais e os estábulos. O ar fresco carregava o cheiro da terra e o som distante dos grilos preenchia o silêncio.
Isabela, após um longo dia de trabalho, decidiu dar uma volta pela propriedade para espairecer. Caminhava devagar, abraçando o próprio corpo para se proteger da brisa noturna. Ao longe, viu uma figura solitária encostada na cerca, olhando para o horizonte.
Henrique.
Ele não viu sua presença imediatamente. Vestia uma camisa de manga longa com os punhos arregaçados e jeans desbotados. Havia algo melancólico em sua postura, como se carregasse um peso invisível.
— Noite bonita — Isabela disse suavemente, se aproximando.
Henrique olhou de sorrateiro para ela com um olhar leve, mas não parecia surpreso.
— Sempre gostei do céu daqui. Em qualquer época do ano, as estrelas parecem mais detalhadas.
Ela se apoiou na cerca ao lado dele, observando o mesmo céu.
— Você não dorme muito, né?
Ele soltou um riso baixo.
— Em última análise, não. Há muitas coisas na minha cabeça.
Isabela ficou em silêncio por um momento, respeitando seu espaço. Mas Henrique parecia querer falar, talvez pela primeira vez em muito tempo.
— Você sabe que eu costumava cantar, não sabe? — ele disse, virando o rosto para encará-la.
— Sim — ela respondeu. — Antes de vir para cá, eu ouvi algumas músicas suas. Você era… é um grande artista.
Henrique desviou o olhar para o campo, pensativo.
— Era. —Ele suspirou. — Minha vida era uma correria. Shows, entrevistas, turnês intermináveis. Eu viajava o tempo todo, às vezes passando meses sem voltar para casa. A energia dos palcos, os fãs cantando juntos… era viciante.
Isabela notou o brilho nostálgico em seus olhos, mas logo ele se apagou.
— Mas também era cansativo — ele contínuo. — Eu amava cantar, mas havia momentos em que me sentia... perdido. Como se minha vida fosse apenas um roteiro pré-escrito.
Ela viu uma pausa e esperou.
— Então, eu conheci Júlia. — O nome saiu quase como uma sugestão, transferida de emoção.
Isabela sentiu seu coração apertado.
— Ela mudou tudo pra mim — Henrique prosseguiu. — Ela me fez enxergar a vida além dos palcos. De repente, os hotéis de luxo e os multidões não trazia tanto prazer, quanto voltar para casa e tê-la esperando por mim.
— Quando descobrimos que estávamos esperando um filho, foi o momento mais feliz da minha vida. Eu prometi que iria desacelerar, que seria o marido e o pai presente que meu pai nunca foi para mim.
Isabela sentiu um nó na garganta ao ver a dor em seu olhar.
— Mas... então, tudo desmoronou.
Henrique fechou os olhos por um instante, como se reunisse forças para continuar.
— Um acidente. Rápido demais. Inesperado demais. Um carro desgovernado... e de repente, ela e o nosso bebê se foram.
O silêncio que se somou foi pesado, apenas quebrado pelo vento suave que balançava as folhas das árvores.
— Depois disso, eu não consegui mais cantar — ele confessou. — Nem pegue no violão. A música, que sempre foi minha maior paixão, virou um lembrete constante do que eu perdi.
— Mas eu te vi tocando e cantando naquele dia!— retrucou Isabela o interrompendo.
— Naquele dia nós faríamos dois anos de casados e eu senti que precisava demonstrar de alguma forma o quanto eu sentia falta dela, do seu sorriso, do seu abraço e enfim de tudo que existia em mim e ela levou junto com ela.
Isabela sentiu a dor dele como se fosse sua. Lentamente, ela estendeu a mão e tocou o braço dele, um gesto simples, mas cheio de significado.
Henrique virou-se para ela, os olhos carregados de tristeza, mas também de algo mais. Talvez fosse um problema. Talvez fosse grato por finalmente dividir um pouco do que tanto o atormentava.
— Sinto muito, Henrique — Isabela murmurou.
Ele assentiu, suspirando.
— Eu também.
O vento soprou mais forte, e ela se moveu um pouco mais, sentindo o calor sutil que emanava dele. Por um momento, nenhum dos dois falou. Apenas fiquei ali, sob a luz do luar, compartilhando um silêncio que dizia mais do que qualquer palavra.
E, sem perceber, Henrique deu o primeiro passo para finalmente deixar a dor partir.
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Atualizado até capítulo 70
Comments
Meire
esse capítulo foi intenso, consegui sentir a dor dele ao lembrar de tudo o que aconteceu!
2025-02-26
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Sandra Daniele Reis Araújo
esse capítulo foi maravilhoso 😍
2025-03-21
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Doraci Bahr
que bom que ele se abriu
2025-04-03
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