Era madrugada quando o táxi parou em frente à casa de dona Helena. Ela desceu e abriu o portão devagar, não queria chamar atenção da vizinhança.
A viagem de volta tinha durado pouco mais de uma hora, agradeceu pela outra cidade não ser tão distante, ela não era mais uma jovenzinha e sua coluna reclamou pelas horas que passou sentada na poltrona dura do ônibus.
Entrou em casa devagar, sem fazer barulho para não acordar Elise. Foi para o quarto e se livrou das roupas impregnadas com o cheiro do ônibus. Tomou um banho rápido e em pouco tempo já estava deitada. Olhou para o relógio na mesinha do lado da cama e percebeu que dali uma hora Elise estaria saindo para o trabalho. Decidiu que ficaria mais na cama, ainda não tinha pensado no que diria para a moça.
Dona Helena acabou dormindo mais do que queria, sentiu o corpo dolorido ainda pela viagem e tensão do dia anterior. Levantou e foi direto para o banheiro fazer sua higiene, lembrou de Hugo, precisava ligar e confirmar se ele já tinha deixado o violão no depósito e se alguém tinha desconfiado. Voltou para o quarto e enquanto vestia uma roupa limpa olhou para o porta retrato na sua estante. Na moldura dourada clássica, uma foto da família Conte. Ela, seu marido e seus dois filhos ainda crianças.
De repente uma lembrança muito feliz invadiu seus pensamentos. Era do seu menino ensinando a irmã a andar de bicicleta. Os dois estavam no grande gramado que tinham na mansão que moravam. Helena amava olhar os dois da sacada do quarto. Duas crianças normais brincando juntas sem preocupações, sem saber o que o futuro reservava para os dois.
- Pensando na vida, dona Helena? Elise falou encostada na porta do quarto observando a senhora.
Dona Helena deu um pulo de susto ainda com o retrato nas mãos. Se virou rápido.
- Que susto, Elise! O que está fazendo em casa uma hora dessas? Falou surpresa.
- Hoje é meu dia de folga! Minha escala mudou agora que fui para a ala dos adultos. Disse chegando perto da mulher. – Está tudo bem? Que viagem foi essa que precisou fazer?
- Pois é, a viagem! Disse olhando para ela sem saber o que dizer, não tinha pensado em nada ainda. – Preciso de um café para acordar direito, querida! Vamos lá para a cozinha. Disse colocando o porta retrato na estante novamente.
- Sente muito a falta deles né? Elise perguntou olhando a foto.
- Sim, eu sinto! Ela suspirou.
- Eu queria ter tido irmãos, deve ser ótimo ter com quem brincar. Ela sorriu abraçando os ombros da senhora.
- Pode ter vários filhos para compensar, querida! Dona Helena aproveitou a deixa para mudar o foco do assunto indo para a cozinha. Ainda não tinha encontrado uma desculpa convincente o bastante.
- Não sei nem se vou casar um dia, quem dirá ter muitos filhos. Ela riu.
- Sabe que isso é um absurdo, né? É claro que vai se casar e vai me dar bisnetos adotivos! Piscou para ela. – E o Dr. Bonitão?
- Não tem Dr. Bonitão nenhum, dona Helena. Pare com isso, finalmente o terei paz! Ela ergueu as mãos para cima agradecendo. – Agora posso voltar a viver na minha bolha.
- E a terapia? Dona Helena parou ao lado da mesa encarando Elise.
- Certo, eu vou fazer. Disse de cabeça baixa comendo o seu pão com manteiga.
- Não acredito! Finalmente! Ah, isso é ótimo, querida!
- Vou procurar na semana que vem alguém, feliz? Perguntou levantando os olhos, séria.
- Se eu estou feliz? Não sabe o quanto! Você não está?
- Não, mas você tem razão.
Era nítido o incômodo de Elise, mas um grande avanço para ela.
- A mãe de uma das aluninhas do conservatório é psicóloga, por que não tenta?
- Tá bom. Vou para lá hoje à tarde, preciso organizar meus horários de agora em diante, espero que todos consigam ficar.
- Tem dúvida? Claro que os pais vão te acompanhar, vai dar tudo certo ainda mais com o concerto próximo desse jeito.
- Faltam menos de vinte dias, estou preocupada. Sempre fico com medo de não dar conta.
- Vai dar tudo certo. Você está mais do que preparada.
Há dois anos Elise dava aulas no conservatório da cidade. Era uma das melhores professoras do lugar. Tinham crianças a partir dos 5 anos, mas sua turma era de alunos a partir dos oito aos doze anos, era uma realização para ela.
Suas primeiras aulas quem deu foi dona Helena, uma violinista e violoncelista talentosa, mas que nunca seguiu carreira. Projetou em Elise toda a sua paixão e também frustração em não ter continuado. Mas esse sentimento sempre guardou somente para ela, ninguém precisava saber de mais essa tristeza que guardava em seu coração.
- Sabe que vai ter que estar na primeira fila né? Preciso que esteja lá, senão não vou conseguir. Disse apertando os lábios com força.
- Eu sempre estarei lá, querida! Não se preocupe.
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Atualizado até capítulo 131
Comments
Dulci Oliveira
são tantas teorias que está difícil desvendar esse mistério
2025-01-19
2
Helena
quem será Hugo? o que guardam nesse depósito?? precisamos de pistas.
2025-01-18
2
Claudia
Será que Elise é parente da Helena 🤔🤔🤔🤔🤔♾🧿
2025-01-18
2