Elise levantou mais cedo que o normal, não tinha conseguido dormir direito. A decisão de sair da ala pediátrica do Hospital, a fez sair de sua zona de conforto, ainda mais por estar fazendo isso para fugir dos olhos do doutor que tentava a todo custo conquistá-la. Ela sabia que precisava vencer aquela barreira, o médico tinha várias qualidades, mas simplesmente não conseguia.
Durante a faculdade imaginou que arrumaria um namorado ou ficante como a maioria das colegas, mas não foi assim. Primeiro porque ninguém atraía a sua atenção e depois tentou algumas vezes, mas quando tentavam beijá-la ela afastava todos, tinha horror que algum estranho a tocasse.
Enquanto colocava o café no coador lembrou de dona Helena cobrando que fosse fazer a terapia. Ela sabia que já deveria ter ido, mas tinha medo de não vencer mesmo com ajuda, não aguentaria a frustração de saber que Maristela tinha razão. A voz da tia nunca saía da sua cabeça, mas no decorrer dos anos ela foi silenciando conforme Elise progredia. E como foi difícil sentir a felicidade de cada conquista, sem a ajuda de dona Helena não teria conseguido.
A senhora sempre estava ao seu lado, insistindo nos toques, fazendo Elise compreender que Maristela não tinha razão, que ela capaz de fazer coisas grandes, de ter sucesso, de ter uma família, ser amada. E esses bombardeios de amor diários derrubaram várias barreiras de Elise. Mas a barreira de entender que poderia ser amada por alguém ainda estava lá, firme e forte. A voz da tia estava em sua mente todos os dias dizendo que ninguém amava Elise porque ela não merecia.
- Certo! Soltou o ar com força apoiando as mãos na beira do balcão. – Vamos para a terapia, dona Elise.
- Falando sozinha, querida? Dona Helena entrou na cozinha. – Bom dia! Nossa, por que acordou tão cedo, Elise?
- Não consegui dormir direito, estou nervosa, vou precisar falar com o Dr. Levi para pedir a transferência.
- Ele é uma pessoa maravilhosa, está com medo de quê? Perguntou terminando de arrumar a mesa para tomarem café.
- Ele vai me perguntar o motivo e não vou falar que é por causa do Guilherme. Elise fechou a garrafa térmica com o café e colocou na mesa.
- Diga que está pronta para novos desafios. Ela riu dando uma piscadinha.
- Não é uma mentira, estou desde que era auxiliar de enfermagem trabalhando com as crianças, seria interessante trabalhar com adultos. Olhou para longe pensando.
- Pronto, já achou a sua desculpa. Dona Helena deu um gole no café.
- É, já achei! Sorriu servindo a sua xícara com o café quente.
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Elise estava no posto de enfermagem conferindo as fichas e atualizando as informações sobre os pacientes internados quando a colega chamou para atender ao telefone.
- Oi!
- Oi, Elise! Pode subir que o Dr. Levi já vai te atender. A secretária falou simpática do outro lado da linha.
- Ok, já estou indo.
Colocou o telefone no gancho e a caneta que estava anotando no bolso.
- Vou sair uns minutos, já volto! Disse para a colega que continuou o trabalho.
Andava pelo corredor com a cabeça baixa, os pensamentos a mil imaginando a conversa que teria dali a pouco. Não viu quando Dr. Guilherme saiu de um dos quartos para o corredor e acabaram se trombando.
- Opa! Ele deu risada.
- Ai! Nossa, desculpe! Estava distraída! Disse envergonhada.
- Não se preocupe, é sempre um prazer trombar com você, Elise! Ele sorriu descontraído. – Aonde está indo com tanta pressa?
- O Dr. Levi me chamou. Mordeu os lábios e não falou mais nada, ficou com medo dele perceber que a culpa daquela conversa era dele.
- Fez alguma coisa errada, senhorita Bernardi? Deu um sorrisinho de lado.
- Não, preciso ir doutor! Falou e saiu logo de perto do homem que continuou olhando para ela enquanto se afastava.
Entrou no elevador, apertou o número do andar e começou a apertar as mãos uma na outra nitidamente nervosa. As portas se abriram bem em frente à mesa da secretária do chefe da Oncologia Infantil.
- Oi, Elise! Pode entrar que ele está esperando.
Elise acenou com a cabeça e entrou na sala imponente, mas ao mesmo tempo acolhedora por ter ali um dos médicos mais humanos que ela conhecia.
- Bom dia, Dr. Levi! Ela sorriu estendendo a mão para ele.
- Bom dia, Elise! Espero que esteja tudo bem com você, estranhei quando quis conversar. O que precisa?
- Ah, sim! Está tudo bem comigo, não tem nada de errado. Sorriu nervosa. – Eu pedi para agendar um horário porque preciso pedir uma coisa para o senhor. Mordeu o lábio preocupada se tinha feito certo.
- O que precisa me pedir? Ele sorriu esperando ela falar.
- Então doutor, o senhor sabe que estou na onco infantil desde que entrei aqui como auxiliar de enfermagem, são muitos anos trabalhando com as crianças e eu amo trabalhar com elas, mas estava pensando que talvez seja hora de um novo desafio! Lembrou de dona Helena na hora.
- Sim, me lembro de você jovenzinha quando entrou no hospital, sempre fez um excelente trabalho com as crianças! Uma pena eu não ter conseguido ver você tocar para a paciente que acabou o tratamento.
- Quem sabe eu não toque outro dia para todos, as crianças amaram!
- Sim, faça isso! Mas voltando ao assunto, então você quer sair da onco infantil?
- Eu gostaria de ser transferida, doutor. Vou ficar grata para onde me mandar, ainda não trabalhei com adultos, seria interessante.
- Entendi. Bom, eu particularmente não gosto de deixar as pessoas trabalhando com o que não querem e se quer transferência eu vou te dar. Estamos com duas enfermeiras a menos no nosso quadro, estão em licença, você pode entrar no lugar de uma delas, o que acha?
- Seria ótimo. Ela sorriu apertando uma mão na outra.
- Então ficamos assim, Elise! Você sai da onco infantil e sobe aqui para o segundo andar para cuidar dos adultos daqui por diante. Espero que goste tanto quanto dos nossos pequenos.
- Vou sentir muito a falta deles, mas preciso dessa nova experiência. Vai dar tudo certo.
- Vai sim, tenho certeza. Vou pedir para minha secretária falar com o RH e você já começa seu turno aqui amanhã, tudo bem? Levantou da cadeira estendendo a mão para Elise encerrando a conversa.
- Por mim tudo bem! Obrigada Dr. Levi. Levantou apertando a mão do chefe um pouco menos nervosa.
Ele a levou até a porta e chamou sua secretária. Elise entrou no elevador descendo para o andar da oncologia infantil, agora teria que dar a notícia para os colegas.
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- Ah, Elise! Vou sentir tanto sua falta! Janaina abraçou a colega forte.
- Sei, você vai sentir falta das barrinhas de cereal com chocolate que pegava no meu armário, isso sim! Deu risada.
Logo todos os colegas se dispersaram e voltaram ao trabalho, Elise também voltou separando as medicações que seriam aplicadas nos pacientes na próxima hora.
- Elise, que história é essa que vai sair daqui? Dr. Guilherme chegou perto dela com um olhar confuso.
Elise olhou nos olhos azuis dele e se perguntou se depois da terapia teria coragem de enfrentar seus medos e dar uma chance para aquele homem tão bonito.
- Pois é, vou encarar novos desafios, doutor. Nunca trabalhei com adultos, vai ser uma experiência diferente. Sorriu.
- Você pediu para ser transferida ou ele fez isso?
- Fui eu que pedi.
- Por um acaso, você fez isso por causa de mim?
- Imagina, claro que não, doutor.
- Eu odiaria saber que fez isso por causa de mim, Elise. Não quero te prejudicar de jeito nenhum, pelo contrário. Se de alguma forma eu te chateei eu posso me afastar, me desculpe, às vezes, eu posso ser meio insistente. Sorriu envergonhado.
- Não é por culpa sua, doutor. Mentiu. – Eu quero trabalhar com adultos agora, vai ser bom.
- Tudo bem, pensando pelo lado profissional você está certa, precisa dessa experiência, agora pensando pelo lado que eu não vou te ver mais todos os dias é ruim. Ele fez uma cara triste e Elise teve que rir.
- Trabalhamos no mesmo hospital, doutor. Elise nem sabia o porquê tinha falado aquilo, mas queria acabar aquela conversa logo.
- É verdade, estaremos no mesmo prédio. Piscou para ela.
- Preciso terminar umas coisas, doutor. Começo amanhã lá em cima. Disse passando para o outro lado do balcão do posto.
O médico ficou olhando para ela se afastar e suspirou.
- Vou sentir sua falta, Elise! Piscou para ela sorrindo virou as costas e saiu pelo corredor.
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Atualizado até capítulo 131
Comments
Anete Silveira
Esse Dr Guilherme será que vai dar dor de cabeça para o Ronald? 🤔
2025-01-16
2
Helena
ah Elise,vc já venceu tantos desafios na vida.vc é muito forte,e merece ser muito amada.
2025-01-16
0
Helena
os amigos do abrigo,nunca mais se viram?
2025-01-16
1