Elise organizou a louça e foi até a varando buscar suas coisas, a chuva não dava trégua. Olhou para os lados observando melhor o lugar. Era uma casa bonita, mas dava para ver que era bem antiga. Tinham plantas por todos os lados.
- Ela deve gostar mesmo de plantas. Como será que ela dá conta de tudo isso morando sozinha? Pensou.
- Elise? Dona Helena apareceu na porta. – Arrumei as roupas para você, traga suas roupas para estender lá atrás na lavanderia.
Ela acompanhou a senhora, passou pela sala e olhou o livro de novo, fazia tempo que não lia.
- Pode pegar ele para ler se quiser! Pegou o livro e entregou para ela. – Já perdi as contas de quantas vezes já li.
- É o meu livro preferido! Elise pegou.
As duas entraram na lavanderia e dona Helena ajudou a estender as roupas da menina, colocaram o tênis para secar e foram para os quartos.
- Vai dormir aqui! A cama está pronta e tem um banheiro que você pode usar. Separei um pijama antigo meu, acho que vai ficar grande! Deu risada apontando para os quadris. – Descanse tranquila, menina! Você está precisando. Olhou para ela com pena. - Meu quarto é no fim do corredor, se precisar de alguma coisa é só bater. Ela fez menção de colocar a mão no ombro de Elise que se esquivou de novo indo para perto da cama.
- Muito obrigada por tudo, dona Helena. Se a senhora precisar de alguma coisa é só chamar.
- Tá bom! Boa noite, querida. Ela saiu do quarto fechando a porta.
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Elise estava deitada de barriga para cima na cama macia, olhou para a janela coberta por uma cortina clara e fina e ouvia a chuva caindo forte. Fechou os olhos sentindo o cheiro de amaciante dos lençóis e se perguntou quando foi a última vez que se sentiu tão confortável num lugar. Lembrou do abrigo, lá não era tão confortável por serem muitas crianças, mas com certeza era milhões de vezes melhor que os lugares que tinha vivido com a tia.
Pensou na tia e sabia que ia escutar muito por não ter voltado para casa. Achava ridículo, como se a mulher se preocupasse com ela. O interesse era só no dinheiro, que era contado, mas que tinha que dar todos os dias para sustentar as drogas que ela usava. Cada dia mais viciada. Elise desejou várias vezes que ela tivesse uma overdose para acabar com todo aquele sofrimento. Nunca teve paz depois que saiu do abrigo. A pessoa que teoricamente tinha que cuidar dela e amá-la a odiava e maltratava, tinha certeza de que ela se divertia fazendo isso, falava sempre que ela tinha que ser bem recompensada por cuidar do estorvo que era Elise na sua vida.
Suspirou e afastou os pensamentos. Sentou na cama e olhou para o livro em cima da mesinha do lado da cama, quis ler algumas páginas, mas tinha que acordar cedo. Foi até a mochila pegar o que tinha de mais importante naquele momento, uma foto dos pais que sempre carregava. Tudo que era dos dois a tia se desfez, como ela era pequena nem podia questionar. Algumas fotos conseguiu guardar quando viu tudo sumindo.
Voltou para a cama e ficou olhando para a foto. Passou os dedos pelo rosto da mãe e do pai e sorriu. Sempre fazia força para lembrar das conversas, algumas memórias estavam indo embora e ela não queria perder nada. Certa vez começou a escrever tudo que lembrava num caderno, mas a tia fez questão de sumir com ele também. Colocou a foto embaixo do travesseiro e fez uma oração agradecendo a Deus por estar ali naquela cama, por ter comido bem e por ele ao invés dele ter mandado o raio que ela pediu, mandar uma senhora que cozinhava bem.
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Elise acordou com uma claridade no rosto, virou de lado na cama sentindo seus músculos descansados. De repente a realidade bateu forte na sua cara. Sentou na cama de uma vez e olhou pela janela vendo o sol alto.
- Não! Não pode ser! Pulou da cama e pegou o celular vendo a hora. – São dez horas! O despertador não tocou? Olhou de novo e viu que tinha tocado mas ela não acordou. – Droga, preciso correr! Aquele gerente vai me mandar embora, certeza! Saiu do quarto rápido e sentiu o cheiro de café vindo da cozinha. Correu até a lavanderia pegar suas roupas e passou pela senhora que estava com uma xícara na mão.
- Dona Helena, preciso ir! Vou me trocar, estou atrasada para o trabalho. Correu para o quarto e colocou as roupas de qualquer jeito, foi até o banheiro escovou os dentes com o dedo e ajeitou os cabelos num rabo de cavalo. Saiu depressa e encontrou a senhora na sala.
- Elise, tome um café antes de ir já está atrasada mesmo.
- Não posso perder esse emprego, dona Helena, não posso! Muito obrigada por tudo. Foi saindo sem se despedir, mas parou e pensou um pouco olhando a mulher nos olhos, esticou sua mão e dona Helena pegou apertando. Elise soltou rápido como se tivesse levado um choque. Virou e saiu correndo pela calçada que ainda estava molhada.
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- Por favor, Seu Renato me dê uma chance! Eu perdi a hora não vai acontecer de novo, juro! Elise estava implorando para o chefe que tinha acabado de demiti-la.
- Não, Elise! Te agradeço por seu empenho, mas não posso mais ficar com você, uma funcionária perguntou o que uma menor estava fazendo aqui, eu teria que te dispensar de qualquer forma. Pedi para a moça do financeiro pagar o seu salário desse mês e do seguinte para te ajudar até arrumar outro trabalho. Esticou um envelope na direção dela.
Elise ficou tão triste e quase chorou, mas se controlou. Suspirou fundo e levantou da cadeira.
- Muito obrigada por me deixarem trabalhar aqui esse tempo e por me pagarem a mais. Sorriu fraco e saiu da sala.
Do lado de fora pegou o rumo de casa andando devagar já pensando onde esconderia o dinheiro para a tia não pegar, pensou em dona Helena.
- E se pedir para ela guardar? Nem conheço ela direito, melhor colocar no tênis.
Parou do lado do prédio, colocou todo o dinheiro dentro da meia e calçou de novo. Subiu as escadas devagar se preparando para a briga.
Quando chegou em frente à porta do apartamento estava preparada para algo ruim, mas nada a preparou para o que viu assim que abriu a porta.
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Atualizado até capítulo 131
Comments
Helena
afffffff.tomara que a megera morreu de overdose
2025-01-14
3
Dulci Oliveira
quando penso que vai melhorar lá vem bomba de novo
2025-01-18
2
eliete Silva
concerteza dona Helena vai ser um anjo que Deus colocou na vida de Elise
2025-02-14
1