Mas o que aconteceu aqui? Elise estava parada no meio da sala chocada com o que viu.
Tudo estava revirado. O sofá e a poltrona estavam de cabeça para baixo e foram cortados em várias partes, o armário da sala no chão com as portas quebradas, os armários da cozinha abertos, a pouca comida que estava nos armários e na geladeira estava esparramada pelo chão.
- Não é possível, meu Deus! Elise andava pela casa sem saber o que fazer.
Nos quartos os colchões revirados e cortados, as roupas bagunçadas, gavetas no chão, uma bagunça. No banheiro o armário estava quebrado e o vaso tinha sido retirado do lugar. O chão estava cheio de água porque tinham quebrado o cano.
O apartamento estava um verdadeiro caos. Elise parou olhando para tudo aquilo e se lembrou da tia.
- Ela não está aqui!
Elise abriu a porta e saiu no corredor sem saber o que fazer, de repente o vizinho da frente abriu a porta devagar e colocou a cabeça para fora.
- Você está sozinha? Perguntou para ela.
- Sim, o senhor sabe o que aconteceu?
- Vieram uns homens aí e quebraram tudo, bateram aqui procurando pela Maristela, pareciam bandidos. O homem falava assustado. – Eles estavam procurando alguma coisa, Elise, e queriam falar com ela.
- E ela? Elise também falava baixo.
- Ela saiu uns minutos antes, parecia que sabia que eles estavam vindo. Tinha um homem com ela que chegou gritando para ela pegar as coisas e sair do apartamento, não demorou vinte minutos e os homens chegaram, quase pegaram os dois.
Elise começou a andar de um lado para o outro preocupada.
- Eles quebraram todo o apartamento, a comida está no chão, não tem nada inteiro. Ela baixou a cabeça negando.
- Elise, me escute. Você é uma boa menina, a sua tia que é um problema. Os homens que estavam atrás dela vão voltar, vá embora daqui agora e não volte! Falou firme. – Eu acho que eles não sabiam que você morava com ela porque bateram aqui fazendo perguntas e não falaram nada. Aproveite e vá embora!
- Obrigado, o senhor tem razão. Vou pegar algumas coisas e sair daqui.
- Você não está entendendo, menina! Deixe tudo aí e vá embora agora! Os homens devem estar por aí esperando ela voltar, o que ela tinha guardado era coisa grande. Agora vou fechar a minha porta e fingir que nunca falamos, desejo que as coisas deem certo para você, Elise, Deus te acompanhe. E fechou a porta.
Elise fez o que o vizinho pediu na mesma hora, desceu rápido as escadas, precisava sumir dali. Saiu do prédio com a cabeça baixa, mas estava perdida, não sabia para onde ir. Olhou para frente e avistou o portão escuro da casa de dona Helena, não pensou duas vezes e caminhou até lá fingindo normalidade, mas queria sair correndo.
Parou na frente e tocou a campainha, o tempo que levou para dona Helena abrir pareceu uma eternidade.
- Elise! Que bom que voltou!
Ela não esperou a senhora convidar para entrar, passou por ela rápido.
- Desculpe, dona Helena! Eu não tenho para onde ir e vim para cá, entraram na minha casa e está tudo revirado, não posso ficar lá! Falava sem parar. – Minha tia não está lá, não sei para onde ela foi! Me perdoe entrar aqui assim, a senhora nem me conhece direito! Parou colocando as mãos na cintura e olhando para cima, tentando se acalmar.
- Calma! Respire devagar. Se aproximou para abraçá-la mas Elise deu um passo para trás, se afastando. – Venha, vamos entrar e tomar uma água, você me conta essa história direito.
Elise olhou para o portão com medo e seguiu a mulher.
---
- Essa é minha vida, dona Helena. Elise suspirou fundo depois de contar tudo. - Só uma pessoa sabia de tudo isso, eu nunca quis que soubessem porque não adiantava, ninguém podia me ajudar e nem queriam, na verdade. A Maristela é uma cruz que tenho que carregar, ela sempre disse isso. Falta pouco para eu me livrar dela, em menos de dois anos eu faço dezoito, aí eu posso sumir.
Dona Helena olhava compadecida para a menina que estava na sua frente.
- Eu não quero que fique com pena de mim, se aconteceu tudo isso tinha que acontecer. O mundo é isso, frio e calculista com algumas doses de felicidade perdidas por aí que eu ainda não achei. Talvez eu não mereça essas doses, a Maristela sempre disse isso, mas ninguém é feliz o tempo todo né? Então estou dentro da normalidade. Sorriu irônica. - Desculpe vir para sua casa e despejar tudo isso, eu não tinha para onde ir.
Dona Helena deixou que ela falasse tudo que precisava. Sentiu que ela precisava desabafar. Olhava para ela sem saber o que dizer. Ouvir aquela menina magrinha e mal cuidada na sua frente falar sobre todos os abusos que sofreu e todo sofrimento que enfrentou ao longo dos anos vivendo com a tia destroçaram o coração dela. Saber que uma pessoa como Maristela tinha maltratado uma criança durante quase sete anos deixou ela pensativa, então ela entendeu o motivo de Elise não deixar ela se aproximar. A tia fez uma lavagem cerebral na menina, fazendo ela acreditar por todo esse tempo que ela não merecia e nem seria amada por ninguém na vida, que não seria feliz. Por isso, o olhar de Elise era triste e vazio, ela não tinha amor e nem esperança mais dentro dela.
- Eu não vou ter pena de você, Elise. Eu tenho raiva da pessoa que fez você passar por tudo isso, você não merecia. O que ela te dizia não é verdade, a felicidade, em pequenas ou grandes doses está aí para todos, você vai ver. Ela é um monstro, mentirosa, não te deu o carinho e amor que precisava.
- Eu não acredito em amor, ele não é para mim, dona Helena. Disse firme com um olhar duro. – Eu posso ficar aqui na sua casa hoje? Amanhã vou atrás de um lugar, eu fui mandada embora também, pelo menos me pagaram a mais aí consigo me virar. Sorriu sem ânimo.
- Claro que pode, fique o tempo que precisar. Disse levantando da cadeira. - Vamos comer alguma coisa? Você não tomou café da manhã, deve estar com fome.
Ela foi atrás da mulher, estava com muita fome mesmo. Chegaram na cozinha e Elise observou melhor o lugar. Os móveis eram antigos, mas bem cuidados, tudo muito claro e limpo. Viu no canto do balcão uma caixa com muitos remédios, por instinto chegou perto para olhar.
- Sim, antes que pergunte, são todos meus! Dona Helena riu. – Eu preciso tomar todos os dias essa coleção que está aí. Disse tirando um pacote de carne da geladeira.
- Nossa, são muitos, eles são para quê? Perguntou curiosa, mas logo se arrependeu. – Desculpe, a senhora não precisa resp...
- Eu tenho um câncer, Elise, estou tentando me livrar ele.
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Atualizado até capítulo 131
Comments
Alexandra Mara
Que triste mais isso dona Helena está com câncer
Que triste realidade para Elise
2025-03-24
3
Rut Arving
Depois de tanto sofrimento, a única pessoa que lhe estendeu a mão, futuramente não estará presente para lhe ajudar. Chorei !
2025-03-30
1
Antonia L Castro
Ah, não! 😔
2025-01-26
2