Elise endireitou o corpo ao ouvir aquilo, ficou sem saber o que falar.
- Sou reincidente de um câncer de mama, meu tumor voltou depois de três anos que eu tinha feito o tratamento e teoricamente me curado. Ela mexeu na panela que estava no fogo. – Então estou fazendo a quimioterapia, faço a aplicação de quinze em quinze dias e tomo meus remédios religiosamente. Virou para Elise passando as mãos no avental. – Vou fazer um macarrão de novo! Sorriu. – Sei que você gosta.
- Obrigada. Ela respondeu baixo.
- Não fique assustada, o câncer é uma doença grave, mas é uma doença, não tem o que fazer. O tratamento é muito difícil, às vezes, temos vontade de desistir de tudo, mas isso não é uma opção para mim. Colocou a outra panela no fogo. – Eu preciso viver, tenho muito o que resolver ainda na minha vida, preciso consertar algumas coisas. Suspirou. – Logo o macarrão fica pronto, você me ajuda a arrumar a mesa?
- Eu percebi que a senhora mora sozinha aqui, dona Helena. Sua família mora aqui na cidade? Perguntou enquanto colocava os talheres limpos no escorredor de louças.
Dona Helena estava de costas para Elise, passando um pano na mesa. Parou o que estava fazendo e ficou com o corpo rígido quando ouviu a pergunta da outra.
- Eu não tenho ninguém também, como você. Voltou a passar o pano. – Eu perdi minha família há muitos anos, ela se desfez. Fechou os olhos com força lembrando de alguma coisa. – Não falo muito sobre isso. Disse encerrando o assunto. – Bom, já terminamos por aqui, agora vamos para a sala, precisamos conversar.
Elise ficou tensa na hora, sabia que essa hora chegaria. Sentiu o coração apertado de tristeza, aqueles poucos momentos ali com a senhora acenderam algo dentro dela, algo que ela já estava tratando de enterrar, mas que doeu mesmo assim. Sentou no sofá de frente com dona Helena que estava na poltrona. Começou a falar.
- Não se preocupe, eu só vou ficar aqui hoje mesmo. Amanhã cedinho eu saio atrás de um lugar para ficar, já pensei em alguns lugares que ficam perto da minha escola. Ela disse rápido.
- Do que está falando, menina? Acha que vou pedir para você ir embora? Deu uma risada. – Eu tenho uma proposta para você, escute tudo e depois você responde. Piscou para ela. – Eu preciso de uma pessoa aqui comigo, não sou mais jovenzinha e esse segundo tratamento está mais difícil que o primeiro, a quimioterapia, a medicação, tudo é mais forte e meu corpo está bem debilitado. Amanhã é dia de tomar minha dose de quimio e os dias que seguem são terríveis, uma enfermeira vem aqui nos três primeiros dias porque não consigo fazer nada, eu preciso de ajuda.
Elise ouvia atentamente, mas não parecia ter entendido o que a mulher queria dizer.
- Eu pensei que ter ajuda o tempo todo seria muito bom, na verdade. Ter companhia também, depois de te ouvir percebi que precisamos deixar as pessoas entrarem em nossas vidas. Suspirou olhando para um ponto qualquer na parede. – O que acha de trabalhar para mim, Elise? Você me ajuda nos dias difíceis e no que precisar, você pode morar aqui comigo também.
- Trabalhar aqui? Tipo um emprego em casa?
- Isso, você trabalhar comigo, me ajuda com os remédios, nos dias difíceis depois da quimio, nas consultas e mora no seu trabalho. Você vai ganhar um salário e vai poder economizar porque não vai precisar gastar com aluguel e comida, o que acha?
Uma alegria invadiu Elise, sentiu um quentinho no coração. Mas logo se endireitou tomando o controle de novo. Era algo ótimo, mas precisava se resguardar.
- Você pode pensar antes de me responder. A senhora disse.
- Não preciso pensar, se a senhora acha que eu sou capaz e me quer aqui eu aceito. Disse sem pestanejar. – Mas não aceito não pagar nada, eu quero ajudar com as despesas. Falou séria.
- Se você faz tanta questão, podemos achar algum boleto para você pagar! Disse rindo. – Você pode começar amanhã, então? Vai me acompanhar para eu tomar minha dose da quimio.
- Claro, a senhora só precisa me explicar o que fazer. Falou levantando rápido. – Muito obrigada, dona Helena. Esticou a mão apertando. – Agradeço a chance, vou dar o meu melhor!
A senhora pegou na mão de Elise apertando, preferia dar um abraço na menina, mas se contentou com o aperto de mão, era o que Elise podia oferecer, mas ela estava disposta a mudar isso ao longo do tempo.
Elise Rodrigues Bernardi - 21 anos
- Bom dia, Elise! Que animação é essa? A mulher sorriu desconfiada.
Elise olhou para a colega tirando sua jaqueta e colocando dentro do armário. Pegou o jaleco cor de rosa e colocou fechando todos os botões com cuidado.
- Hoje uma pacientinha vai embora! Deu um sorriso largo. – E eu vou fazer uma surpresa para ela depois que tocar o sino! Estou ansiosa!
- Estou vendo! Ah, fico tão feliz quando eles conseguem ir embora, fico emocionada. Eu vou embora daqui a pouco, meu turno acabou, não vou ver, qual vai ser a surpresa?
- É uma surpresa, Renata! Não posso contar, que pena que não vai ficar, mas amanhã eu te mostro. Agora deixe eu ir que preciso ajudar a preparar a menina do quarto nove, hoje vão fazer uma pulsão nela e quero fazer isso com calma. Disse suspirando.
- Boa sorte, amiga! Tenho tanto dó daquela criança. Disse apertando os lábios. – Bom, eu vou indo, até amanhã! Beijou a bochecha de Elise e saiu do lugar.
Elise se olhou no espelho que deixava dentro do armário e ajeitou os cabelos num coque apertado. Arrumou os fios que ficaram soltos para ficar bem alinhada, conferiu se estava tudo certo com sua roupa e abriu a porta sendo tomada pelos sons do corredor do Hospital.
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Atualizado até capítulo 131
Comments
Helena
parece que a vida deu uma trégua pra Elise.mas ela continua na luta,essa profissão é linda .
2025-01-14
4
Antonia L Castro
Elise se tornou uma mulher muito bonita! 🥰
2025-01-16
3
Marcia Emerich
Que bom pra Elisa, conseguindo seguir a vida.
2025-01-15
3