20. A última fagulha

De manhã, o sol mal havia surgido no horizonte quando Emma começou a arrumar suas coisas. Aquele era o dia de sua partida, e o peso da despedida a deixava inquieta. Ela dobrava suas roupas com cuidado, mas seus pensamentos estavam longe. Ethan e Lydia passavam pelo quarto ocasionalmente, mas Lydia evitava qualquer troca de palavras prolongada. Ela parecia ansiosa, como se algo também a incomodasse, mas preferia se manter calada.

Do outro lado, Cauê já estava acordado há muito tempo. Ele havia se levantado antes do nascer do sol e se jogado no trabalho pesado da fazenda, tentando afastar o turbilhão de emoções que sentia, com a partida da América.

Ele evitava os olhares de todos, especialmente de Lydia. Seu comportamento chamou a atenção de Pedro Lobo, que, como sempre, observava silenciosamente, entendendo mais do que deixava transparecer.

Enquanto isso, Sinval se reunia em um ponto afastado da fazenda. Com o telefone em mãos, ele fazia uma ligação para a madeireira.

— Eles estão aqui. Alguns lobos americanos. — Disse Sinval, tentando esconder a irritação na voz.

— Lobos americanos? Interessante. — A voz do outro lado soava fria e calculista. — Devem estar atrás do antídoto. E você sabe o que fazer.

— Eles estão causando problemas. — Sinval hesitou. — Preciso de recursos para garantir que o Dimas seja retirado do poder.

— Dê um jeito neles. Se conseguir fazer com que eles não voltem para os Estados Unidos, melhor. E lembre-se, o acordo será exclusivamente conosco, não com eles. Pagaremos o que for necessário pelo Ibirapê, mas não queremos interferências.

— Entendido. — Disse Sinval, antes de desligar.

Ele reuniu quinze homens da região, todos de confiança, e partiu em direção à fazenda. Estava decidido a confrontar Dimas e provar sua força, usando a presença dos estrangeiros como pretexto.

Na fazenda, Cauê percebeu a movimentação estranha. Jucá logo se aproximou, notando o comportamento incomum dos homens que se aproximavam.

— Lobos-guarás não andam assim, em bando, e nunca atacariam desse jeito. — Disse Jucá.

— Não são lobos-guarás comuns. — Respondeu Cauê, já se preparando para agir.

Os dois se transformaram em lobos-guarás, alertando Pedro Lobo, que apareceu com sua espingarda. Mas antes que pudesse atirar, foi derrubado por um dos atacantes. Transformado, Pedro lutava com destreza, enquanto Cauê e Jucá enfrentavam os invasores com fúria.

O barulho chamou a atenção de Dimas, que imediatamente correu para ajudar. Ele se transformou e atacou com força, enquanto Emma, Ethan e Lydia ouviram a confusão. Emma foi a primeira a correr, seguida por Ethan e Lydia, que se transformaram em lobos cinzentos e se juntaram à luta.

Aruanã, sem entender completamente o que estava acontecendo, tentava manter os familiares mais velhos seguros dentro da casa. Seu coração estava acelerado, vendo o caos se desenrolar diante de seus olhos.

Apesar do número dos invasores, a combinação de forças dos lobos-guarás e dos americanos foi suficiente para derrubá-los. Um a um, os atacantes foram derrotados e forçados a recuar. Sinval, vendo que a batalha estava perdida, se transformou de volta em humano, com um olhar de fúria.

Lydia, ainda na forma de lobo, deu um passo à frente, transformando-se em seguida.

— Parece que você não aprendeu da última vez. — Disse ela com frieza.

Sinval hesitou, mas recuou, com um olhar de ódio para todos ao redor. Ele e seus homens fugiram, deixando apenas o rastro de sua derrota.

Os que ficaram trocaram olhares de alívio e cansaço. A ameaça havia sido afastada, pelo menos por enquanto.

...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...

Para Dimas, a situação estava clara como nunca antes. O traidor era Sinval. Ele nunca simpatizou com o rapaz, mas havia dado sua palavra para casar Aruanã com ele quando ainda era jovem, antes que Sinval mostrasse seu verdadeiro caráter. A dor dessa escolha recaía sobre Dimas, que, mesmo percebendo a deterioração de Sinval, sentia o peso de uma promessa feita.

Mandou chamar Caíque, o pai de Sinval, que chegou com o semblante pesado, sabendo o que estava por vir. Sem rodeios, Dimas o confrontou:

— Você sabe que não posso ignorar isso, Caíque. Seu filho e Julião estão tramando contra mim e contra nossa família. Por que você nunca me contou?

Caíque abaixou a cabeça, respirou fundo e respondeu:

— Eu tentei controlá-lo, mas o dinheiro mudou Sinval. Ele e Julião estão comprando apoio com as notas que recebem de fora. Não sei como pará-lo, Dimas, ele não me escuta mais.

Dimas apertou os punhos. Embora ainda tivesse o apoio da maioria, ele sabia que o poder do dinheiro era uma arma perigosa nas mãos de Sinval.

(...)

Mais tarde, Emma estava prestes a partir. Seus olhos estavam pesados, e o coração mais ainda. Aruanã, parada na varanda, não conseguia esconder as lágrimas. Quando Emma se aproximou, tentou sorrir, mas as palavras que saíram eram um reflexo da dor.

— Eu queria que você ficasse. — Disse Aruanã, a voz tremendo.

— Eu também queria. — Emma tocou suavemente o rosto dela, enxugando as lágrimas com o polegar. — Mas você sabe que eu preciso ir. Nosso povo precisa de mim.

As duas se olharam em silêncio. Não havia necessidade de palavras. Emma a abraçou com força, sentindo o calor do corpo de Aruanã e prometendo para si mesma que um dia voltaria. Quando se separaram, Aruanã soluçou, o coração partido.

Emma entrou no carro com Ethan e Lydia. À medida que o veículo avançava, ela olhou para trás e viu Aruanã desaparecer no horizonte. Mas o silêncio logo foi quebrado.

Dois carros apareceram de repente, ultrapassando e cercando o veículo de Emma. Ethan, que dirigia, tentou manter o controle, mas os veículos começaram a forçar o carro a sair da estrada.

— Eles não vão nos deixar ir! — Gritou Lydia, segurando-se no banco.

Emma olhou para trás e reconheceu Sinval e seu grupo de homens. Eles estavam ali para impedir que o antídoto deixasse o Brasil. Quando os carros bloquearam a passagem, uma guerra começou.

Lobos-guarás surgiram do grupo de Sinval, atacando rapidamente. Eram desajeitados e mal treinados, mas ainda assim numerosos. Emma, Lydia e Ethan saíram do carro, transformando-se imediatamente. Os lobos cinzentos americanos enfrentaram os invasores com força e agilidade, mesmo em desvantagem numérica.

— Eles não são tão bons quanto nós. — Ethan rosnou enquanto derrubava dois com facilidade. Mas a luta era desigual. Sinval trouxe mais homens, e logo estavam cercados.

Pedro Lobo, que havia seguido o grupo discretamente, atacou de surpresa. Como lobo-guará, derrubou três inimigos em um só movimento, mostrando porque era tão temido. Emma enfrentava cinco lobos ao mesmo tempo, mas sua destreza e força prevaleceram.

Ethan, por outro lado, estava prestes a ser dominado, quando Pedro o resgatou. No entanto, um disparo cortou o ar. Julião, escondido entre as árvores, atirou diretamente na direção de Lydia. Antes que ela pudesse reagir, um lobo-guará se jogou na frente da bala.

Era Cauê.

Ele caiu transformando-se em humano, enquanto Lydia correu até ele, desesperada.

— Não... Não, Cauê! — Ela gritou, ajoelhando-se ao lado dele. — Por favor, amor, não morra!

Mesmo fraco, Cauê abriu um sorriso.

— Amor? — Disse ele, com a voz rouca. — Uma americana derretida por mim? Não achei que viveria para ouvir isso.

Emma e Ethan ficaram chocados. Nenhum deles sabia sobre os sentimentos de Lydia e Cauê. Mas antes que pudessem reagir, Sinval e seu grupo fugiram, percebendo que haviam perdido a batalha.

Pedro Lobo garantiu que cuidaria de Cauê e que ele ficaria bem. Mas Lydia não queria deixá-lo.

— Eu não posso ir embora! — Disse ela, segurando a mão de Cauê com força.

— Lydia, precisamos ir. — Disse Ethan. — Nosso povo precisa de nós.

Pedro olhou nos olhos de Lydia.

— Ele vai ficar bem. Nós somos mais fortes do que parecemos. Vá. Salvem os seus. — Disse Pedro.

Com lágrimas nos olhos, Lydia foi arrastada por Ethan e Emma de volta ao carro. Cauê, mesmo ferido, tentou sorrir para tranquilizá-la.

Enquanto o carro se afastava, Lydia olhou para trás, vendo Pedro e o resto da família Pari carregando Cauê para a segurança.

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Comments

Claudia Ramos

Claudia Ramos

pelo amor das minhas duas lobinhas
não vai deixar o Sinval ganhar uma briga, combinado?

2024-12-19

1

Ana Faneco

Ana Faneco

Continua autora querida amando a história 😍

2024-12-19

1

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