8. Toda ajuda é necessária

Pedro Lobo andava pela varanda da fazenda, os pensamentos a mil. Algo estava errado, e ele sabia disso desde o momento em que carregou Emma até o quarto. Agora, o cheiro que havia sentido tanto nela quanto em Ethan não saía de sua mente. Ele sabia reconhecer o cheiro de lobo, mesmo que não fosse de um guará como ele. Preocupado, foi procurar Dimas.

Dimas estava na sala principal, sentado em sua cadeira de madeira, os braços cruzados e o semblante cansado. Quando Pedro entrou, ele levantou o olhar.

— Pedro, o que houve? Você está com essa cara desde cedo. — perguntou Dimas, franzindo o cenho.

Pedro respirou fundo, hesitando antes de falar.

— É sobre os seus hóspedes, Dimas. Tem algo errado com eles.

Dimas endireitou-se na cadeira, agora mais atento.

— Errado como?

Pedro se aproximou, abaixando o tom de voz.

— Quando carreguei aquela moça, a Emma, eu senti um cheiro. Um cheiro que eu reconheço. O mesmo aconteceu com o Ethan.

Dimas ficou em silêncio por um momento antes de perguntar:

— Cheiro de quê, Pedro? Seja mais específico.

Pedro o encarou, sério.

— De lobo.

A expressão de Dimas mudou imediatamente, os olhos se estreitando em preocupação.

— Você tem certeza?

— Não tenho a menor dúvida. Eles são lobos, e creio que são da espécie que vive na América do Norte.

Dimas esfregou o rosto com as mãos, claramente incomodado.

— Isso é tudo o que precisamos… problemas com lobos de fora. Já temos o bastante para lidar aqui.

Pedro assentiu, mas continuou:

— Não estou dizendo que são uma ameaça, Dimas, mas a garota está muito mal. E se ela for mesmo um lobo e precisar de ajuda? Se um médico descobrir o que ela é, pode acabar vindo atrás de nós. Todo o nosso segredo, tudo o que mantemos guardado por anos, vai por água abaixo.

Dimas ficou pensativo, com o rosto sério.

— Não temos muitas opções. Ela não pode ficar assim. Se ela morrer aqui, será um problema ainda maior.

Pedro cruzou os braços, pensativo, e disse:

— Há uma pessoa que poderia ajudar… mas tem um problema.

— Quem? — perguntou Dimas, curioso.

Pedro hesitou antes de responder.

— A Jéssica.

Dimas franziu o cenho.

— Jéssica? A médica do povoado?

— Sim, ela é de confiança, mas… tem a questão do Jucá. Você sabe, eles já se envolveram, e você não aprovou.

Dimas bufou, irritado.

— Não gosto dela se metendo com a minha família. Mas se não temos outra opção…

— Ela pode vir aqui, então, Dimas? Ela avalia a Emma sem levantar suspeitas.

Dimas ficou em silêncio, ponderando. Por fim, suspirou.

— Mande chamá-la. Não temos escolha.

Jéssica chegou à fazenda, carregando sua maleta de primeiros socorros e uma expressão séria. Ela olhou para Pedro, que a cumprimentou com um aceno, e depois para Dimas, que a encarava com um misto de irritação e preocupação.

— Dimas, você me chamou? — perguntou ela.

— Preciso que você veja uma hóspede nossa. Ela está muito mal — disse Dimas, seco. — Ela é uma lobisomem.

Jéssica franziu o cenho, intrigada. Ela achava que só existiam lobisomens no Brasil. E que no resto do mundo fosse lenda.

Jéssica era uma médica humana que se apaixonou por Jucá, ela sabia dos lobisomens, mas Dimas deixou claro que Jamais deixaria ela e Jucá juntos, por causa das tradições. Para evitar problemas, ela se afastou.

— Ok, posso ver o que ela tem.

— Sim. Sem exames. — disse ele.

Dimas a conduziu até o quarto onde Emma estava. Antes de entrar, Ethan bloqueou a passagem, com a expressão rígida.

— Você não pode entrar. — disse Ethan, firme.

Jéssica ergueu as sobrancelhas, surpresa.

— Perdão?

— Não. Eu não vou permitir que você a examine. — insistiu Ethan.

Antes que a situação escalasse, Emma, ainda fraca, murmurou:

— Não quero ser atendida…

Dimas perdeu a paciência e entrou no quarto.

— Ou você será atendida, ou mando vocês todos embora da minha casa.

Emma e Ethan trocaram olhares tensos, mas não tinham escolha. Por fim, Ethan deu um passo para o lado, permitindo que Jéssica entrasse.

Dentro do quarto, Jéssica se aproximou de Emma com cuidado, tirando os instrumentos básicos da maleta.

— Eu só vou fazer uma avaliação simples. Preciso entender o que você tem. Só isso. — disse ela, tentando acalmar Emma.

Emma estava tensa, mas fraca demais para protestar. Jéssica começou a examiná-la, verificando sua pressão, a respiração e o estado geral.

— Seus sintomas são… peculiares. Já vi antes. Você parece estar extremamente debilitada, mas não há sinais claros de infecção bacteriana ou viral. Só um exame poderia confirmar… mas…

— Sem exames. — disse Emma, interrompendo.

Jéssica se levantou, pensativa.

— Algumas doenças humanas têm sintomas semelhantes, como o verme. Já vi casos no povoado. Mas algo aqui… é diferente.

Ethan, que observava de perto, ficou ainda mais tenso com essa declaração.

— Diferente como? — perguntou ele.

Jéssica balançou a cabeça.

— Não posso afirmar nada com base apenas em uma avaliação simples. Vou precisar de mais informações. Mas, por enquanto, vou receitar um remédio para aliviar as dores. Volto amanhã. Claro, se ela piorar, terão que levá-la ao hospital central.

Ela se virou para Dimas.

— Vou deixar a receita com você. Vocês podem comprar na farmácia do povoado.

Dimas assentiu, mas Jéssica não pôde deixar de notar o clima tenso entre os hóspedes e a família. Ao sair, ela lançou um olhar rápido para Pedro, que observava tudo de longe.

Ethan ficou ao lado de Emma, ainda preocupado.

— Ela não pode descobrir, Emma. Não pode. — disse ele baixinho.

Emma fechou os olhos, exausta.

— Eu sei…

Enquanto isso, Dimas observava Jéssica ir embora. Ele sabia que havia arriscado muito ao trazê-la para a fazenda, mas não tinha outra escolha. O que ele não sabia era que Jéssica também começava a suspeitar de algo muito maior do que uma simples doença.

Antes de sair, Jéssica voltou para falar com Dimas.

— Isso é verme. O mesmo que dá nos animais... tipo, lobo-guará. Mas, quando dá em lobisomens, o caso é muito mais complexo. Não dá para manter ela aqui.

— Como você sabe que essa doença em lobisomens é pior? — perguntou Dimas, desconfiado.

— Eu trabalhei com tio Rubão. Ele me ensinou tudo sobre vocês. Ele ajudaria ela se tivesse aqui...sabe notícias dele?

— Para falar a verdade não. Ele é assim, sempre viajando. Logo ele volta.

— Mas ela precisa do remédio que ele faz, e eu não sei como preparar. Só ele sabe.

— Vou ver o que faço, por enquanto, obrigada.

— Eu vou voltar amanhã. Ela falou já de saída.

Quando estava indo embora, Jéssica viu Jucá de longe. Ao vê-la, ele correu atrás dela. Jéssica entrou no carro e disparou, chorando. Sabia que, por causa de Dimas, os dois jamais poderiam ficar juntos.

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