15. Vínculo inquebrável

Aruanã estava frente a frente com Sinval, que parecia tão altivo e confiante como sempre, mas agora havia algo mais sombrio em sua postura.

— Acabou, Sinval — disse ela, firme. — Eu não posso continuar com alguém que me traiu.

Os olhos dele se estreitaram, e um sorriso amargo apareceu em seus lábios.

— Eu te amo, Aruanã. Você sabe disso. Sempre soube.

— Amar não é suficiente quando se falta respeito. Você me traiu e esperava que eu aceitasse calada? — respondeu ela, cruzando os braços, mas mantendo a postura rígida.

— Você está cometendo um erro, e vai se arrepender — retrucou ele, a voz baixa, mas carregada de ameaça.

Aruanã estreitou os olhos, encarando-o.

— Está me ameaçando, Sinval?

Ele deu um passo à frente, olhando diretamente para ela.

— Sim. Entenda como quiser, mas saiba que, se não ficar comigo, você vai se arrepender. Eu prometo.

Aruanã sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mas não cedeu.

— Pode tentar, mas eu não sou tão fácil de intimidar quanto você pensa.

Ela se virou e saiu, ignorando os murmúrios baixos de Sinval enquanto se afastava.

Quando chegou à casa principal, Dimas estava à porta, os braços cruzados e uma expressão preocupada.

— O que houve com o Sinval? — perguntou ele, direto.

Aruanã parou, ainda sentindo o peso da conversa anterior.

— Eu terminei com ele — respondeu, sem rodeios.

— Por quê?

— Porque ele me traiu — disse ela, olhando nos olhos do pai, esperando que ele entendesse.

Mas Dimas apenas balançou a cabeça, desapontado.

— Isso não é motivo para terminar. Você sabe que eu dei a minha palavra ao meu primo. Esse casamento não é só sobre você, Aruanã. É sobre nossa família.

Aruanã cerrou os punhos, sentindo a raiva fervilhar dentro de si.

— Isso não é justo, pai. Eu não sou uma moeda de troca.

Sem esperar pela resposta dele, ela saiu irritada, pisando firme até o quarto. Quando chegou à porta, viu Emma sentada no chão, esperando por ela.

Emma se levantou rapidamente, limpando a poeira das calças.

— Precisamos conversar — disse Emma, sua voz séria, mas calma.

Aruanã não respondeu, apenas abriu a porta e entrou. Emma a seguiu, fechando a porta atrás delas.

Aruanã sentou-se na beirada da cama, enquanto Emma permaneceu de pé, olhando-a com intensidade.

— Eu preciso te explicar algo — começou Emma, com cautela. — Sobre o que está acontecendo entre nós.

— Entre nós? — repetiu Aruanã, cruzando os braços, tentando esconder a inquietação que sentia.

Emma respirou fundo antes de continuar:

— No meu clã, existe algo que chamamos de "Vínculo de Companheiros". Ou vínculo inquebrável. É uma conexão rara e profunda entre dois lobos. Não é algo que escolhemos, acontece. É como se nossas almas se reconhecessem.

Aruanã franziu o cenho, confusa.

— Eu nunca ouvi falar disso. Na nossa cultura, isso não existe.

Emma inclinou-se ligeiramente, tentando ler a expressão de Aruanã.

— Talvez seja algo diferente para vocês. Talvez vocês simplesmente não o chamem assim, mas eu sei o que sinto.

— E o que você sente? — perguntou Aruanã, com um tom desafiador.

Emma hesitou por um momento, antes de sentar-se ao lado dela.

— É inexplicável, mas desde que te vi, senti algo que nunca senti antes. Algo que me puxa para você, que me faz querer estar perto de você o tempo todo.

Houve um momento de silêncio antes que Aruanã respirasse fundo e começasse a falar:

— Nossa família vive escondida. Somos lobos-guarás, sim, mas nossa sobrevivência depende de mantermos o anonimato. É por isso que casamos entre primos de segundo e terceiro grau. Para proteger nossa linhagem e evitar chamar atenção. Não tem essa de vínculo, ou algo parecido. Sabe?

Emma assentiu, absorvendo as informações.

— Eu entendo. No meu clã, também temos tradições e uma hierarquia rígida. Nossa liderança suprema está desaparecida, e o segundo no comando, Marcus, confiou a mim essa missão. Ele acreditou que eu poderia encontrar o antídoto. E eu estava aqui para isso, para salvar nossa espécie e cultura. Mas desde que meus olhos te encontraram...

— Lá também tem casamento arranjado? — perguntou Aruanã, curiosa.

— Sim, eu sou noiva de um aristocrata francês, Jean-Pierre Pondé — respondeu Emma, com uma ponta de amargura. — É uma aliança entre meu clã e o da Europa. Mas nunca foi minha escolha.

Os olhos de Aruanã encontraram os de Emma, e por um momento, o silêncio tomou conta do quarto.

— Eu também fui prometida — confessou Aruanã, quebrando o silêncio. — Mas sinto que… hoje não quero ele. Não depois do que estou sentindo também.

Emma se aproximou, olhando-a com uma intensidade que fez Aruanã desviar o olhar por um segundo.

— O que você sente, Aruanã? — perguntou Emma, a voz suave, mas carregada de significado.

Aruanã hesitou, mas finalmente respondeu:

— Eu sinto algo... Eu não tenho palavras para descrever o que sinto por você. Algo que não deveria sentir, mas que é impossível de ignorar.

Emma sorriu levemente, aproximando-se mais.

— Então confie em mim. Vem cá.

Com delicadeza, Emma puxou Aruanã para mais perto, deixando que ela descansasse a cabeça em seu peito. Por um momento, Aruanã resistiu, mas acabou cedendo, sentindo o calor e o conforto de estar ali.

— Eu prometo — disse Emma, sussurrando. — Eu vou te proteger, Aruanã. Sempre.

Aruanã fechou os olhos, deixando-se levar por aquele momento. Apesar de todas as dúvidas e medos, ali, nos braços de Emma, sentiu-se segura como nunca antes.

Emma fazia carinho nos cabelos de Aruanã, suas mãos deslizando suavemente pelos fios enquanto a jovem descansava a cabeça em seu peito.

— Como é esse tal de elo inquebrável? — perguntou Aruanã de repente, sua voz baixa, mas curiosa.

Emma riu suavemente, um som que vibrou contra o corpo de Aruanã.

— Vínculo, é difícil explicar — respondeu Emma, abraçando Aruanã com mais firmeza. Ela inalou o perfume suave dela, um cheiro natural e selvagem que parecia inconfundivelmente único. — É como se nossos corações e almas se reconhecessem. Como se eu soubesse, desde o momento em que te vi, que você é minha companheira.

Aruanã ficou em silêncio por um instante, absorvendo as palavras, antes de murmurar:

— Se isso for verdade… se você sente que sou sua companheira, então nunca poderemos ficar juntas.

Emma franziu o cenho, olhando para baixo, onde Aruanã estava deitada em seu peito.

— Por quê?

— Porque nós duas temos missões, Emma. Você está aqui para salvar seu povo. E eu… eu tenho que proteger o meu. Além disso… — Aruanã hesitou, mas continuou. — Somos mulheres. E se meu pai soubesse, ele morreria. — Ela pausou por um instante. — Isso nunca aconteceu comigo antes, tipo gostar de mulheres.

Emma sorriu levemente, acariciando os cabelos de Aruanã com mais delicadeza.

— Nem eu — confessou Emma. — Nunca senti nada assim por outra mulher.

As duas ficaram em silêncio novamente, ouvindo apenas as batidas dos próprios corações. Emma finalmente quebrou o silêncio.

— Não precisamos ser um casal para estarmos conectadas. O Vínculo não exige isso. Podemos continuar nossas vidas, cumprir nossas missões, e ainda assim manter essa ligação.

Aruanã ergueu o rosto, seus olhos encontrando os de Emma.

— E você promete que vai me proteger?

Emma segurou o rosto de Aruanã com as mãos, seus polegares traçando suavemente as maçãs do rosto dela.

— Eu prometo. Agora você é parte da minha missão também.

Aruanã assentiu levemente, fechando os olhos. Aos poucos, o cansaço a venceu, e ela adormeceu nos braços de Emma.

Emma ficou parada por um tempo, ouvindo a respiração calma de Aruanã e o som de seus corações batendo em uníssono. Com cuidado, ela moveu Aruanã para uma posição confortável na cama, cobriu-a e saiu do quarto.

No corredor, Ethan estava encostado na parede, seus braços cruzados e uma expressão curiosa.

— O que você estava fazendo no quarto dela? — perguntou ele, o tom cauteloso.

Emma suspirou, sabendo que não conseguiria evitar a conversa.

— O vínculo — respondeu simplesmente.

Ethan franziu o cenho.

— Vínculo? Você ainda está com os parasitas, não é? Eles devem ter se alojado no seu cérebro. Está falando em vínculo com selvagens agora?

Emma cruzou os braços, sua expressão séria.

— Não são selvagens, Ethan. E você sabe disso.

Ethan soltou uma risada sarcástica.

— Tudo bem, Emma. Mas me diga uma coisa: você ainda lembra do compromisso com Jean-Pierre Pondé?

— Eu lembro. Não pelo Jean-Pierre, mas pela minha alcatéia. Eu sei o que está em jogo — respondeu Emma, a voz firme.

Ethan relaxou um pouco, mas ainda parecia cético.

— Então você não vai desistir desse compromisso?

Emma balançou a cabeça.

— Não vou. Mas não vou mentir sobre o que sinto. Você é meu melhor amigo, Ethan. Eu precisava dividir isso com você.

Ethan suspirou, aliviado.

— Certo. Mas cuidado, Emma. Essa ligação pode ser mais complicada do que parece.

...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...

Julião estava sentado em um banco de madeira quando Sinval chegou, sua expressão sombria.

— E então? — perguntou Julião.

Sinval bufou, ainda irritado.

— Você estava certo. Eu vi lobos diferentes rondando a fazenda. Pensei que fosse loucura, mas eles me atacaram.

Julião inclinou-se para frente, intrigado.

— Lobos diferentes?

— Não são como nós. São maiores, mais ferozes. Mas definitivamente metamorfos — explicou Sinval, ainda sentindo a dor das mordidas de Lydia.

— E os gringos? — perguntou Julião.

Sinval assentiu.

— Tenho certeza de que estão conectados a isso. Quero que você espalhe para as famílias da fazenda e das redondezas. Faça com que todos questionem o Dimas. Ele está perdendo o controle, e não vou esperar pelo casamento para tomar o que é meu por direito.

Julião sorriu maliciosamente.

— Considere feito.

Os dois trocaram olhares conspiratórios, o início de um plano para desestabilizar a liderança de Dimas e trazer caos à fazenda.

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