O relógio marcava 4h30 da manhã, mas Aruanã já estava acordada. Seu sono havia sido agitado, repleto de imagens confusas e sensações estranhas. Ela não conseguia esquecer o que havia feito. Lembrava-se de ter ido ao quarto de Emma na noite anterior, ainda na forma de lobo-guará, algo que jamais deveria ter acontecido. Agora, sentia-se culpada.
— O que eu estava pensando? — murmurou para si mesma, passando as mãos pelo rosto. Se fosse pega, poderia colocar tudo a perder. A desconfiança sobre a fazenda e sobre sua família aumentaria.
Levantando-se silenciosamente, decidiu sair para espairecer antes de começar os trabalhos do dia. Passando pelo corredor que levava à varanda, ouviu vozes vindo da sala de seu pai. Era Dimas conversando com Pedro Lobo, e pela seriedade do tom, era algo importante. Curiosa, parou perto da porta para escutar.
— Não tem jeito, Dimas. Se quisermos saber exatamente o que ela tem, vamos precisar de um exame de sangue — disse Pedro, a voz baixa e preocupada.
Dimas bufou, visivelmente contrariado.
— Exame de sangue? Pedro, você sabe que isso é impossível. E se descobrirem algo… algo que não podem explicar? Se isso chegar a um laboratório, pode acabar com tudo que protegemos por tanto tempo.
Pedro tentou argumentar.
— Mas e se ela… — ele hesitou, buscando as palavras certas. — E se ela não resistir? Precisamos fazer algo.
Dimas suspirou, passando a mão pelos cabelos.
— Eu sei. Mas você entende o risco? Mesmo que Jéssica seja discreta, os laboratórios não são. Ela não tem como controlar o que acontece depois.
Aruanã sentiu o coração disparar. O que significava tudo aquilo? Por que seu pai estava tão preocupado com um simples exame? Ela sabia que sua família era metamorfa e que proteger esse segredo era vital, mas por que não poderiam fazer um exame nos hóspedes?
"Será que eles são..."
“Lobisomens americanos?”
Ela pensou, tentando ligar os pontos. Desde a chegada de Emma, algo em Aruanã parecia diferente. Um instinto desconhecido aflorava nela, algo que nunca havia sentido antes. E, ainda mais estranho, era sua própria transformação: parecia que, perto de Emma, era difícil de controlar.
Aruanã precisava de respostas. Decidida, caminhou em direção ao quarto onde Emma estava hospedada.
Aruanã abriu a porta lentamente, tentando não fazer barulho. Emma estava deitada, os olhos fechados, mas seu corpo se movia de maneira inquieta, como se estivesse incomodada. Observando mais de perto, Aruanã notou os pequenos espasmos nos músculos da americana, algo que reconhecia de histórias que ouvira na fazenda, quando um lobisomem era infectado.
“Isso parece… um parasita”, pensou.
Saindo rapidamente do quarto, ela foi até o pai e Pedro, que ainda discutiam na varanda. Sem hesitar, interrompeu a conversa.
— Eu sei o que ela tem.
Dimas e Pedro olharam para ela, surpresos.
— Como assim, sabe? — perguntou Dimas, franzindo o cenho.
— Ela tem um parasita. É o mesmo que já vimos antes nos lobos daqui.
Pedro estreitou os olhos, processando a informação.
— Parasitas de lobos? Jéssica disse a mesma coisa... bom, ela falou verme… — ele murmurou.
— E é a mesma coisa, Pedro? — disse Dimas.
Pedro respondeu rapidamente.
— A fruta da lobeira poderia ajudar, mas…
— Mas? — perguntou Dimas.
— A lobeira funciona como uma proteção antes da infecção. Agora que o parasita já tomou conta, ela não é suficiente. Precisamos do óleo do Ibirapê. Só ele pode ajudar agora.
Dimas respirou fundo, olhando para Pedro, e disse:
— Será que é por isso que eles vieram até aqui? Pelo óleo?
Pedro pensou e respondeu:
— Não seria surpresa. Uma fonte me contou que nos Estados Unidos tem ocorrido uma infecção grave entre lobos. Não sei se são lobos comuns ou… — ele fez uma pausa, olhando diretamente para Dimas, percebendo que estava dando com a língua nos dentes. Já que Aruanã não sabia da suspeita. — Lobos metamorfos.
O silêncio caiu entre eles, até que Pedro quebrou a tensão.
— Foi mal…
— Deixa para lá, Pedro. Já abriu a boca.
— Espera aí — disse Aruanã, juntando as peças. — Vocês estão dizendo que eles podem ser metamorfos como nós?
Pedro hesitou, mas Dimas balançou a cabeça, como se tentando afastar a ideia.
— Não temos certeza. Mas, se forem, não podemos arriscar que descubram sobre nós.
Pedro lançou um olhar significativo para Dimas.
— E se já souberem? Eles estão aqui há dias.
Dimas cerrou os punhos, irritado.
— Não me diga isso, Pedro. Já temos problemas demais.
— É uma possibilidade. E tem o Julião. Ele andou falando de um lobo de fora.
Dimas se levantou e começou a andar, olhando para Pedro com incredulidade.
— Julião? Aquele língua solta.
— Bem que eu desconfiei que era ele naquele dia. — insistiu Pedro. — Ele tem uma língua solta, e você sabe que ele não concorda com nossas tradições.
— Gente... Eu preciso ver algo… já volto.
Pedro e Dimas ficaram olhando para ela saindo feito um relâmpago.
Aruanã voltou ao quarto de Emma. Olhando para a mulher americana, sentiu uma mistura de emoções que não conseguia compreender. Emma abriu os olhos lentamente, percebendo sua presença.
— Você… aqui de novo? — murmurou Emma, ainda fraca.
Aruanã hesitou antes de responder.
— Só queria saber como você está.
Emma tentou sorrir, mas parecia exausta.
— Acho que já tive dias melhores.
Aruanã sentou-se na cadeira próxima à cama, observando-a atentamente. Agora ela sabia por que se sentia ligada a ela.
“Se ela é como nós… por que isso me faz sentir assim?”, pensou Aruanã, enquanto o silêncio tomava conta do quarto.
— Você deveria descansar, precisa se recuperar — disse Aruanã, com a voz baixa, mas preocupada.
Emma sorriu levemente, ainda pálida, mas segurou o braço da jovem antes que ela pudesse se afastar.
— Espere… quero te fazer uma pergunta — disse Emma, sua voz rouca.
Aruanã respirou fundo, hesitando.
— Pode perguntar.
Emma a observou atentamente, como se procurasse algo nas feições da jovem.
— Aquele óleo que você me deu… Estou confusa. Você disse que precisa de uma máquina específica para abrir o fruto do Ibirapê. Como conseguiu fazer aquilo?
Aruanã desviou o olhar por um momento, claramente desconfortável, mas tentou manter a calma. Afinal, ela era loba e tinha uma força descomunal.
— Aqui no campo, aprendemos técnicas diferentes. Não usamos somente máquinas, mas sabemos como lidar com coisas difíceis, mesmo sem equipamentos.
Emma arqueou uma sobrancelha, intrigada.
— Mas você falou que era muito duro.
Aruanã ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder, quase tropeçando nas palavras.
— É… a gente aprendeu... a trabalhar com pressão. Pressionamos o fruto de várias maneiras, até ele abrir. É física.
Emma estreitou os olhos, desconfiada, mas não insistiu.
— Interessante… Ah, antes que eu esqueça, obrigada por me ajudar. Você foi muito gentil.
Aruanã tentou sorrir, mas havia algo em seu semblante que indicava nervosismo.
— Não foi nada. Eu só queria ajudar. E, bom, sinto muito… Eu deveria ter pensado na água. Você veio de um lugar frio, e aqui o calor é muito intenso.
Emma balançou a cabeça, soltando o braço dela com um sorriso cansado.
— Não se preocupe. Não foi culpa sua. Acho que isso é mais do que apenas insolação.
Aruanã parecia hesitar por um momento, mas finalmente respondeu:
— A médica que trouxemos já identificou o que você tem. E acho que ela tem razão.
Emma franziu o cenho, fingindo surpresa.
— Sério? O que é?
— Um parasita.
Emma segurou sua expressão cuidadosamente. Sabia que era o parasita que tinha descoberto no laboratório antes de vir para o Brasil, mas precisava continuar a dissimulação.
— Parasita? Como isso aconteceu?
Aruanã assentiu lentamente.
— Sim, parasitas. Não sei exatamente como você pegou. E, bom, pode ser resolvido, mas não é tão simples no seu caso.
— Como assim? No meu caso? — perguntou Emma, forçando um tom curioso.
— Normalmente, para… pessoas comuns… digo, humanos, resolve com um simples remédio de vermífugo. O mesmo para os animais... Só que, no seu caso, parece que isso não está funcionando. Então, pode ser que a gente precise de algo mais forte.
Aruanã começou a explicar, escolhendo bem as palavras.
— O óleo do Ibirapê tem propriedades muito boas. Ele fortalece a imunidade, ajuda na recuperação de glóbulos vermelhos e pode eliminar certos tipos de parasitas. Mas… o problema é que o óleo precisa ser extraído e tratado da maneira correta para funcionar como medicamento.
— Vocês sabem fazer isso? — perguntou Emma, inclinando-se levemente.
Aruanã hesitou antes de responder.
— Não exatamente. Sabemos extrair óleo e tratar ele, mas fazer remédios é com farmacêuticos. Quem sabe fazer isso é um tio nosso, mas ele está viajando. Vamos tentar fazer aqui, com o que temos, mas não podemos garantir que vai dar certo.
Emma manteve o olhar fixo em Aruanã, desconfiada. Algo na forma como ela falava parecia deliberadamente evasivo.
— É perigoso? — perguntou Emma.
Aruanã respirou fundo.
— O medicamento? Não. O problema é se não funcionar com você.
Emma franziu o cenho, tentando parecer intrigada, mas sua mente trabalhava a mil.
— Tenho certeza que vai dar certo.
— Sim — disse Aruanã, desviando o olhar. — Vou falar com a minha mãe. Ela pode ajudar a preparar algo, junto à doutora Jéssica.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 26
Comments