18. Aumentando o clima

Sol nascente tingia o céu de tons alaranjados quando Emma e Aruanã despertaram.

O quarto estava mergulhado em uma tranquilidade rara. Emma abriu os olhos devagar, e seu olhar encontrou o de Aruanã, já desperta. Elas permaneceram assim, trocando olhares por um longo momento.

— Você dormiu bem? — perguntou Emma, quebrando o silêncio com um tom suave.

— Melhor do que eu esperava. — respondeu Aruanã, com um sorriso tímido. — E você?

Emma assentiu, observando os traços delicados de Aruanã. Havia algo naquele momento que a fazia querer prolongá-lo.

— Vamos nos levantar? — sugeriu Aruanã, desviando o olhar.

Emma concordou com um aceno, e as duas começaram a se preparar em silêncio, seus movimentos sincronizados de uma forma que só o tempo juntas poderia explicar.

Ao chegarem à cozinha, o clima estava diferente do habitual. Dimas estava sentado na cabeceira da mesa, com uma expressão séria, mas tentava manter a conversa leve, enquanto os outros se ajeitavam. Cauê, no entanto, parecia incapaz de desviar os olhos de Lydia, que fazia o possível para fingir indiferença, mas vez ou outra seus olhos traiam seus pensamentos, encontrando os dele.

— Dormiram bem? — perguntou Dimas, rompendo o silêncio enquanto servia um pouco de café.

— Sim, obrigada. — respondeu Emma, sentando-se ao lado de Aruanã, sem desviar o olhar dela.

Havia algo de diferente em Emma naquela manhã, e isso não passou despercebido por Aruanã, que sorriu levemente, tentando esconder o quanto estava grata pela companhia.

Enquanto todos tomavam o café, Lydia, em sua tentativa de manter uma postura altiva, reclamou discretamente do pão caseiro.

— Vocês nunca pensaram em variar o cardápio? Talvez uns croissants, ou... — começou Lydia, mas Cauê interrompeu com um sorriso sarcástico.

— Talvez a gente importe da França para agradar você, madame. — disse ele, inclinando-se um pouco para frente.

— Seria perfeito. — retrucou Lydia, revirando os olhos, mas incapaz de esconder o sorriso que se formava.

Enquanto isso, Emma estava distraída, ajudando Aruanã a servir o café. Cada gesto dela era meticuloso, como se estivesse tentando cuidar de Aruanã de forma discreta, mas genuína. A troca de olhares entre as duas era constante, mas cheia de ternura.

Dimas, pigarreou.

— Bom, vamos precisar continuar com o trabalho no óleo hoje. É importante que nossos hóspedes aprendam o processo.

No espaço reservado para a produção do óleo, Pedro Lobo dava as instruções com sua autoridade natural. Ethan estava focado, anotando mentalmente cada passo enquanto Lydia, embora prestando atenção, continuava lançando olhares furtivos para Cauê, que aproveitava cada oportunidade para provocá-la.

— Está gostando da aula, Lydia? — perguntou Cauê, com um sorriso malicioso.

— Não sei, talvez. — respondeu Lydia, tentando soar indiferente.

— Talvez? Achei que estivesse adorando minha companhia. — continuou Cauê, aproximando-se.

— Não se ache tanto. — disse Lydia, empurrando-o levemente, mas com um sorriso escondido nos lábios.

Enquanto isso, Emma estava ao lado de Aruanã, observando-a manipular o fruto com habilidade. A precisão de Aruanã era quase hipnótica, e Emma não conseguia evitar o olhar admirado.

— É incrível como você faz isso parecer fácil. — disse Emma.

— É prática. — respondeu Aruanã, corando levemente sob o olhar intenso de Emma.

Quando Emma tentou repetir o movimento, sua mão escorregou, e o fruto quase caiu. Aruanã rapidamente segurou sua mão, guiando-a.

— Assim, com mais firmeza. — explicou Aruanã, sua voz baixa, enquanto seus olhos encontravam os de Emma.

Houve um momento de silêncio. Ambas desviaram o olhar ao mesmo tempo, mas o leve sorriso de Emma não passou despercebido.

...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...

Enquanto isso, em outra parte da fazenda, Sinval reunia alguns aliados em segredo. Seus olhos estavam sombrios, e sua voz carregava a raiva acumulada.

— Dimas está fraco. Ele trouxe esses estrangeiros para cá e colocou todos nós em perigo. É hora de tomarmos o controle. — discursava ele.

— E o que você vai fazer? — perguntou um dos homens.

— Vou obrigá-lo a assinar a fazenda para mim. Ele perdeu o direito de liderar. — respondeu Sinval, com firmeza.

Caíque, o pai de Sinval, entrou no espaço, ouvindo o discurso inflamado.

— Pare com isso, Sinval. Dimas nos deu tudo. Você vai destruir o que nossa família construiu. — disse Caíque, com um tom pesado.

— Você é fraco, pai. É por isso que nunca saiu do lugar. — retrucou Sinval, aproximando-se.

Caíque tentou argumentar, mas Sinval o segurou pelos braços com força, olhando diretamente em seus olhos.

— Se você não está do meu lado, pode ir embora com a família de Dimas.

Caíque, com um olhar pesado de tristeza, respondeu calmamente.

— Espero que você perceba a gravidade disso antes que seja tarde demais.

Sinval ainda segurava o braço de Caíque com força, seu rosto contorcido em raiva e frustração.

O pai, mesmo mais velho, manteve a firmeza no olhar, recusando-se a se dobrar diante do filho rebelde.

— Se você quiser — disse Sinval, com os olhos faiscando — vá embora com a família do Dimas. Não faz diferença para mim.

Caíque suspirou, seu coração pesado pela mágoa. Ele soltou-se do aperto de Sinval e ajeitou a camisa amarrotada.

— Antes de continuar com essa sua revolta cega, escute bem, Sinval. — começou Caíque, apontando para o chão da fazenda. — Essa terra onde você está pisando foi construída do nada, pedra por pedra, pelo tataravô do Dimas. Sem ajuda de ninguém, só com as mãos dele e da família. Eles desbravaram essa região, enquanto outros estavam perdidos, tentando sobreviver pelo cerrado.

Sinval virou o rosto, mas Caíque continuou.

— O bisavô do Dimas foi além. Ampliou a fazenda, trouxe mais terras e deu emprego a quem precisava. Muitos de nós, nossos antepassados, não tinham para onde ir. Ele abriu as portas. Não só deu emprego, mas também ofereceu moradia e até pedaços de terra para quem quisesse trabalhar duro e construir algo. Foi o avô do Dimas quem autorizou isso, quem garantiu que o povo pudesse ter dignidade, segurança.

Caíque parou por um momento, seu tom ganhando mais intensidade.

— E mais, essa mesma família que mandou o tio Rubão estudar medicina para ajudar os nossos. Quantas vidas ele salvou? Quantas vezes ele trouxe cura para doenças que nenhum médico humano poderia tratar? Quem você acha que financiou isso? Quem garantiu que tivéssemos um centro de estudos, escolas para as crianças daqui e até para os humanos da região? Para manter a paz, para mantermos as aparências?

— Isso foi no passado. Hoje, nós merecemos mais do que isso. Essas terras não pertencem só ao Dimas. Nós também temos direitos.

— Direitos? — Caíque quase riu, mas seu olhar era duro como pedra. — Me diga, Sinval: o que você fez para merecer alguma coisa? Quando você já acordou na vida e percebeu que era um homem, tudo já estava aqui, pronto para você. Emprego garantido, status garantido. Você acha que merece o quê? Só porque acha que é melhor do que os outros?

— Eu não pedi nada disso. — rebateu Sinval, irritado. — E eu nunca tive o melhor. O melhor foi dado ao Pedro Lobo. Ele tem respeito, tem poder. Eu, não.

— E sabe por quê? — Caíque deu um passo à frente, encarando o filho. — Porque o Pedro Lobo trabalhou para isso. Ele começou do zero, como todos nós, e conquistou cada pedaço de respeito que tem. Você, não. Você nasceu com tudo entregue. Nunca precisou pegar no pesado. E agora você quer se rebelar? Quer tomar o que não é seu?

Sinval cerrou os punhos, tremendo de raiva.

— Dimas trouxe estrangeiros para cá! — gritou ele. — Ele colocou todos nós em risco. Eles são lobos, como nós, mas de outro lugar. Ele quebrou as regras, nos expôs!

— Você acha que ele fez isso? — Caíque elevou a voz, pela primeira vez mostrando sua indignação. — Você realmente acredita que o Dimas iria trair o próprio povo? Quem traiu a gente foi o Julião, o seu amiguinho. Ele entregou informações sobre o tio Rubão, sobre as doenças que enfrentamos, para os madeireiros. E agora estamos pagando o preço. Você sabia disso, Sinval? Sabia que o Julião vendeu os nossos segredos?

Sinval ficou calado por um momento, mas logo recuperou a postura defensiva.

— Não importa quem foi. O que importa é que eu vou liderar. Eu vou tomar essa fazenda, e os humanos vão nos respeitar. Eles terão medo de nós, como devem. Nós não somos ratos para viver escondidos.

— Respeito não vem de medo, Sinval. — Caíque respondeu, seu tom pesado de tristeza. — O que você está propondo é destruir tudo o que construímos. Se você seguir por esse caminho, não vai sobrar nada. Nem para você, nem para ninguém.

Sinval, no entanto, não parecia disposto a ouvir. Ele deu um passo atrás, com o olhar duro e decidido.

— Você escolheu o seu lado, pai. Eu escolhi o meu.

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!