Ethan estava no canto da varanda, com o telefone em mãos, tentando estabelecer uma ligação com o clã nos Estados Unidos. A conexão era instável, mas ele finalmente conseguiu ouvir a voz de Marcus, o segundo no comando. Mas ele percebeu sua irmã Lydia lá em baixo, inquieta.
Ele observara ela mais cedo brigando com o tal de Cauê. "Agora ela vai implicar com esse pobre selvagem"
— Ethan, o que está acontecendo? Como estão as coisas no Brasil? — perguntou Marcus, com o tom direto que sempre usava. Acordado, Ethan de seus pensamentos.
— Complicadas. Encontrei algo... estranho — respondeu Ethan, olhando para o horizonte. — Eu vi o que parecia ser um lobo-guará, mas não acho que era só um animal.
— Lobo-guará? — Marcus soou intrigado. — Não são comuns por aí?
— Sim, mas não como esse. Ele era muito maior, mais ágil, e tinha um comportamento estranho. Não era só um animal selvagem. Tenho certeza de que era um lobisomem.
Marcus fez uma pausa, ponderando.
— Existem lendas sobre lobisomens no Brasil, mas a maioria vem das influências indígenas ou das histórias trazidas por Portugal. Esses lobisomens, segundo as histórias, são híbridos grotescos, como nos filmes de terror.
— Não, não era esse tipo, que vi, Marcus — insistiu Ethan. — Ele parecia um lobo-guará, mas tinha uma inteligência no olhar, algo que só nós, metamorfos, temos. Vou te mandar uma descrição detalhada. Talvez você possa encontrar algo.
— Certo. Vou aprofundar as pesquisas. Vou ver se há registros mais antigos ou informações que se conectem com o que você viu — respondeu Marcus, com o tom firme de sempre. — Entro em contato assim que tiver mais informações.
— Obrigado, Marcus. Precisamos entender isso rápido. Pode ser importante para o que está acontecendo aqui.
Ethan desligou, sentindo a tensão aumentar. Ele sabia que sua intuição raramente falhava, e o que ele viu na fazenda não era algo comum.
Enquanto isso, no quarto de Emma na fazenda, ela e Lydia estavam sentadas, cada uma com um laptop portátil, usando a conexão precária fornecida pela fazenda para tentar encontrar respostas. Lydia estava visivelmente irritada, batendo as unhas no teclado.
— Eu estou detestando este lugar — resmungou ela, olhando para Emma. — Por que não podemos ficar em um lugar decente? Se estamos no Brasil, por que não fomos para o Rio de Janeiro? Praias, tudo bonito... Ou talvez para algum lugar turístico, como a Bahia ou Pernambuco?
Emma levantou os olhos do computador, já perdendo a paciência.
— Porque o fruto que estamos procurando não está lá, Lydia. Ele só existe aqui.
— Porque não ficamos no hotel. Estamos no meio do nada em São Paulo! Não faz sentido — continuou Lydia, com uma expressão de nojo.
Emma respirou fundo, tentando manter a calma.
— Porque não estamos em qualquer lugar, Lydia. Estamos em uma serra muito específica. É a única serra que tem essa fruta.
— Tem várias serras no Brasil. Algumas, inclusive, são bem mais bonitas. Você está obcecada por isso — rebateu Lydia.
Emma se levantou, irritada.
— Você está entendendo que o nosso povo está morrendo aos poucos? Que a única coisa que pode salvá-los está nessa fruta? E que essa fruta só existe aqui? Você acha que temos tempo para passeios turísticos?
Lydia recuou um pouco, visivelmente incomodada, mas não respondeu. Virou-se para o computador e voltou a digitar em silêncio, enquanto Emma respirava fundo para recuperar o foco.
Enquanto isso, Aruanã, que havia terminado suas tarefas, estava no corredor da casa. Ela ajeitou os cabelos e tomou coragem antes de bater suavemente na porta do quarto de Emma. Quando Emma abriu a porta, parecia surpresa ao vê-la ali.
— Você disse que queria conhecer a fazenda. Estou disponível agora. Terminei minhas tarefas — disse Aruanã, evitando olhar diretamente para Emma.
Emma sorriu, um pouco surpresa com a iniciativa.
— Claro. Me dá só um minuto para pegar minhas coisas — respondeu, fechando a porta por um instante.
Enquanto Emma pegava o necessário, Aruanã esperava do lado de fora, as mãos inquietas. Não entendia bem por que se sentia tão nervosa, mas algo na presença de Emma a deixava desconfortável, como se carregasse uma energia que ela não sabia decifrar.
Emma estava terminando de se preparar quando olhou para Lydia e perguntou casualmente:
— Vai vir conosco? Vamos dar uma volta pela fazenda e conhecer o lugar.
Lydia fez uma careta, já claramente desconfortável.
— Nem pensar. Você sabe o que pode ter lá fora? Cobras, aranhas, sei lá, até aqueles lobos-guarás que você e o Ethan vivem falando. Eu prefiro ficar aqui, tentando me comunicar com a nossa família... mesmo com essa internet horrível.
Emma suspirou, tentando manter a paciência, mas seus olhos revelavam irritação.
— Você sabia que isso podia ser difícil. Não estamos aqui para conforto, Lydia. E ainda por cima, fazer esse tipo de comentário pode ofender a família Pari. Eles estão nos hospedando, e precisamos respeitar isso.
Lydia não respondeu, apenas deu de ombros, voltando ao laptop. Emma balançou a cabeça, frustrada, e foi até a porta, onde Aruanã já a esperava.
— Pronta? — perguntou Aruanã, com sua voz suave.
— Sim, vamos — respondeu Emma, ajustando a alça de sua mochila.
As duas começaram a caminhar em direção aos campos, o sol já mais forte no céu. Aruanã não olhava diretamente para Emma em nenhum momento, mantendo os olhos no chão ou nos arredores. Isso incomodava Emma, que, curiosa, tentou puxar assunto.
— Então... Você conhece bem a região? — perguntou, olhando para o horizonte.
— Sim, é o que faço todos os dias. É parte da rotina aqui — respondeu Aruanã, sem virar o rosto.
Emma franziu a testa, percebendo o desconforto da jovem, mas continuou.
— Fale-me sobre o Cerrado de São Paulo. É diferente de outras regiões?
Aruanã finalmente olhou para frente, relaxando um pouco.
— Sim, o Cerrado daqui é mais raro. Já foi muito maior, mas hoje restam apenas fragmentos. Ainda assim, é um lugar único. As plantas e os frutos que nascem aqui são muito adaptados. Por exemplo, o Ibirapê.
Emma ficou curiosa.
— Ibirapê... Vocês chamam isso de uma fruta, certo?
— Sim, mas não exatamente uma fruta. É um erro comum. É um erro devido se parece com os coquinhos do Cerrado. O que importa não é a casca ou a polpa, mas o óleo que extraímos de dentro.
— Óleo? — Emma arqueou uma sobrancelha, interessada.
— Sim. Ele é como o azeite de oliva, mas tem um sabor mais doce. Serve para saladas, cosméticos, e até para fins medicinais. A diferença é que a casca do Ibirapê é muito dura. É preciso força e técnica para abri-lo.
Emma ficou impressionada com o nível de detalhe e conhecimento de Aruanã. Mas, enquanto caminhavam, começou a sentir tontura. Uma dor latejou em sua cabeça, e o calor do sol parecia piorar seus sintomas. Era os parasitas, começando, a afetar ela.
— Você está bem? — perguntou Aruanã, parando e olhando para Emma com preocupação.
— Só... só preciso de um minuto — respondeu Emma, antes de se apoiar em um tronco caído.
Aruanã se aproximou, notando que Emma parecia fraca e pálida.
— É o sol? Pode ser insolação. Fique aqui, eu vou buscar ajuda! — disse Aruanã, já se preparando para correr.
— Não! — Emma segurou o braço dela, com a voz fraca. — Não me deixe sozinha aqui...
Aruanã hesitou, olhando ao redor. Decidiu agir por conta própria, sentou, Emma. Se virou de lado, para que Emma não percebesse.
Pegou um dos frutos do Ibirapê que tinha em sua bolsa e o mordeu com força, rachando a casca dura. O óleo começou a escorrer lentamente. Aruanã aproximou-se de Emma, inclinando-se para frente.
— Abra a boca. Vai ajudar — disse Aruanã, com firmeza.
Emma estava fraca demais para protestar, então deixou que Aruanã pingasse o óleo diretamente em sua boca. O sabor era estranho, doce, mas não desagradável, os dedos de Aruanã, encostava próximo a boca de Emma, se não fosse o mal estar, ela acharia isso um tanto excitante.
Enquanto o óleo começava a fazer efeito, Aruanã viu Pedro Lobo ao longe, caminhando com sua habitual postura atenta.
— Pedro! Aqui! Rápido! — gritou ela.
Pedro correu até elas e, sem hesitar, pegou Emma no colo, sentindo imediatamente algo incomum. Ele a cheirou instintivamente, franzindo a testa. Havia um cheiro forte de lobo nela, mas não de um lobo-guará. Era algo diferente.
— Você está bem, senhorita? — perguntou Pedro, tentando disfarçar sua desconfiança enquanto carregava Emma de volta para a fazenda.
Emma apenas assentiu, ainda tentando se recompor. Pedro olhou para Aruanã, que caminhava ao lado, preocupada.
Enquanto voltavam, Pedro ponderava silenciosamente. Ele passava boa parte do tempo transformado em lobo-guará para vigiar a fazenda e sabia reconhecer o cheiro de outros lobos. Aquela mulher americana não era apenas uma humana. Ele tinha certeza disso, mas decidiu guardar sua desconfiança... por enquanto.
— Liguem para o Marcus. — falava Emma em delírio.
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Atualizado até capítulo 26
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