Aruanã caminhava pelo pequeno terreiro iluminado pela lua, com o coração batendo rápido. Sabia que Sinval a esperava perto do galinheiro, onde costumavam conversar longe das vistas da família. Quando o viu, ele abriu um sorriso largo e correu em sua direção, os passos levantando um pouco de poeira no chão seco.
— Minha linda Aruanã! — exclamou, enquanto a puxava para um abraço e a rodopiava no ar. — Você está cada vez mais bela, sabia?
Aruanã riu, mas logo estreitou os olhos, cruzando os braços quando ele a colocou de volta no chão.
— Bela, é? Então por que você estava na festa da cidade ontem, hein? — perguntou, com a voz carregada de acusação. — Dançando com as moças de lá.
Sinval arregalou os olhos, surpreso, mas logo sorriu, despreocupado.
— Ah, Nã, você sabe que eu não resisto a um bom arrocha — disse, levantando as mãos como se se rendesse. — Mas eu só dancei, juro! Meu coração é só seu, e você sabe disso.
Aruanã o encarou por um momento, o olhar desconfiado, mas havia algo na maneira como ele falava que a fazia hesitar. Ele sempre conseguia desarmá-la.
— É melhor que seja só dança mesmo — resmungou ela, desviando o olhar para esconder o sorriso que tentava escapar.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, trocando olhares intensos sob a luz prateada da lua. Então, Sinval deu um passo à frente, segurando suavemente o rosto dela com as mãos.
— Nã, eu não preciso de mais ninguém... Só de você — sussurrou, inclinando-se para beijá-la.
Mas antes que seus lábios se tocassem, a voz severa de Dimas ecoou, fazendo ambos se sobressaltarem.
— Aruanã! O que está acontecendo aqui? Já falei que não quero abraços, quanto mais beijos!
Aruanã rapidamente se afastou, as bochechas queimando de vergonha. Sinval olhou para o chão, como um menino pego em travessura.
— Pai, isso não é justo! — protestou Aruanã, tentando recuperar a compostura. — Meu irmão já beijou até gente de fora, e ninguém nunca falou nada!
Dimas estreitou os olhos, cruzando os braços.
— Seu irmão é homem. Você é mulher, tem que se valorizar.
— Me valorizar? — rebateu Aruanã, com o tom cheio de indignação. — O senhor e a mamãe namoraram antes do casamento. Ela vive contando como vocês se beijavam debaixo do pé de Ibirapê!
Dimas engasgou, claramente pego de surpresa.
— Isso... isso foi diferente! — balbuciou, tentando se explicar.
Nesse momento, Maíra apareceu ao lado dele, com um sorriso divertido no rosto.
— Diferente? Ah, Dimas, não seja hipócrita! Você me beijava sempre que podia e ainda dizia que aquele era nosso lugar especial.
Dimas coçou a nuca, visivelmente desconcertado, enquanto Aruanã e Sinval trocavam olhares cúmplices e mal disfarçavam os sorrisos.
— Naquela época era outra coisa, agora é diferente! — tentou justificar Dimas, mas todos sabiam que não era tradição ou moral o que o movia.
A verdade era que Dimas estava tomado pelo ciúme. Era o ciúme natural de um pai protetor vendo sua menina crescer. E, embora tivesse prometido Aruanã a Sinval, o filho de seu primo, não podia evitar o desconforto que sentia em relação ao rapaz.
Sinval nunca havia dado um motivo concreto para desconfiança, mas o instinto de Dimas lhe dizia que havia algo nele que não era certo. Mesmo assim, ele se mantinha firme no acordo de família, mesmo com o coração inquieto e a mente cheia de dúvidas.
Após a confusão, Sinval se afastou rapidamente, lançando um olhar furtivo para Julião, que o esperava ao lado de um velho tronco caído, na sombra da noite.
— A fazenda agora está protegida — começou Julião, em um tom baixo e cauteloso. — Eles têm o Pedro Lobo, e você sabe que ele tem um grupo bom na segurança. Não vai ser fácil desviar o Ibirapê.
Sinval soltou um suspiro impaciente, cruzando os braços.
— Os gringos da madeireira não vão gostar nada disso. Temos um contrato com eles.
Julião franziu o cenho, inquieto.
— E o que você pretende fazer?
Sinval sorriu de canto, com uma expressão que misturava arrogância e determinação.
— Em breve vou me casar com Aruanã e mandar em tudo isso aqui. Vou acabar com essa droga de tradição! Odeio viver escondido, como se fôssemos errados. Somos lobos! Não temos que nos curvar perante esses humanos.
— Eu nunca vou me curvar, sempre me transformo toda vez que quero. E não recebo ordens dos Pari — retrucou Julião, desafiador.
Sinval deu um passo à frente, com os olhos secos em um tom ameaçador.
— E eu sou Pari, esqueceu? Recebe ordens sim... de mim.
Julião ficou em silêncio por alguns segundos, mas a tensão entre os dois era palpável.
— E esse casamento com a filha do Dimas? É só por estratégia? — perguntou Julião, tentando medir as intenções de Sinval.
Sinval soltou uma risada curta, mas seus olhos revelavam algo mais.
— Não é só estratégia. Eu gosto dela de verdade. É linda, esperta, do tipo que quero para sempre ao meu lado. Mas, enquanto isso não acontece, eu ainda quero me divertir um pouco... Só coisas sem importância, com humanas. No fim, Aruanã será a única para mim, como deve ser.
Julião assentiu, mas com um olhar cauteloso. Ele sabia que o sentimento de Sinval por Aruanã era real, mas também sabia que a impulsividade e a arrogância do amigo poderiam ser sua ruína.
...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...
Enquanto Ethan olhava para a lua e os campos à noite, uma sensação de inquietação tomava conta dele. A decisão de ficar na fazenda o preocupava, e o silêncio do lugar só tornava seus pensamentos mais intensos. Foi então que avistou algo no campo, um movimento estranho. Parecia um animal que ele nunca tinha visto antes. Ethan sabia que o Brasil tinha muitos animais exóticos, mas aquilo parecia diferente, algo que não se encaixava na natureza comum do Cerrado.
Sem pensar muito, ele saiu pela janela, confiando no faro que o guiava. Ele avançou cuidadosamente, tentando localizar a criatura. De repente, a viu. O cheiro era inconfundível: era um lobo, mas diferente dos que ele conhecia. Não era um animal comum; Ethan tinha certeza de que era um metamorfo.
O lobo o encarou por alguns segundos antes de atacar. Instintivamente, Ethan se transformou em lobo também, e os dois começaram a se rodear, avaliando cada movimento. Mas algo no comportamento do outro lobo mudou, e ele recuou, fugindo rapidamente. Ethan, cauteloso, decidiu não perseguir.
Quando voltou à sua forma humana, sentiu um movimento atrás de si. O mesmo lobo traiçoeiro havia retornado, pronto para atacá-lo pelas costas. No entanto, um disparo ecoou pelo ar, afastando o animal. Pedro Lobo, o capataz da fazenda, apareceu segurando uma espingarda, sua expressão firme.
— Você está bem, senhor? — perguntou Pedro, aproximando-se. — Sou Pedro Lobo, cuido da fazenda. Você deve ser um dos gringos de que o Dimas falou, não é?
— Sim, sou. Mas... o que era aquilo? — respondeu Ethan, ainda recuperando o fôlego.
Pedro olhou para a direção onde o lobo havia desaparecido e respondeu calmamente:
— Lobos-guarás. São animais daqui do Brasil, vivem em lugares como o Cerrado. Normalmente não são agressivos.
Ethan balançou a cabeça, confuso.
— Não são agressivos? Ele me atacou!
Pedro franziu a testa, pensativo.
— Talvez tenha se sentido ameaçado pela sua presença. Ou algo em você o incomodou.
Pedro farejou discretamente. O cheiro forte de lobo ainda estava em Ethan, resquícios de sua recente transformação, mesmo que ele estivesse em forma humana.
— Algo em mim? — perguntou Ethan, intrigado.
Pedro cruzou os braços e deu um leve sorriso.
— Não sei. Mas sair da casa a essa hora não é uma boa ideia. Aqui pode ser perigoso. Ladrões de galinhas, animais selvagens... ou outros lobos como esse. Melhor você ficar na fazenda. Pode ser que da próxima vez eu não esteja por perto para te salvar.
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Atualizado até capítulo 26
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