5.Seus olhos

O despertador natural da fazenda tocou às 4:30, antes mesmo das primeiras luzes do dia aparecerem no horizonte. Maíra já estava de pé, na cozinha, preparando o café. O cheiro de café forte e pão assado começava a invadir a casa, enquanto os irmãos de Aruanã saíam para o trabalho pesado: carregar sacos de ração, cuidar das plantações e organizar os arredores da fazenda.

Aruanã, com a cabeça ainda pesada de sono, já estava nos estábulos, alimentando os animais. Suas mãos trabalhavam rápido, mas seu olhar estava distante. A rotina era sempre a mesma, mas naquela manhã algo parecia diferente. Talvez fossem os visitantes.

Na casa, Emma se revirava na cama. O cansaço a mantinha deitada, mas a mente não lhe dava trégua. Os pensamentos giravam em torno do parasita que estava devastando seu povo, combinados com o que Ethan havia relatado na noite anterior. Ethan não era qualquer um. Ele era um dos Betas mais fortes do clã, conhecido por sua força, agilidade e, acima de tudo, seu faro apurado. Mesmo em território desconhecido, ele dificilmente se confundiria. Se ele estava certo sobre a presença de um metamorfo, isso poderia significar algo muito maior.

Inquieta, Emma decidiu que não poderia ficar parada. Levantou-se e desceu para o lado de fora. O sol ainda não havia surgido completamente, mas o céu já estava iluminado por uma luz suave e azulada. Caminhou devagar pelo terreiro, sentindo o cheiro fresco da manhã. Foi quando avistou Aruanã voltando de seus afazeres, com um balde em mãos. Seus olhos se cruzaram brevemente, mas a jovem desviou o olhar quase instantaneamente, com uma rapidez que chamou a atenção de Emma.

— Bom dia — disse Aruanã, com um tom tímido e sem graça.

Emma abriu um sorriso acolhedor.

— Bom dia... É... Na, né?

— Nã — corrigiu Aruanã, de forma breve.

— Então, vocês acordam cedo aqui — comentou Emma, tentando puxar assunto.

— Acordamos com as galinhas... Na verdade, antes. Papai acha que devemos ser exemplos nesta fazenda — respondeu Aruanã, mantendo a cabeça baixa e evitando contato visual.

— Gostaria de conhecer mais a fazenda. Quem sabe você pode me mostrar? — sugeriu Emma, tentando soar amigável.

Antes que Aruanã pudesse responder, o irmão mais velho dela apareceu. Cauê, um jovem simpático e de porte robusto, aproximou-se com um sorriso descontraído.

— Quer matar minha irmã de vergonha? — brincou ele, enquanto Aruanã ficava visivelmente mais tímida. — Ela não conversa com ninguém que não seja da família ou que trabalhe aqui. É como um animalzinho selvagem, tímido demais.

Emma riu, estendendo a mão quando Cauê fez o gesto de cumprimento.

— Meu nome é Cauê — apresentou-se ele, apertando a mão de Emma com firmeza.

— Prazer, Cauê — respondeu Emma, sorrindo.

Enquanto os dois trocavam cumprimentos, Aruanã apressou o passo, correndo para dentro de casa, visivelmente desconfortável. Emma observou a cena, intrigada. Havia algo nela, algo que chamava sua atenção de forma inexplicável.

Mais tarde, todos estavam reunidos à mesa para o café. Dimas, no centro, comandava a conversa enquanto Emma, Ethan e Lydia se juntavam à família. O café era simples, mas preparado com carinho: pão, manteiga, café puro e ovos. Lydia, no entanto, torceu o nariz ao olhar para a mesa. Acostumada com luxo e requinte, sentiu o estômago embrulhar ao pensar em comer algo tão diferente do que estava habituada.

— Não faça desfeita. Eles prepararam tudo com carinho. Se virem sua expressão, podem achar ofensivo — murmurou Ethan ao lado dela, num tom firme. Lydia suspirou e tomou um gole de café, relutante.

Enquanto todos conversavam, os olhos de Emma vagaram pela mesa até encontrar Aruanã, que havia acabado de entrar. O olhar de Emma ficou fixo nela por alguns segundos, até que Aruanã se sentou. Emma não sabia explicar por que, mas aquela jovem tão simples parecia exercer um fascínio inexplicável sobre ela.

No meio da refeição, Dimas interrompeu o silêncio com uma sugestão:

— Senhora Emma, você disse que gostaria de conhecer as terras. Filha, pode levar ela mais tarde para dar uma volta pela fazenda?

Todos os olhares se voltaram para Aruanã. A jovem parecia desconcertada, sem saber como reagir. Depois de alguns segundos de hesitação, respondeu baixinho:

— Sim, pai.

O peso dos olhares foi substituído por um murmúrio de aprovação.

...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...

Mais tarde, Jucá estava encostado na cerca, observando Lydia de longe. Seu sorriso era malicioso, e ele balançou a cabeça, admirado.

— Que gata... ó lá em casa — disse, com um tom de brincadeira que irritou Cauê, que estava ao lado.

— Você está louco? — repreendeu Cauê, com a expressão séria. — Ela está aqui para fazer negócio com o papai. Não mistura as coisas. E, além disso, para de se envolver com as humanas. Isso pode dar muito errado.

Jucá riu, ignorando o tom sério do irmão.

— Qual é, Cauê? Tu sabe bem que as humanas não são compatíveis com nosso... sabe, né? Elas não vão engravidar do papai aqui não. — Respondeu com deboche, batendo no peito com orgulho.

— Se liga, Jucá. Temos uma missão aqui, e é melhor ficarmos distantes dos humanos, tanto para nossa segurança quanto para a deles também.

— Qual é, Cauê? Muitos deles trabalham em nossas terras. Alguns são até nossos amigos. Não vejo problema nenhum.

— Não estou dizendo que devemos odiá-los, mas precisamos manter uma distância considerável. Isso é importante para todos nós — respondeu Cauê, firme.

Enquanto eles discutiam, Lydia caminhava pelo terreiro, tentando se equilibrar com um par de saltos altos. Cauê, que observava a cena, balançou a cabeça incrédulo.

— Mas que mulher sem noção... Vai acabar levando um tombo — murmurou para si mesmo.

Não deu dois minutos, e Lydia tropeçou em uma pedra, caindo de forma desajeitada no chão de terra.

— Ai, minha nossa! Me ajuda! — gritou ela, tentando se levantar. — Cai nessa terra imunda! Deve ter várias bactérias aqui! — completou, misturando palavras em espanhol e português, o que deixou Cauê ainda mais irritado.

Ele foi até ela, estendendo a mão com pouca paciência.

— Sua mão está limpa? — perguntou Lydia, olhando para ele com desconfiança e um toque de nojo.

— Minha o quê? Mão? — Cauê perguntou, confuso.

— Sim, vai que você passa bactérias para mim! — respondeu ela, indignada.

Cauê estreitou os olhos e, com uma expressão de irritação, resmungou:

— Ah, vai para casa do caramba.

Virou-se e começou a caminhar de volta, deixando Lydia no chão. Ela ficou perplexa, assistindo ele se afastar.

— Ei! Volta aqui! — gritou ela, indignada.

Cauê parou, suspirou pesadamente e, contra sua vontade, voltou.

— Está bem. Me dê sua mão. Ou vai passar o dia todo aí, sentada na terra? — disse ele, com um tom irritado, mas com um leve toque de bondade que ele não conseguiu esconder.

Lydia hesitou por um momento antes de aceitar a ajuda. Ele a puxou com força, ajudando-a a se levantar.

— Não sei como vocês aguentam viver nesse lugar... É um perigo para a saúde! — reclamou Lydia, sacudindo a poeira de suas roupas.

— E eu não sei como você aguenta viver sendo tão fresca — respondeu Cauê, com um sorriso de canto.

Ela lançou um olhar mortal para ele, mas não respondeu, preferindo guardar sua indignação. No fundo, havia algo na maneira rude, porém honesta de Cauê, que ela não podia ignorar.

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