Aruanã não conseguia se concentrar em suas tarefas. Desde que Emma passou mal, a preocupação a corroía. Sentia-se culpada, como se toda a situação fosse sua responsabilidade. Sentou-se em um canto da varanda, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos segurando o rosto. Quando Maíra a encontrou ali, a preocupação da mãe ficou evidente.
— O que houve, filha? — perguntou Maíra, limpando as mãos no avental.
— Estou preocupada com a Emma. Foi culpa minha… — respondeu Aruanã, olhando para o chão.
Maíra se sentou ao lado dela, segurando sua mão com carinho.
— Culpa sua, por quê, filha?
— Eu a levei para ver a fazenda no horário de maior pico do sol, mas não levei água suficiente. Não pensei no sol forte. E agora ela está assim.
Maíra sorriu, tentando tranquilizá-la.
— Isso não é culpa sua, Aruanã. Você só teve tempo neste horário. E ela é adulta, sabe dos riscos. Provavelmente foi algo que ela comeu, ou a mudança de clima. Ela veio de longe, de um lugar muito diferente daqui.
Mesmo assim, Aruanã não conseguia se livrar da sensação de culpa. Antes que pudesse responder, uma das mulheres mais velhas da fazenda, Rosa, aproximou-se.
— Aruanã, você deveria se preocupar menos com a gringa e mais com o que acontece aqui — disse Rosa, sentando-se ao lado delas.
— Como assim? — perguntou Maíra, franzindo o cenho.
Rosa cruzou os braços, lançando um olhar severo para Aruanã.
— O Sinval. Ele tem saído com a minha filha, sabia? E você sabe que ele é prometido para você.
O coração de Aruanã disparou, e sua expressão mudou para choque.
— Não é verdade…
— É sim — insistiu Rosa. — Se eu fosse você, resolveria isso logo.
Aruanã não perdeu tempo. Furiosa, foi até a casa de Sinval, que ficava mais afastada na fazenda, perto das terras que Dimas havia cedido para o primo. A casa era simples, mas bem cuidada. Ela bateu na porta com força, e Sinval apareceu depois de alguns segundos, com uma expressão confusa.
— Aruanã?
— É verdade que você anda saindo com a filha da Rosa? — perguntou ela, sem rodeios.
Sinval hesitou, coçando a nuca.
— Claro que não. Quem te disse isso?
— Não minta para mim, Sinval! — Aruanã gritou, os olhos ardendo de raiva. — Eu quero a verdade!
Ele deu um passo para trás, mas tentou manter a calma.
— Não tem nada disso, Aruanã. Você sabe que eu sou prometido a você.
Aruanã estreitou os olhos e então notou algo: marcas no pescoço dele, como arranhões e mordidas.
— Você mentiu para mim… — murmurou, antes de virar as costas e começar a correr.
— Aruanã, espera! — gritou Sinval, indo atrás dela.
Mas ela não parou. A raiva e a dor a dominavam. Antes que percebesse, seu corpo começou a mudar. O som de ossos se ajustando ecoou pelo ar, e em segundos ela estava em sua forma de lobo-guará. Seus pelos brilhavam sob a luz da lua enquanto ela disparava pela mata.
Sinval parou, vendo-a correr, e também se transformou, assumindo sua forma de lobo-guará. Ele tentou alcançá-la, mas a determinação dela era maior.
Ele parou, bufando de frustração.
— Ela não vai ouvir agora… — murmurou para si mesmo, voltando para casa.
Aruanã continuou correndo, sem saber exatamente para onde estava indo. Seu instinto a guiava, e antes que percebesse, estava nos arredores de sua casa e próxima do quarto onde Emma estava dormindo.
Ela parou ao sentir um cheiro familiar, algo que a atraía de uma maneira que não entendia.
Lentamente, ela se aproximou do quarto de Emma. A janela estava aberta, e a luz da lua iluminava o interior. Emma estava deitada, parecendo frágil. Aruanã a olhava com carinho e preocupação.
"Ela vai ficar bem," disse para si mesma.
Mas os olhos de Emma se abriram levemente ao sentir a presença de algo.
Emma virou a cabeça e viu o lobo-guará parado na janela. Seus olhos se encontraram, e algo no olhar do lobo (Aruanã) a deixou intrigada. Era como se houvesse uma conexão inexplicável entre elas.
— O que…? — murmurou Emma, tentando se sentar.
Aruanã deu um passo para trás, hesitando. Ela nunca tinha feito algo assim antes, e o medo de ser descoberta a dominou. Sem pensar duas vezes, virou-se e correu, desaparecendo na escuridão.
Emma, confusa, tentou ir até a varanda, mas quando chegou lá, o lobo-guará já tinha sumido.
— Ethan! — chamou ela, ainda ofegante.
Ethan apareceu rapidamente, preocupado.
— O que houve? Você está bem?
— Eu vi algo… — disse Emma, ainda olhando para a direção onde Aruanã havia sumido. — Um lobo-guará… Assim como você.
Ethan franziu o cenho.
— Você tem certeza?
— Tenho. — insistiu Emma.
Ethan cruzou os braços, parecendo preocupado.
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Atualizado até capítulo 26
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