16. O clima na casa

Ethan estava sentado na varanda da casa, o olhar fixo no horizonte escuro do Cerrado. A brisa da noite era quente, mas ele sentia um frio incômodo no peito. As palavras de Emma, somadas às instruções de Marcus, ecoavam em sua mente.

Eles não tinham tempo. Cada vez mais mosquitos estavam sendo liberados na floresta, e o parasita já estava começando a infectar lobos em massa. O sumiço do Tio Rubão, como Dimas havia mencionado, tornava tudo ainda mais suspeito. Ethan não conseguia afastar a ideia de que o médico havia sido usado como uma peça-chave para a madeireira e o laboratório clandestino entenderem como os parasitas afetavam os lobos-guarás — e agora, talvez, os lobos metamorfos.

Ele franziu o cenho, tentando juntar as peças do quebra-cabeça. "Por que o Tio Rubão foi o alvo? Será que elas sabiam que ele tinha a fórmula para lidar com parasitas?" Sua mente trabalhava incessantemente. As conexões eram muitas, mas as respostas, poucas.

De repente, o som de passos atrás dele o tirou de seus pensamentos. Era Lydia, que passava em direção à cozinha. Ele a observou por um instante, mas permaneceu ali, perdido em suas teorias, vendo ela sumir do seu foco.

Lydia vasculhava os armários, procurando algo para comer. O dia havia sido exaustivo, e a fome finalmente a alcançara.

— O que faz aqui essa hora? — perguntou Cauê, surgindo na cozinha com uma expressão curiosa.

— Estou com fome. Hoje o dia foi intenso — respondeu ela sem tirar os olhos da busca.

Cauê riu levemente, pegando um copo na bancada.

— Fiquei sabendo que você deu uma surra no Sinval. Você é boa de briga.

— Ele não é páreo para mim — disse Lydia com um sorriso de canto. — Por que, não gostou que bati no seu cunhado?

— Muito pelo contrário — respondeu Cauê, enchendo o copo com água. — Devia ter batido mais. Não suporto aquele cara, ainda mais sabendo que ele anda sendo sacana com minha maninha.

Lydia finalmente encontrou um suco na geladeira.

— Esse suco é de quê? — perguntou ela, pegando o frasco.

— De acerola. É bom para imunidade.

Ela tomou um gole e assentiu.

— Até que é bom. — Lydia colocou o copo na bancada, encarando Cauê. — Mas me diz, por que sua irmã vai casar com ele, já que ele está sendo sacana?

Cauê suspirou, apoiando-se na pia.

— É tradição. Casamentos só são permitidos entre primos de segundo ou terceiro grau. Não podemos casar com parentes mais próximos, como tios ou primos de primeiro grau. E pessoas de fora...

— Por que não de fora? — interrompeu Lydia, curiosa.

— Porque humanos não podem fazer parte da família — respondeu ele com naturalidade. — Além de não termos cruzamento de linhagens — humanos não podem engravidar de lobos-guarás, e vice-versa — trazer um humano para a família é arriscado. Expor nossa existência não é uma opção.

Lydia inclinou a cabeça, intrigada.

— Isso explica muito, todos aqui somente nesta fazenda… mas parece um pouco extremo.

— É assim que sobrevivemos. — Cauê deu de ombros. — Não é perfeito, mas funcionou até hoje.

Lydia olhou para ele com um misto de curiosidade e frustração.

— E você concorda com isso?

— Sim completamente. — Ele hesitou. — Meu irmão Jucá não concordava também. Ele se apaixonou por uma humana, Jéssica, a médica. Mas meu pai a ameaçou, e ela terminou com ele . Desde então, ele nunca mais foi o mesmo, agora fica para cima e para baixo com um monte de garota.

Lydia ficou em silêncio, absorvendo a história, enquanto Cauê desviava o olhar, claramente incomodado.

— Acho que eu vou voltar para o quarto antes que fiquem falando por aí que fiquei te segurando mais tempo do que deveria — disse Lydia, se levantando.

— Vai lá, antes que eu comece a acreditar que você está sempre procurando uma desculpa para vir aqui — respondeu Cauê com um sorriso de canto. Mas olha Leve esse pacote de biscoito.

Ela revirou os olhos, mas pegou o biscoito.Quando estava prestes a sair, a barra da sua blusa prendeu-se na cadeira. O movimento brusco fez com que ela perdesse o equilíbrio, quase caindo para trás.

— Ei, calma aí! — disse Cauê, segurando-a pela cintura no último segundo.

Lydia olhou para ele com uma irritação, tentando recuperar a postura.

— Sempre se jogando para cima de mim, né? — brincou Cauê, o sorriso travesso nos lábios.

— Que convencido você é! — retrucou Lydia, ajeitando a blusa enquanto ainda estava perto dele. — Você acha mesmo que eu iria querer algo com um cara rústico como você? — Falou de virando de frente para ele.

Cauê arqueou uma sobrancelha, claramente se divertindo.

— Rústico? Essa é boa. Vai dizer que você só gosta dos seus grã-finos franceses ou coisa do tipo?

— Exatamente — respondeu ela, deslizando os dedos pelo peitoral dele com um ar de desdém brincalhão. — Eu gosto de pessoas chiques, elegantes. Não de um lobo magricela como você.

Cauê segurou o riso e inclinou-se levemente, os olhos fixos nos dela.

— Meu corpo não parece tão magrelo assim pra você, né? — provocou, apertando levemente os próprios braços em um gesto despreocupado.

Lydia hesitou por um momento, depois deslisou as mãos no peitoral dele.

— Pelo menos tem um pouco de músculo — disse ela, como se estivesse avaliando.

— É mesmo? — ele respondeu, dando um passo para mais perto.

De repente, a tensão entre eles ficou palpável. Lydia, que ainda estava com as mãos no peito dele, sentiu o calor do corpo de Cauê. Ele, por sua vez, não desviou o olhar, desafiando-a com um sorriso.

Antes que pudesse pensar, Lydia sentiu a respiração de Cauê tão próxima que parecia impossível desviar. E, em um impulso inesperado, os dois se beijaram.

Foi um beijo intenso, mas breve, cheio de energia contida. Quando se separaram, Lydia deu um passo para trás, ajeitando a blusa com uma expressão de surpresa e irritação.

— Você está muito convencido, nem beija tudo isso.— disse ela, a voz ligeiramente trêmula.

Cauê apenas sorriu, sem responder, enquanto Lydia saía da cozinha com passos firmes, e acelerados. Ele ficou ali por um momento, olhando para onde ela havia ido, um sorriso divertido ainda nos lábios.

— Convencido, né? — murmurou para si mesmo.

Enquanto Cauê continuava na cozinha satisfeito com o momento inesperado, um som vindo da dispensa chamou sua atenção. Ele virou-se a tempo de ver Iracema saindo de lá, os olhos fulminando de raiva.

Ela parou na porta da dispensa, os braços cruzados e o rosto vermelho de irritação. Antes de dizer qualquer coisa, fez o gesto de "estou de olho", colocando os dedos em forma de V sobre os olhos e apontando diretamente para ele.

— Iracema… — começou Cauê, surpreso, mas ela o interrompeu com o olhar.

Sem dizer uma palavra, ela virou, e saiu, as saias balançando com o movimento rápido. Cauê suspirou, passando a mão pelos cabelos.

— Era só o que me faltava… — murmurou ele, balançando a cabeça enquanto olhava para a porta por onde ela havia saído.

Iracema, por sua vez, caminhava pelo corredor com passos pesados, o coração apertado. Desde que era jovem, ela nutria sentimentos por Cauê. Porém, sendo primos de primeiro grau, o destino nunca permitiria que eles ficassem juntos.

Mas vê-lo beijando aquela estrangeira… aquilo a deixou irritada de um jeito que ela não conseguia disfarçar.

"Eu não tenho direito de sentir isso", pensou ela, mas não conseguia controlar a raiva e a pontada de ciúmes.

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