19. Noites e confusões

A noite era densa, e a única luz vinha da lua que iluminava fracamente a varanda onde Sinval e Julião se encontravam. Sinval estava inquieto, o rosto contorcido em raiva após o confronto com seu pai. Julião, como sempre, exalava uma postura relaxada, mas os olhos atentos demonstravam que estava pronto para o que viesse.

— Meu pai me enfrentou hoje. — começou Sinval, quebrando o silêncio. — Ele acha que pode me parar, mas isso vai custar caro. Muito caro. Ele acha que é forte, mas ele não entende que eu sou a força desta família agora.

Julião deu uma risada baixa, mexendo na aba do chapéu.

— Forte? Você é só barulho, Sinval. Se fosse tão forte assim, já teria feito alguma coisa em vez de só reclamar.

— Cala a boca, Julião! — rugiu Sinval, avançando um passo, mas Julião não recuou. — Você não tem moral nenhuma para falar comigo. Meu pai ainda não sabe quem é o verdadeiro traidor. Você é um rato, entregou tudo para os madeireiros.

Julião ergueu as sobrancelhas, fingindo-se ofendido.

— Eu? Quem foi que ficou correndo atrás de dinheiro como um desesperado, hein? Quem é que quer derrubar o Dimas a qualquer custo? — Ele deu um passo à frente, o tom sarcástico desaparecendo. — Você precisava de dinheiro, Sinval. E quem arriscou o pescoço fui eu. Agora quer jogar tudo em cima de mim?

— Nós precisávamos de dinheiro para financiar esse esquema, para acabar com o Dimas de uma vez. — Sinval disse entre dentes. — Ele é um obstáculo. Com ele no comando, eu nunca teria o controle real dessa fazenda, nem do nosso povo.

Julião estreitou os olhos.

— Mas você teria Aruanã. Não seria suficiente?

— Claro que não! — gritou Sinval. — Ele nunca me daria controle de verdade. Ele só aceitou o noivado porque viu nisso uma forma de me controlar, como controla tudo. E, além disso, esse povo é burro. Com certeza, se algo acontecesse com o Dimas, eles colocariam o Cauê ou o Jucá no lugar dele.

Julião riu alto.

— Jucá? Aquele moleque? Ele não teria a menor chance.

— Ele pode ser um bobão, mas ainda assim é filho do Dimas. O povo admira o pai dele. Admira o caráter, a liderança... todo esse sentimentalismo que me dá nojo. — Sinval cuspiu as palavras. — Eles fariam isso só por lealdade.

— E como os madeireiros chegaram até nós? — perguntou Julião, mudando de assunto. — Você sabe que eu não fui o único a dar informações.

— Parece que eles estavam pesquisando algo para destruir lobos em outros países, especialmente na América do Norte. — Sinval explicou. — Foram estudando doenças, analisando populações, até que chegaram à nossa região. E, claro, perceberam que havia algo mais aqui.

Julião inclinou a cabeça, curioso.

— Algo mais? Você contou sobre nós?

Sinval deu um sorriso debochado.

— Claro que contei. Eles não sabiam que havia metamorfos por aqui. Só achavam que existiam lobos comuns na região do Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e uma pequena área no cerrado paulista. Quando perceberam que havia algo diferente, pagaram muito bem pelas informações.

— E o tio Rubão? — perguntou Julião, estreitando os olhos. — Você também contou sobre ele? Porque se eles sabem das pesquisas dele, então o sumiço dele não é coincidência.

— Não me interessa o que aconteceu com o Rubão. — Sinval disse friamente. — Se sequestraram ele, que seja. O que eu quero é poder. E se eu tiver que derrubar qualquer um para conseguir, vou derrubar.

Julião balançou a cabeça, desaprovando.

— Você está brincando com fogo. E esses madeireiros? O que exatamente eles querem?

— Querem o óleo do Ibirapê. — respondeu Sinval. — Mas não só isso. Querem saber como funciona, como extrair, como manipular. Estão dispostos a pagar caro por isso.

Julião riu amargamente.

— Então você está traindo sua própria gente por dinheiro. E o Dimas, claro, era um obstáculo porque não quis negociar com os madeireiros, não é?

— Exato. — Sinval confirmou. — Aquele idiota se recusa a trabalhar com eles porque não gosta de suas práticas. Prefere negociar com outros que cortam árvores de maneira “sustentável”. — Ele zombou, fazendo aspas com os dedos. — Ele não entende que o mundo mudou. Precisamos de poder, não de harmonia.

— Poder? Você está destruindo a base de tudo o que sustenta nosso povo. — Julião disse, a voz ficando mais séria. — O meio ambiente não é só um ideal. É o que nos mantém vivos.

— Cala a boca, Julião! — rugiu Sinval, avançando novamente. — Você não entende nada sobre poder. E eu vou mostrar para todos que sou mais forte do que qualquer um aqui. Começando pelo Dimas.

...ΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩΩ...

A casa estava silenciosa após o jantar. O clima ao redor da mesa havia sido pesado, e Dimas parecia carregado de preocupações. Ele mal falou, refletindo sobre as tensões que sentia crescendo entre as famílias da fazenda. Embora muitos tivessem concordado com suas palavras durante a reunião, ele percebia olhares desconfiados, e a atmosfera parecia dividida novamente. Ele sabia que algo estava errado, mas decidiu não comentar nada.

Enquanto isso, Aruanã se preparava para dormir. Após escovar os dentes e lavar o rosto, ela sentiu um perfume familiar e inconfundível pairando no ar. Era Emma. A curiosidade e uma inquietação a levaram até a varanda, onde viu a americana olhando para o horizonte, os braços cruzados e a postura abatida.

— O que houve, Emma? Estou te achando tristinha. — perguntou Aruanã, com a preocupação evidente em sua voz.

Emma suspirou profundamente antes de responder, sem desviar os olhos da escuridão à frente.

— Marcus ligou. Ele pediu para voltarmos o quanto antes. A situação lá não está nada bem... Precisamos partir amanhã. Já avisei ao seu pai. — A voz de Emma estava baixa, carregada de tristeza.

As palavras pareciam pesar no peito de Aruanã. Desde que Emma chegara, ela havia preenchido um espaço que Aruanã não sabia que existia. Agora, a ideia de perdê-la era insuportável.

— Eu entendo sua missão. É importante, sei disso porque também temos a nossa. — Aruanã fez uma pausa, buscando coragem para continuar. — Mas confesso que uma parte de mim não queria que você fosse.

Emma se virou para encará-la, a vulnerabilidade estampada em seu rosto.

— Eu também queria ficar mais, mas não posso. — respondeu Emma, afastando delicadamente os cabelos de Aruanã para trás.

As duas se olharam por um longo momento, a conexão entre elas palpável, como se o mundo ao redor desaparecesse.

— Você vai mesmo casar com aquele homem? — perguntou Aruanã, quebrando o silêncio, a dor e a incerteza em sua voz tão claras quanto a luz da lua.

Emma hesitou antes de responder, mas finalmente falou, a sinceridade marcando cada palavra.

— Eu não quero... Mas minha alcatéia precisa dessa aliança. É o que esperam de mim. — Ela fez uma pausa, a voz tremendo levemente. — Mesmo assim, desde que te vi, não consigo mais me imaginar com ninguém. Parece que eu estaria traindo o que sinto por você.

Os olhos de Aruanã brilhavam, e ela respirou fundo antes de confessar:

— Desde que você chegou, eu sinto a mesma coisa. É como se meu coração estivesse em outro lugar quando não estou perto de você.

Emma sorriu, um sorriso triste e cheio de ternura.

— Mesmo que eu aceite Jean-Pierre Pondé, meu coração estará sempre com você. E, qualquer coisa que você precisar, eu vou pegar o primeiro voo e descer direto aqui. Eu prometo. — disse Emma, sua voz carregada de emoção.

Elas caminharam juntas até o quarto de Aruanã. Antes de entrar, Aruanã parou e olhou fixamente para Emma, seus olhos transmitindo uma mistura de desejo, hesitação e algo mais profundo.

— O que foi? Você nunca me olhou assim antes. — perguntou Emma, com um leve sorriso.

Aruanã desviou o olhar por um instante, mas reuniu coragem para falar:

— Eu sou muito tímida... Mas gostaria de pedir algo. — Sua voz era quase um sussurro. — Queria sentir o gosto dos seus lábios antes de você ir.

Emma ficou parada, surpresa com a confissão. Aruanã rapidamente se corrigiu, visivelmente sem graça.

— Desculpa. Eu não deveria ter dito isso... É que... Eu só queria que meu primeiro beijo fosse com alguém com quem eu tenho uma conexão.

Emma não respondeu de imediato. Em vez disso, deu um passo à frente, sua mão subindo lentamente até o rosto de Aruanã. Seus dedos traçaram a linha de sua bochecha, até pararem no queixo dela. Com um toque delicado, Emma levantou o rosto de Aruanã para que seus olhos se encontrassem.

— Você não precisa se desculpar. — disse Emma suavemente.

Aruanã ficou imóvel enquanto Emma se aproximava, cada movimento carregado de cuidado e ternura. Quando seus lábios se tocaram, o mundo pareceu parar. O beijo foi tímido no início, um toque suave e hesitante, como se ambas estivessem explorando um território desconhecido. Os lábios de Aruanã eram macios, e Emma sentiu o calor de sua respiração misturando-se com a sua.

Com o passar dos segundos, o beijo se aprofundou. Não era apressado nem impetuoso, mas cheio de uma emoção silenciosa, como se ambas estivessem tentando gravar cada detalhe daquele momento em suas almas. Emma afastou-se levemente, apenas o suficiente para olhar nos olhos de Aruanã, antes de beijá-la novamente, desta vez com mais confiança.

Quando o beijo finalmente terminou, elas ficaram ali, tão próximas que podiam ouvir o coração uma da outra. Emma sorriu, acariciando o rosto de Aruanã com o polegar.

— Obrigada por confiar em mim. — disse Emma, a voz embargada.

Aruanã abaixou o olhar, mas um sorriso tímido brincava em seus lábios.

— Eu nunca vou esquecer isso... — respondeu ela.

Emma acompanhou Aruanã até a cama, e as duas se sentaram lado a lado, os sentimentos ainda pairando no ar. Finalmente, Aruanã deitou-se, puxando Emma para se deitar ao seu lado.

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